Antes do Maracanã, um gigante imperava sobre os olhos dos amantes de um esporte que crescia no país, às vésperas do primeiro mundial da categoria. Foi no bairro de São Cristóvão que o maior palco esportivo da América Latina era erguido. No dia 21 de abril de 1927, o Estádio São Januário era inaugurado.

A história

No início do futebol cruz-maltino, a equipe usava o estádio do Andaraí, hoje onde está localizado o Boulevard Rio Shopping, antigo Iguatemi, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio de Janeiro. Desde a ascensão do clube à primeira divisão, em 1923, a diretoria do Vasco da Gama já planejava a construção de um estádio próprio. Contudo, a ideia só saiu do papel depois da criação da AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athleticos). Um dos motivos argumentados para a não inclusão do Vasco na nova liga era a falta de um estádio próprio. A partir desse momento, começaram os preparativos para a construção do Gigante da Colina, graças a arrecadação de verbas entre os torcedores da equipe. Mesmo enfrentando problemas, em junho de 1926, erguiam-se as primeiras pedras do que seria São Januário. O Vasco chegou a apresentar um projeto de estádio para 100 mil pessoas mas que acabou não indo muito a frente.

Dez meses depois, o estádio era inaugurado, com a presença de Washington Luís – então presidente da república – para  tornar-se o maior estádio do mundo novo. Até 1930, quando ocorreu a inauguração do Estádio Centenário em Montevidéu, para a primeira Copa do Mundo, realizada no mesmo país,  era o maior das Américas. Em 1940, quando houve inauguração do Pacaembu em São Paulo, o estádio era o maior do Brasil, e até 1950, na inauguração do Maracanã, era o maior do Rio de Janeiro. Após mais de 80 anos desde sua inauguração, este templo do futebol continua sendo o maior estádio particular do estado.

No jogo inaugural, dia 21 de abril de 1927 – duelo de alvinegros – Vasco e Santos se enfrentaram, sendo melhor para os paulistas, que venceram a partida por 5 a 3. A seleção brasileira também atuou no Gigante, em 1939, pela Copa Rocca (hoje Super Clássico das Américas) e foi derrotada por 5 x 1 para a Argentina.

Mais um fato que eterniza São Januário na história foi o milésimo gol do baixinho Romário, um dos maiores atacantes de todos os tempos, contra o Sport Recife, em 2007.

São Januário, palanque político

Se engana quem pensa que São Januário apenas sediou eventos esportivos. A política também esteve presente dentro dos gramados do estádio. Nos Dias da Independência e do Trabalho, durante os governos de Getúlio Vargas, o então presidente da república discursava na Tribuna de Honra do clube, além de desfilar em carro aberto pelo gramado, para um público de milhares de pessoas. Foi no estádio que Vargas instituiu um dos momentos mais importantes da história trabalhista brasileira, o Salário Mínimo, além de outros feitos relacionados ao trabalhador, como já era costume nesta data durante o Estado Novo.

Em entrevista ao Diário O Lance!, o historiador do Centro de Memória do Vasco, Walmer Peres, Getúlio Vargas criou uma grande identificação com o estádio:

“Getúlio Vargas escolhia São Januário até quando já tinha o Maracanã. Em 1951, quando ele retorna (à presidência), ele escolhe São Januário ao invés do Maracanã. Isso aí pouca gente se atenta. Em 1951 e 1952 ele está aqui. Poderia estar no Maracanã, era um palco para 200 mil pessoas. Mas ele prefere fazer aqui em São Januário. Criou-se uma identidade – conta o historiador, garantindo que essa ligação não deu ao Cruz-Maltino nenhum benefício específico.”

Passaram também pela Tribuna de Honra de São Januário, nomes importantes da política brasileira, como Luiz Carlos Prestes, Juscelino Kubitschek, Eurico Gaspar Dutra, João Goulart e outros.

A “garota de Ipanema” dos vascaínos

São Januário pode ser chamada de Musa inspiradora dos torcedores vascaínos. Nas músicas de exaltação ao clube, há sempre uma parte dedica ao estádio. Em um dos hits de grande sucesso inspirado no Gigante da Colina, Camisas Negras, São Januário é retratado como um grande monumento de inspiração e de amor dos torcedores. A música conta um pouco da história do clube, enfatizando a luta do Vasco contra o racismo, logo no início de sua história. Para quem não conhece a canção, vale a pena conferir:

Outra música que enfatiza o Vasco e que apresenta referência a São Januário foi a adaptação da música “Bebendo Vinho”, de Walter Wildner, “São Januário, Meu Caldeirão”. No hit, que é cantado até hoje, São Januário é mostrado como o grande caldeirão que se tornou. Além disso, é também mencionado o gol de Juninho Pernambucano, pela semifinal da Copa Libertadores, em 1998, ano em que o cruz maltino sagrou-se campeão da competição. Essa é mais um dos sucessos cantados pelos vascaínos em São Januário.

Do passado a modernização: Mudanças na estrutura do Gigante

Nascido de uma união de vascaínos a fim de dar ao clube cruz-maltino um lar para jogar as partidas, o gigante da Colina, como é carinhosamente chamado por seus torcedores, se imortalizou na cidade do Rio de Janeiro por receber durante décadas partidas de grandes equipes do mundo e da seleção brasileiro. Em cada jogo, arquibancadas lotadas para apoiar os alvinegros rumo às glórias. Mas, nos últimos anos, a imensidão conhecida do estádio foi diminuindo. Durante a final da Copa João Havelange, de 2000, o alambrado que separava a torcida do gramado caiu, causando ferimentos em torcedores. Esse foi o estopim para redução do público do estádio, que já chegou a receber mais de 35 mil torcedores em jogos, e hoje abriga a capacidade de pouco mais de 21 mil torcedores.

Contudo, nem tudo é tristeza. Dos anos 90 até hoje, o estádio vem passando por processos de mudanças. A criação do setor social, com cadeiras que dão conforto aos torcedores presentes, mesmo a maior parte da casa vascaína não ter cadeiras nas arquibancadas, as reformas nos vestiários, banheiros e bancos de reservas, que dão mais conforto para atletas e torcedores, além de toda estrutura poliesportiva presente em São Januário, como o novo ginásio de basquete e o parque aquático. Contudo, todas as mudanças vem ocorrendo a passos lentos.