O teatro é uma ferramenta social potente que ao mesmo tempo que diverte e emociona também propaga conhecimento e importantes reflexões. O passeio por histórias tão alheias às vivências de cada um na plateia pode falar alto com a alma, fazendo repensar as próprias escolhas. Tocar o coração (de muitas formas diferentes) é uma qualidade natural dessa arte milenar.

Em tempos sabidamente difíceis para produção teatral no Brasil, seguir cumprindo a missão deste ofício se torna ainda mais uma questão de amor e resistência. E, inclusive por isso, destacar os trabalhos que marcaram a cena teatral do (complicado) ano de 2017 é também reforçar a importância de que a arte siga nos alimentado e esclarecendo.

Aue

O amor cantado e encenado por atores, cantores e músicos. O elenco de multi-talentosos da Cia Barca dos Corações Partidos encantou o (sempre lotado) público com um trabalho incrível de corpo. A maravilhosa direção trouxe musicalidade e muito amor transbordando na dramaturgia. Um trabalho lindo e muito divertido.

Alice através do espelho

Logo no comecinho de 2017 o Armazém Cia de teatro presenteou o público com uma remontagem da peça. Realizada dentro do próprio galpão da Cia, na fundição Progresso, o espetáculo era um passeio pelo universo encantado (e um pouco psicótico) de Lewis Carrol. Contando a história por um ponto de vista mais crítico caótico sobre uma história passada de forma encantada para gerações. Com toda genialidade de Paulo de Moraes, o trabalho é dessas preciosidades que torcemos para rever sempre.

Gritos

Da Cia Dois à Deux é um espetáculo visual. Numa narrativa que trabalha com pouquíssima luz e um trabalho indescritível com bonecos, cenário modulado e atores, a trama narra esquetes que falam de abusos cotidianos e seu poder destrutivo. Embrulha o estômago, fica na cabeça e reverbera na garganta por dias a fio.

Rio diversidade

Uma série de 4 monólogos entremeados e muito bem apresentados pela performance de uma drag queen Magenta Dawning. Temáticas mais que urgentes, leva-nos a momentos catárticos de riso e também de choro. Um projeto que deveria ser prolongado para que as reflexões ali propostas cheguem ao máximo de pessoas possível.

O Mambembe

O MAMBEMBE

“O que falta no Brasil, o teatro pode ensinar” é apenas umas das inúmeras frases do espetáculo que nos emociona e faz refletir. Jovens atores, cantores e bailarinos desempenhando com maestria o ofício do ator. Direção geral e de movimento dançando em perfeita sintonia e sendo potencializado pelo cenário que se transformava a cada cena e também pelo figurino primoroso.

Hamlet

Foto: Divulgação / João Gabriel Monteiro

Também realizado pelo Armazém Cia de Teatro, a releitura do clássico shakespeariano traz uma linguagem atual sem perder as referências temporais. Com grande destaque a protagonista Patrícia Selonk, na narrativa escrachada (que parece característica do grupo). Um trabalho para ser visto.

Adubo

O Espetáculo mais necessário e urgente que nos traz reflexões extremamente importantes, porém com uma linguagem lúdica e poética. Teatro vivo!

Bituca

Peça Infantil que foge aos padrões da infantilização da criança e traz bravamente, poética e ludicamente à tona questões sobre racismo, bulling entre outras temáticas importantíssimas de serem trabalhadas e/ou desconstruídas desde pequeno. Além disso, somos embalados pelas músicas de Milton Nascimento que com novos arranjos nos levam à emoção.

Suassuna – O auto do reino do Sol

Suassuna

Mais um trabalho incrível da Barca dos Corações Partidos. Contando um releitura da obra de Ariano Suassuna, a Cia traz a cena sua característica musical (com atores multi-instrumentistas), narrando um sertão de outrora com musicalidade regional (que conta com nomes de peso no processo como Chico César) e um trabalho autoral e emocionante.

Curral Grande

Uma abordagem criteriosa a um tema desconhecido. Curral Grande é, sem dúvida, uma das melhores surpresas cobertas em 2017. Não só por traduzir em arte de qualidade uma história próxima e desconhecida de barbárie em solo nacional, mas por fazê-lo com propriedade explorando diversas linguagens. Um pequeno elenco, um cenário simples e uma profundidade densa.

É importante destacar que os espetáculos apresentados aqui foram selecionados dentre aqueles cobertos pela Woo! Magazine. E que para além desses 10 títulos, muitos outros trabalhos incríveis foram apresentados neste ano (como “Eu quase morri afogada várias vezes”, “Na selva das cidades – em obras”, “O alfaiate das palavras”, “5 passos para não cair no abismo… entre outros que com dança, teatro, música e muito talento encantaram e muito). Parte desses trabalhos contaram com fomento, outros tantos não e vêm desenvolvendo seus projetos de forma independente. O fato é que em tempos de recursos tão escassos incentivar a arte é fundamental! Então que 2018 venha com melhores ventos para a arte, e cada vez mais público em frente ao palco!


Matéria feita de forma colaborativa com a Colunista Adriana Dehoul.