A terapia de regressão de memória costuma ser um assunto polêmico. Embora seja um procedimento baseado na hipnose e com total embasamento científico, ela tem forte ligação com as doutrinas espiritualistas que admitem a pluralidade de existências, mais conhecida como reencarnações. Pelo fato de dar acesso a memórias da infância tanto quanto a recordações latentes de vidas anteriores, a terapia de regressão de memória é vista com ceticismo por uma parcela da sociedade. Polêmicas religiosas à parte, esse tipo de terapia é uma técnica psicoterapêutica que apresenta resultados comprovados na cura de diversos traumas.

Abordando essa terapia o premiado quadrinista André Diniz produziu a inusitada HQ “7 Vidas”, na qual constrói uma espécie de documentário em quadrinhos a respeito do tema. A obra foi publicada originalmente pela Conrad Editora, em 2010, ocasião na qual levou o Prêmio HQ Mix de Melhor Roteirista para André Diniz, em 2011. Posteriormente ganhou uma versão em websérie colorida, publicada no site Muzinga.

Em determinado momento de sua vida o reconhecido do roteirista da cena underground de quadrinhos, após longo período de indecisão, sentiu a necessidade de praticar a terapia de vidas passadas. Ele conta que teve dificuldades no início, mas em pouco tempo passou a ser algo totalmente natural onde teve a oportunidade de descobrir fatos interessantes a respeito de si mesmo.  Após mais de um ano nesta jornada pelo autoconhecimento, Diniz decidiu registrar essa rica experiência na forma de história em quadrinhos. O resultado foi um álbum que misturou os relatos da terapia com episódios reais de sua vida, tal como a perda de uma gravidez por sua esposa e posteriormente uma nova gravidez em situação similar à anterior.

A narrativa de “7 Vidas” se desenrola como um relato quase literal das sessões que o levaram a descobrir detalhes sobre suas encarnações passadas e como elas influenciam sua via presente. De forma a contextualizar as sessões de hipnose, o roteiro entrelaça situações cotidianas da vida pessoal do autor com sua esposa e também a relação de confiança que desenvolveu com a terapeuta. Mesmo assim, de modo geral, boa parte da história se foca nos relatos das impressões que ele acessava durante as regressões. Com isso a história perde um pouco em estrutura narrativa formal, pois não segue o paradigma tradicional em três atos. Por outro lado ganha um aspecto de documentário autoral, já que se desenvolve na forma de um relato pessoal espontâneo e honesto, descortinado sem preconceitos ou tendências para qualquer doutrina religiosa. Mesmo sendo uma pessoa muito reservada, André Diniz conta que não se sentiu exposto em sua intimidade em nenhum momento.

Para ilustrar esse roteiro complexo, o autor convidou seu amigo de longa data, Antônio Eder. Dono de um traço simples, porém bastante expressivo, o desenhista conseguiu aplicar um estilo leve que se casa perfeitamente e de forma sutil com a densidade dramática da história. O ponto negativo é que essa densidade não foi tão simples de se encaixar em 122 páginas, sendo necessário lançar mão de explicações textuais em passagens complexas onde a linguagem visual precisaria de mais espaço. Perde-se um pouco em narrativa originalmente quadrinística, mas compensa-se com o viés de documentário da obra.

Aliás, este é o maior mérito de “7 Vidas”: preocupar-se mais com a essência do que com a forma no assunto que se quer narrar. Diniz teve a sensibilidade de abordar um assunto polêmico sem jamais resvalar em religiosidade e misticismo. Também teve o bom senso de não pender para uma literatura fantástica ou mesmo de autoajuda. Dessa forma, é possível ler e apreciar a obra sem ter qualquer conhecimento ou crença em reencarnações. Isso porque o roteiro toma o cuidado de se afastar de conteúdo doutrinário para se focar na experiência de André, deixando as interpretações e conclusões totalmente a cargo do leitor.

André Diniz é um dos roteirista de HQs mais prolíficos da atualidade. Suas obras costumam ser bem recebidas no mercado de quadrinhos, tanto que já recebeu 18 prêmios em diversas categorias. Além de seus próprios trabalhos, também é um grande fomentador da sétima arte no Brasil. Embora “7 Vidas” não seja um de seus trabalhos mais recentes, vale a pena ser conferido por abordar um tema delicado como a regressão a vidas passadas.