Na última semana diversas notícias ocuparam os portais e as redes sociais. Entre discussões recorrentes sobre a figura do “homão da porra” (leia-se aquilo que toda mulher é sem receber confete) e o novo clipe de Pabllo Vittar, surgiu um vídeo de uma mesa de discussão da Flip. Uma professora, senhora negra, ocupa o microfone de uma mesa de debate do evento liderado por Lázaro Ramos e faz um relato comovente. Seu nome é Diva Guimarães.

Percorrendo desde a sua infância no Sul do País, Diva abre o discurso emocionada com a fala de Lázaro e com a própria experiência de estar ali, em uma plateia majoritariamente branca. Notar isso em uma Flip que foi anunciada como a mais inclusiva da História (maior participação de escritoras negras já registrada), foi de uma coragem límpida e bonita. De uma beleza que só alguém com os olhos cansados de uma vida permeada pelo racismo poderia contar. Aquele momento era dela. Pouco importava o assunto da mesa, pouco importava a relevância do evento, pouco importava todo o ruído: o presente era o relato cru.

Ao denunciar a não tão beleza natural proveniente do racismo curitibano, Diva anuncia que não estamos diante de um questionador comum de plateia. Estamos diante de uma mulher extraordinária, que se propôs a deixar as palavras fluírem naquele momento e acabou por representar sozinha a importância do evento. Literatura é sobre isso. É sobre mover. A literatura não nasceu para vender livros. A literatura nasceu para mostrar gente, alma humana, gene.

O vídeo da fala de Diva Guimarães teve mais de 5 milhões de visualizações. Diva virou notícia em todos os portais importantes que acompanhavam o evento. Concedeu entrevistas, foi procurada para tecer sua opinião sobre política e sobre o lugar social de mulheres (momento em que ela foi brilhante, mais uma vez). Os 15 minutos de destaque de Diva se perderam entre tantos homens na mídia dominando os holofotes. Mas até aqui nada novo. 

No entanto, o momento se preserva. Inédito no pensamento de quem estava lá ou de quem viu o vídeo. Aquele rosto, cheio de estradas do tempo desenhadas, é o Brasil escancarado em sua crueldade e beleza. Nós somos ruins, ainda, mas alguns de nós são extraordinários. Corrigindo: algumas de nós.

É curioso que o nome dela seja Diva. É simbólico. Tantas mulheres ao longo da História receberam esse título do auge de um lugar social comercialmente construído e objetificado. Se ser uma Diva é ter grande relevância, Diva Guimarães não poderia ter sido nomeada mais brilhantemente. A Flip valeu por ela. 

Impossível não lembrar dos versos de “Still I Rise” de Maya Angelou (na tradução: “Ainda assim eu me levanto”):

Você pode me menosprezar na história,
Com suas mentiras distorcidas e amargas,
Você pode me pisotear nessa lama,
Mas mesmo assim, como poeira, eu levantarei.

A minha impertinência lhe incomoda?
Por que você está perturbado em melancolia?
Porque eu ando como se tivesse poços de óleo
Jorrando na minha sala de estar.

Bem como luas e como sóis,
Com a certeza das marés,
Bem como esperanças brotando alto,
Mesmo assim eu levantarei.

Você queria me ver quebrada?
Cabeça inclinada e olhos para baixo?
Ombros caindo como lágrimas.
Fraquejando pelos gritos do meu âmago

[…]

Você pode atirar em mim com as suas palavras,
Você pode me cortar com os seus olhos,
Você pode me matar com o seu ódio,
Mas mesmo assim, como o ar, eu levantarei.

Com a palavra: Diva

“Eu sou Diva Guimarães, uma sobrevivente da escravidão.

Recado para mulheres negras: Que elas não se valorizem pelo corpo, que elas se valorizem pela cultura, que elas não são um instrumento de desejo e mercadoria sexual. Que é isso, que é exatamente essa filosofia, e não posso chamar isso de filosofia, que eu estaria ofendendo a filosofia, que eles passam, que fazem as crianças crescerem, que o corpo delas é mais importantes do que a inteligência. Tem que ser revertido isso no país para que elas tenham consciência, sabedoria, conhecimento, para discernir esse abuso, que a elite, e eu não acredito nesse tipo de elite, que elite sou eu, são todos os negros que sobrevivem nesse país, mas que essa suposta inteligência, supremacia, tenta fazer do corpo delas, para que o corpo delas seja um instrumento fora do desejo delas. Elas têm o direito de usar o corpo delas como quiserem, mas não da maneira como tentam passar, como tentam fazer. Que os negros sejam conhecidos fora do Brasil como objeto sexual.”*

Essa entrevista foi transcrita do vídeo exclusivo postado pelo veículo Mídia Ninja (fala integral por Diva Guimarães). O vídeo pode ser encontrado na página da Mídia Ninja nas redes sociais.