O Oi Futuro, localizado no Flamengo, na Rua Dois de Dezembro 63, é um instituto de responsabilidade social da Oi que promove, apoia e desenvolve ações nas frentes de Educação, Cultura, Inovação Social e Esporte. Seu objetivo é dito como “acelerar iniciativas que potencializam o desenvolvimento pessoal e coletivo, fomentam experimentações de inovação e estimulam conexões”. Na área de Cultura, além de abrigar o Museu de Telecomunicações, o instituto ainda recebe exposições e busca uma programação voltada para a produção de vanguarda, que una arte contemporânea e tecnologia. A sede é moderna e, como diz o próprio nome, com aspecto futurista. Ela abrigará, até 28 de janeiro, a exposição “Wishful Thinking”, de Miguel Rio Branco, com curadoria do próprio artista e Paulo Miyada, e co-curadoria de Alberto Saraiva. “Wishful Thinking” ocupa todos os espaços destinados a mostras no centro cultural e traz obras impactantes que mexem com os planos sensoriais do público.Miguel da Silva Paranhos do Rio Branco é considerado uns dos artistas mais importantes em atividade no Brasil. Ele percorre diversas formas de expressão artística: é pintor, fotógrafo, diretor de cinema e criador de instalações multimídia, e alcançou reconhecimento internacional por seus filmes e fotografias. Foram diversos prêmios conquistados e obras no acervo de instituições renomadas, em coleções públicas e particulares brasileiras, europeias e americanas. Rio Branco nasceu na Espanha, em 1946, e estudou no New York Institute of Photographye na Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro. Filho de diplomata brasileiro e bisneto do barão do Rio Branco, o artista tem sua própria galeria no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, o maior centro brasileiro de arte contemporânea.

Em “Wishful Thinking”, Rio Branco apresenta diversos meios de expressão, incluindo fotografia e instalações audiovisual e imersiva, buscando transmitir suas inquietações acerca dos limites do ideal de civilização que ainda norteia a vida nas grandes cidades. Ao atravessarmos as salas que compõe sua mostra, podemos sentir o quão crítico e inquieto o artista é em relação às dinâmicas modernas, sejam elas os embates do homem com a natureza, de ricos e marginalizados, ou do homem civilizado e o homem natural. Miguel quer nos mostrar, através de imagens chocantes, de personagens muitas vezes esquecidos ou apenas ignorados, os sinais da falência da vida contemporânea. Ele trata de apresentar isso por meio de “obras sinestésicas e impactantes, que nos trazem para perto das cinzas geradas pelo sacrifício e destruição do passado e do futuro da humanidade”, como informa o release da mostra. É abordado o poder predatório do homem e como suas ações são nocivas ao meio ambiente, e é dado enfoque a como a Terra reage aos constantes ataques e episódios de destruição, elucidando, também, esse embate injusto e os riscos aos quais estamos todos submetidos.

