Eles não quiseram saber se era menino ou menina. Eles não se importavam com isso. Eles só queriam que o bebê nascesse saudável. E nasceu. Não pintaram seu quarto de azul. Não pintaram seu quarto de rosa. Pintaram seu quarto de amarelo. Amarelo para remeter o sol. Para remeter ao brilho, ao calor. Pintaram de amarelo porque ia chegar o seu pequeno sol particular. Um pequeno solzinho que veio dar brilho e calor à vida do casal. E quando o sol nasceu descobriram que o pequeno era uma pequena.

A medida que a menina crescia seus raios cresciam juntos. A medida que a menina crescia o brilho era mais intenso, mas as coisas mudavam. Ao chegar aos 6, o sol já não queria ser amarelo, ela queria ser verde. Verde como uma plantinha. Verde como um periquito. Verde como uma jujuba de limão. Verde como uma uva. Até seus olhos ela queria que fossem verdes. E o verde, sua cor preferida, passou a ser a cor de seu quarto e de quase tudo que a menina queria ter e tinha.

Com a mudança também veio na relação de seus pais. Que nem sempre cumpriam suas atividades de pais. Que nem sempre estavam juntos com ela. Que nem sempre davam atenção a menina. Que nem sempre conseguiam esconder da pequena que eles também não tinham mais uma relação brilhante como o sol. Que nem sempre conseguiam esconder o verde amargo do kiwi que estava a relação entre eles.

Ela acompanhava a distância, sem entender muito bem o que acontecia. Sem entender o verde da raiva de seus pais quando gritavam um com o outro. Sem entender o verde de inveja quando um conseguia algo importante e o outro não comemorava. Sem entender o verde de nojo que um sentia um do outro ao se encostarem. Era como se sua cor favorita fosse a cor de seus pais. Pais verdes. Pais que talvez não estavam prontos para ser pais. Pais presos numa relação verde, que não conseguiu amadurecer com o tempo.

Mas ela não desistiu de sua cor. Mas ela também não conseguia entender o verde entre seus pais. Um dia deitada na grama, no jardim da sua casa, ele viu algo se mexer. Algo diferente do que ela já tinha visto. Algo pequeno. Algo esguio. Algo que parecia frágil. Ágil. Algo que veio em sua direção. Mesmo sem conhecer ela não teve medo. Ela não chorou. Ela não fugiu. Ela estendeu a mão. Estendeu a mão para o desconhecido. Estendeu a mão para algo verde. Estendeu a mão para a esperança.

Esperança. Esperança foi o nome que sua mãe disse que chamava aquele bichinho, quando ela correu para mostrar. Mostrou com gosto seu novo amigo. Amigo que se chamava esperança, sem saber o porquê. E ela indaga sua mãe sobre esse nome que a conta o que é esperança. Em sua cabecinha só entrou o que lhe importava. Esperança é algo que sentimos no coração acreditando que algo poderia acontecer. E o bichinho reapresentava que algo bom que ela acredita poderia acontecer, se mantivesse a esperança.

Ao ouvir isso ela correu para seu quarto para guardar o bichinho e não deixasse ele ir embora. Ela não queria perder seu novo amigo. Ela não queria perder seu bichinho verde. Ela não queria perder a esperança. E com a esperança em suas mãos confessou coisas que passavam em sua mente e em seu coração. Coisas que ela entendia do seu jeito. Coisas que não faziam sentido. Coisas que desejava. Coisas que seus pais talvez não se importassem. Ou estivessem verdes demais para se importar.

Quando o pai chegou em casa a menina mostrou a ele sua esperança. A mãe queria que a menina deixasse a esperança ir. A menina não queria. O pai disse que a esperança não iria. A mãe não queira a esperança em casa. Mas a pequena jamais a deixaria ir embora. Talvez nem a própria esperança quisesse. Desde o encontro entre elas, a esperança não saiu do corpo da menina. Passou o dia em cima dela. Talvez, assim como a menina, a esperança também não quisesse ir. E a esperança não foi. O pai construiu no dia seguinte um habitat para o bichinho. Com proteção para que ela não partisse.

Ali, ela se manteve por muitos dias. A menina a alimentava. A menina conversava com ela. A menina brincava com ela. A menina passeava pela casa com ela. Tinha até dias que a menina dormia com a esperança, esperando que ela não tivesse ido embora quando acordasse. E ela nunca ia. Mas enquanto sua relação com a esperança aumentava a de seus pais diminuía dia após dia. Briga após briga. Fora de seu quarto o mundo se tornava mais sombrio. Mais estranho. Menos compreensivo. Menos amável.

Quando estava com sua amiga tudo era perfeito. Se estivesse com seu pai ou sua mãe também. Mas quando estava com ambos os pais, não era confortável. Não era feliz e não entendia o porque. Então ela corria e contava para sua amiguinha. Contava o que via. Contava o que ouvia. Contava como se sentia. Contava que não entendia. Contava o que queria.

Um dia qualquer ela, com ajuda de seu pai limpou a casinha da esperança e a deixou na sala. Foi fazer seu dever e percebeu quando sua mãe chegou. Percebeu, mas não foi recebê-la e ficou entretida com suas atividades. Mas as atividades não conseguiram prender a atenção quando começou a ouvir seus pais gritando na sala. Incomodada com o barulho a menina saiu de seu quarto e foi ver o que estava acontecendo. E ela viu tudo o que queria e não queria. Viu tudo que podia e não podia.

Ela não entendia o que eles falavam, mas sabia que não era bom. Ela não queria que eles estivessem assim. E seu coraçãozinho doía e ela não sabia o porque. Doía tanto ao ponto de começar a chorar vendo a cena. A chorar baixinho sem que seus pais percebessem. Quanto mais alterados, mais ela sentia. Mais doía. Mais ela chorava. Calada.

Foi então que ela viu sua mãe avançar sobre o seu pai, o batendo com todas as forças. Com tanta força que ele, tentando se defender, esbarrou na casinha da esperança que caiu no chão e se quebrou. Mais doía. Mais ela chorava. Ele também irritado, empurra sua mãe e acerta-lhe um tapa. Foi nesse momento que ela sabia. Foi nesse momento que ela sentiu. Foi nesse momento que ela viu. Foi nesse momento que a esperança foi embora. E ela chorava calada.

Nota do Autor

Esse conto que acabou de ler, faz parte da série “7/Entrelinhas” que comecei escrever aos 18 anos. Os quatro primeiros contos foram desenvolvidos no mesmo ano e os três últimos ganharam forma dois anos mais tarde. Seis deles são sobre pessoas de diferentes idades e classes sociais, em algum momento específico de suas vidas, enquanto o sétimo e último é a respeito de um lugar que entrelaça as histórias dos personagens apresentados nos anteriores.

A narrativa descritiva, que flui sobre a construção de tais personas e seus “particulares” momentos, seguem uma estrutura intimista para a futura exposição de algo maior, que venho preparando aos poucos. Ao voltar à esse projeto, me deparei com a enorme vontade de compartilhá-la com o maior números de pessoas e, por isso, resolvi publica-los na internet, através da coluna “Literando” da Woo! Magazine.

Espero que tenham aproveitado a leitura e tenham sido tocados por esse breve texto, da mesmo maneira que me senti afetado por ele quando o escrevi. A cada dois meses estarei lançando a continuação, não linear, dos contos para a apreciação de todos. O próximo, “Sorriso Preto”, estará disponível no mês de julho.

De coração cheio e esperançoso até o próximo.

Part.I: Vestido Vermelho

Part.II: Olhos Azuis