O sexto álbum solo da Beyoncé, chamado de Lemonade (ou Limonada, na tradução), foi classificado como um álbum visual. Álbuns visuais não são novidade na história da música, muito menos conceitos fortes costurando artes plásticas e narrativas. Contudo, esse rendeu alguns suspiros merecidos pelo mundo.

Talvez a novidade nesse caso seja um trabalho tão versátil vindo da Beyoncé.

Lemonade é primoroso, e, claro, “Bionça” não costuma fazer menos, mas ele também é vivo. Vivo de uma forma que nenhum álbum anterior dela o fez. Ele levanta. Levanta questões raciais, a trajetória de um relacionamento que parece falido e em seguida se reergue, terminando numa nota de esperança, como num chamado à revolução.

Beyoncé já havia sido criticada anteriormente por passar como mulher branca, sendo omissa quanto a questões do movimento negro. Uma crítica que considero compreensível sob alguma ótica, porém cruel. E que cabe às feministas negras americanas e somente a elas.

Lemonade apresenta uma Beyoncé feminista, mais amadurecida (desde o Beyoncé, 2013), ativista negra e muito ela, mulher, poderosa, milionária e unapologetic.

Vamos analisar a narrativa construída ao longo de Lemonade com alguns frames dos clipes (ou curtas) e passear visualmente pelos 3 primeiros capítulos da narrativa: Intuição, negação e raiva.

Esse início nos remete ao filme A Vila, do M. Night Shyamalan, ao A Fita Branca do Michael Haneke, à primeira temporada da série True Detective e por que não, ao Garota Exemplar do David Fincher.

Há uma atmosfera sombria, lúdica e suspensa na introdução que precede Pray You Catch Me. A protagonista está com ela mesma, em um processo de autoanálise. É introspectivo, frio e a temperatura de cor desse início reflete essa característica. Temos tons de verde, azul, cinza, vermelho e amarelo ocre.

Quando chegamos a Hold Up, podemos observar a melhor representação da grande limonada. E a cor do vestido da Beyoncé não poderia ser mais ilustrativa. Ela sai de um quase afogamento incubador para uma libertação, ela é vida, cor, força. O seu hot sauce é um grande plot twist que vem da letra de Formation, na verdade: Um taco de beisebol. Com o qual ela quebra carros e tudo que encontra.

É a própria liberação feminina, que não é leve, suave, nem vem em tons de rosa. Ela é uma paulada que quebra vidros e estruturas. Enquanto isso ela dança na água e se liberta da dor. A dor da negação vira raiva. E então temos o próximo capítulo.

Em Don’t Hurt Yourself, Beyoncé aparece como uma rapper gângster que expressa que amiguinho, se você me machuca, machuca a si mesmo. É um grande sinal de cuidado.

É bom lembrar que a Beyoncé não é a sua diva pop que lacra, samba e nossa, que maravilhouse. Ela é um gênio. Uma artista consistente, que trabalha desde a infância e mereceu cada consequência do seu trabalho. E, apesar das críticas, fundamentadas ou não, mulher negra, sim. E uma mulher negra confortável com o seu corpo, a sua obra e a sua vivência é mais do que um discurso adequado, é representatividade e inspiração.  Todo trabalho da senhorita Bionça carrega um cuidado, atenção a detalhes e aquele perfeccionismo, que é típico dela. I bow down, bitches, porque bons trabalhos merecem reconhecimento.


Por Érika Nunes