A primeira sala com que nos deparamos é uma instalação imersiva de um possível futuro pós-apocalíptico, uma distopia em que os seres humanos foram extintos e o planeta foi devolvido aos cuidados da natureza. Madeira, plantas, terra, folhas, escombros. Um cenário em que a vegetação começa a recobrir as marcas de que já houve uma raça humana, e retoma seu espaço engolindo metais, televisões e paredes com pôsteres rasgados. Algumas dessa TVs transmitem flashes de pessoas mortas ou cenas de violência, como que nos contando o que se passou ali, uma forma de recapitular como os humanos se destruíram. Temos a sensação de abafamento e de andar por um local cujas condições são muito diferentes das que estamos acostumados, e esse sentimento não é passado apenas pela temperatura, mas também pelo som. Ele próprio é seco, cortante, quente. Roberto Guimarães, gestor de cultura do Oi Futuro, descreveu o espaço como “uma floresta viva com vestígios de um mundo decadente, organismo vivo que tende a crescer e a se transformar aos olhos dos visitantes”. Através desse trabalho, enriquecido sensorialmente, Miguel nos alerta sobre o caminho que estamos percorrendo e nos apresenta o resultado dessa escolha: a eliminação e superação pelo verde. Segundo ele, a esperança está na natureza.A exposição continua no quarto piso, onde há 3 espaços de mídias diversas. Ao chegarmos no andar, vemos uma parede com duas fileiras de 11 fotos de cores saturadas e contrastantes – marca do artista –, cujo assunto permeia os desdobramentos da urbanização. O painel chamado “Maldicidade” é composto por flagrantes da entropia da urbanidade em múltiplas metrópoles, e o texto na outra parede nos faz refletir que, apesar de tentarmos identificar de qual cidade é cada imagem, nenhuma grande cidade hoje em dia desconhece essas cenas de miséria e abandono. Como está escrito no texto de Paulo Miyada, sobre essas instalações de Rio Branco, “A chamada globalização não apenas se manifesta na homogeneidade de aeroportos, lanchonetes e bancos, mas engloba também a internacionalização da miséria e do descarte (de objetos e pessoas) como parte constituinte do modelo social e econômico”. Parece que, quanto mais uma cidade cresce, os pobres ficam mais pobres e são expelidos e ignorados pelos olhos dos demais. Em uma salinha ao final da parede estão dispostas obras que misturam instalação, escultura e pintura. A peça “Ophelia” conta com elementos dispares, entre eles vidros de automóveis, luzes neon, um modelo de avião, facas, uma pele de animal e máscaras e instrumentos indígenas. As facas estão organizadas em volta da máscara, cercando-a e prontas para atacá-la, e a imagem de um homem aparece presa atrás de luzes vermelhas. Em uma instalação ao lado, vemos a foto de um homem caído e morto e, abaixo, a foto de um crânio, ambas iluminadas por um painel de luz. Uma pintura na mesma sala retrata dor, sofrimento e morte através de esqueletos, cores mórbidas e um homem na posição de açoitamento, com marcas e sangue nas costas. Segundo o curador, a ambivalência do corpo retratado na fotografia é tomada como modelo do frágil equilíbrio que se move entre desejo e morte, acidente e suicídio, final e princípio.No outro espaço, é exibido um vídeo chamado “Sob as estrelas, as cinzas”, cujo principal recurso é a edição, alternando cenas dos ritos dos indígenas da aldeia de Gorotire (Pará) com cenas da violência e da destruição que os oprime. A energia transmitida é a de força de luta por parte dos índios, de resiliência apesar das barbáries que os cercam e que cada vez mais os ameaçam. A morte está muito presente na vídeoinstalação, a morte de uma civilização que produz grandes cidades e massacra outros modelos de vida, pois, segundo Miyada, na obra do artista, “por mais imersos em pobreza material e sujeitos às intempéries da exploração do capital”, esses indivíduos representados “nunca são colocados em posição de vítimas à mercê da piedade voyeurística do artista e de seu público”. O filme começa com uma bela visão das estrelas e uma música suave e tranquila, mas logo depois começa a série de imagens fortes e chocantes, o que pode ser um recurso para deixar os espectadores felizes e relaxados para depois dar a eles um baque, uma estratégia para intensificar o desconforto sentido com o que vemos. Também pode ser uma critica a quão passivos e olhando para o horizonte ficamos enquanto essas atrocidades ocorrem do nosso lado.

O próximo espaço da exposição é ocupado por uma instalação audiovisual que a finaliza. “Diálogos com Amaú” (1983) consiste em uma série de fotos sendo projetadas em tecidos translúcidos pendurados pelo teto da sala escura, se alternando em um movimento contínuo, dando assim dinamicidade e ritmo à exibição, caracterizada pelo som gravado pelo artista durante um ritual indígena da aldeia de Gorotire. São apresentadas tanto cenas provocativas, encontradas em “Maldicidade” e “Sob as estrelas, as cinzas”, quanto imagens do menino Amaú, um jovem índio surdo-mudo e, por isso, duplamente marginalizado, que conversa com a câmera sem palavras, apenas através de sua linguagem corporal. Rio Branco montou a obra pensando cuidadosamente na edição e na sequenciação das fotos, de modo que ela funcionasse como um canal empático. O curador de “Wishful Thinking” explica, para o site do Oi Futuro, que “Pretende-se apresentar ao grande público um corte transversal na obra de Miguel Rio Branco, organizado e editado pelo próprio ao artista como uma experiência contínua que passa por várias obras. Isso implica, a um só tempo, uma oportunidade de reencontro com cenas do Brasil que o próprio país tende a ignorar, por preferir ignorar aquilo que destoa de sua aparência idealizada, e uma chance de debater, com auxílio poético e linguístico da arte, as urgências e possibilidades da vida contemporânea”.A mostra é pensada como uma grande instalação que ocupa o prédio e relaciona diversas obras para transmitir a preocupação do artista com o presente de atrocidades e miséria e o futuro que promete continuar esse lastro de destruição da natureza e descaso com aqueles que foram expelidos pelo sistema. Chocar, alarmar e tocar são alguns dos objetivos de Rio Branco, que pretender construir meios para que o outro seja visto e reconhecido, mas jamais reduzí-lo a algo que se conquista, se entenda e se cataloga, como o escrito pelo curador. A violência urbana cotidiana, as cenas de miséria e a exaustão diária do planeta serão escancaradas para aqueles que visitarem essa incômoda porém essencial exposição.