O Solar Grandjean de Montigny recebeu, do dia 7 de outubro a 1 de dezembro, com evento de encerramento dia 2, a exposição “VazioPleno”, de Ana Biolchini. A artista trabalha no campo da arte contemporânea, explorando diversas mídias e linguagens para discutir relações entre formas e simbolismos, e bebe na fonte da arte performática para refletir sobre como o corpo interage com a imagem e com os movimentos. A exposição teve curadoria de Luciana Solano, que é especialmente interessada em projetos que tratam o lugar como parte da obra e estabelecem relações com o visitante. Nessa mostra, o Solar virou um grande corpo, segundo Ana, e todas as pessoas que nele entraram também foram parte do corpo.

O espaço localizado na PUC-Rio é exemplo de arquitetura neoclássica no Brasil e foi nomeado em homenagem a Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (Paris, 1776 – Rio de Janeiro, 1850), arquiteto neoclássico e um dos mais importantes integrantes da Missão Artística. Esta era um grupo de artistas, arquitetos e técnicos franceses que chegaram ao Brasil em 1816 para implantar e consolidar o ensino das Belas Artes no Rio, como nos informa o folheto explicativo disponível no próprio Solar. A Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro adquiriu a propriedade que incluía o Solar em 1951, e ele foi restaurado pela primeira vez em 1959. Houve estudos acerca de qual seria a melhor utilização para o prédio histórico, e foi decidido pela universidade que seu objetivo seria fomentar o estudo e a reflexão sobre a cultura, a arte e a arquitetura brasileira e internacional dos séculos XIX, XX e XI. Um dos focos do espaço é apresentar eventos culturais ligados ao que há de mais vital na área contemporânea – artes plásticas, fotografia, música e todas as manifestações culturais e mídias expositivas. A última exposição recebida, recém-encerrada, aproveitou a dinâmica do prédio para transmitir sua mensagem.

Ana Biolchini trouxe, com sua exposição, trabalhos realizados entre 2015 e 2017. Ela explora as diversas formas de manifestação da arte, incluindo esculturas, vídeo-instalação, serigrafia e fotografia, todos moldados a partir do tema central da artista: o conceito do fio invisível que tudo envolve. Ana fala dos fios como forma de conexão dos diferentes espaços e tempos da vida, da conexão entre pessoas, da união do concreto ao abstrato. Em entrevista à TV PUC-Rio, canal de notícias da universidade, Biolchini contou um pouco mais sobre a presença do conceito do fio em suas obras.

“Eu to falando o tempo todo do fio que conecta todas as coisas, tanto as coisas materiais quanto as imateriais, então o fio tanto é um fio invisível, que a gente sente, mas ele se materializa de diversas formas”, disse a artista.

O fio vermelho faz parte de uma tradicional lenda japonesa, uma possível referência da artista. A lenda conta que do dedo mindinho se desprende um fio vermelho que conecta a alma de uma pessoa de forma definitiva e profunda com os fios de outras pessoas. Essa ligação significa que os indivíduos estão destinados a se encontrar e a aprender mutuamente, sem importar o tempo, a distância ou as circunstâncias que os separem, pois o fio pode se estender ou embaralhar, mas nunca é rompido. Em tal concepção de mundo, nossas energia e força vital vão além do nosso corpo e nos unem ao universo e às pessoas que o dividem conosco. Nessa lenda, o fio vermelho é uma forma de compreender as relações humanas como parte de um todo, da rede de vida que elas nutrem, e a busca do porquê de estarmos na vida de alguém, de qual o nosso sentido nessa troca.

A exposição de Ana é imersiva. A ideia do termo “vazio pleno” parece ser aquele momento em que deixamos o supérfluo esvair-se aos poucos do nosso corpo, até se desintegrar ao tocar o chão. Nesse instante, nos encontramos no esvaziamento completo, o que pode trazer paz, mas também uma certa aflição ao entrarmos em contato com partes de nossa essência. O latente salta ainda mais e o escondido sai do inconsciente e aos poucos se estampa nas obras. “Foi isso que ela quis dizer?” pode surgir na cabeça dos visitantes, e a resposta é sempre “sim”, pois a artista quis dizer tudo. Sua proposta é fazer com que a essência de cada um seja tocada e o que o espetador se encontre em si mesmo, tarefa muitas vezes difícil nesse mundo de ruídos. E talvez o melhor da arte seja isto: as possibilidades em aberto, o aspecto camaleão das obras, que mudam completamente de significado a cada par de olhos que as encara.

A primeira sala contou com quadros que misturam diversas técnicas e materiais, mas sempre com a presença do fio vermelho e de formas que praticam movimentos. Houve também uma instalação de 25 serigrafias dispostas de forma suspensa, em diversas posições, formando uma grande figura intercalada de espaços em branco. Em um pequeno espaço, à direita da saída da sala, estava disposta uma foto continuada por o que parece ser longas tiras de algodão, lembrando um intestino grosso. A obra manipula o tempo, pois vemos o material na foto, que indica passado, e fisicamente diante de nós, o que marca o presente.

Na sala em frente, diversos pés de argila produzem uma caminhada de ascensão sobre uma trilha invisível. Eles estão organizados criando um desenho de espiral vertical, do chão ao teto da sala, e cada peça é sustentada por fios de nylon transparentes. O piso, todo de quadrados brancos e pretos, as paredes cobertas por panos escuros e as luzes direcionadas diretamente para os pés ajudam a produzir o aspecto imersivo da instalação. O contraste do branco das peças com o preto do ambiente causa uma sensação de estar com os olhos vidrados na obra, e até o desejo de acompanhar os passos. É curioso e encantador. A obra chamada “Caminhos da palavra” representa todos os pés do mundo trilhando a caminhada da vida em várias direções. Cada pé está apontado para um próprio sentido, tanto físico quanto abstrato, o que simboliza as histórias de diferentes pessoas e o modo como cada indivíduo trilha seu caminho. Assim como a expressão inglesa “to walk on somebody’s shoes” (andar nos sapatos de alguém) significa vivenciar a vida do outro calçando seu sapato, ou seja, experienciando seu caminho, no trabalho de Ana o pé faz a metonímia da vida de cada um. Foram feitos 168 moldes dos pés da artista para a instalação, trabalho que durou mais de um ano. A instalação transita na horizontalidade do Tempo Humano (Chronos), cronológico e sequencial, mensurável quantitativamente, e na verticalidade do Não-Tempo (Kairós), de natureza qualitativa, a experiência do momento oportuno.

Subindo as escadas de madeira que levam ao segundo andar, há mais duas salas. À direita, uma com quadros nos quais Ana adotou um processo de múltiplas técnicas. A artista parte da fotografia impressa, interfere sobre ela com costura, tinta, fio, lã e outros objetos, fotografa-a novamente para posterior edição, formando idas e vindas na produção, o que culmina em obras que contém obras, como explica o release da mostra. Uma peça em especial, composta de três imagens juntas, parece retratar um pé pingando sangue e a lua. Uma possível interpretação seria que o quadro retrata uma caminhada dolorosa da Terra à Lua em busca de refúgio, a ideia de que a Lua seria um lugar de fuga dos sofrimentos terrenos.

Na outra e última sala da mostra, foi transmitido um vídeo nos 180 graus do espaço, que foi coberto por um tecido que lhe serviu de tela para a projeção. O ambiente é silencioso e as imagens exibidas trazem certa calma. São 13 minutos de performance espontânea da artista interagindo com o fio vermelho, amarrando-o em si e explorando seus movimentos conjuntos. Ela usa um vestido branco pomposo com brilhos, e o mesmo vestido está exposto com fios aos seus pés na sala em que o visitante se encontra, o que provoca uma sensação de quebra no tempo, pois assistimos o vestido em uma ação passada e partilhamos o espaço com ele no presente. A própria vestimenta é um símbolo do tempo: é o vestido de casamento da artista. Com isso, há um encontro de tempos, um encontro de momentos da vida de Ana e de sua interação com essa roupa simbólica do passado. Embora o vídeo tenha 13 minutos, a performance real durou 3 minutos e 15 segundos no tempo cronológico, tendo sido desacelerada em 75%. Assistir aos movimentos do fio, lentos, cuidadosos, interagindo com Ana, resulta em uma desaceleração, uma pausa que parece nos trazer para o presente, nos torna atentos a quão delicada a vida pode ser e o quão brutamente a tratamos, correndo de um lado para o outro sem realmente senti-la. No chão da sala estava uma tigela de metal dourada com algo que lembra uma baqueta cuja ponta é um grande quadrado, a qual, ao ser batida contra a tigela, produz um som agudo, similar aos de cerimônias tradicionais orientais. Algo relaxante e estabilizador. Após pesquisa, é constatado que o instrumento pode ser uma Tigela Tibetana, também chamada de Cantante, usada para musicoterapia com o propósito de penetrar os chácaras da pessoa e tratar seus pontos de energia.

Com essa exposição, a artista nos convida a refletir sobre a forma como sentimos o tempo passar. Do tempo cronológico, comum a todos, ao tempo individual, vivido de um jeito diferente por cada pessoa. Ana produziu um espaço de introspecção, um exercício de observar e realmente ver, uma chance de se separar dos barulhos de fora e entrar em um ambiente de silêncio, eco e reflexão. É quase como um refúgio, uma dimensão dos detalhes em um mundo de rapidez. As pilastras do Solar foram envoltas por fios vermelhos, como que criando uma fortaleza à nossa volta, produzindo a separação do externo e do interno e trazendo à vista os fios invisíveis que nos cercam a todo momento.