Vamos analisar os três últimos episódios da quarta temporada de Black Mirror: “Hang The DJ”, “Metalhead” e “Black Museum”. Tratando de temas bem diversos e claro, sem deixar o lado sombrio da tecnologia de lado, os episódios conseguiram fechar bem uma temporada considerada, pelo público, mais leve. Leia a primeira parte da matéria aqui. Atenção, pois nesse conteúdo, assim como o outro, tem SPOILERS!

Temporada 4, Episódio 4 – “Hang The DJ”

Considerado pelo público uma versão heterossexual do quarto episódio da terceira temporada da série, “San Junipero”, “Hang The DJ” é com certeza o episódio mais leve da temporada. Na trama, Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) se conhece através de um sistema de encontros, como um Tinder, mas no caso o aplicativo em questão exige do usuário que ele passe por vários encontros até se deparar com o seu “par ideal”. Esses encontros possuem um “prazo de validade”, que define por quanto tempo vão ficar juntos, variando de horas a anos. No caso de Amy e Frank, o encontro dura apenas doze horas, apesar disso a conexão entre os dois fica evidente. Um tempo depois de crescimento pessoal e novos parceiros (que claramente você vai odiá-los, afinal você já está torcendo pelo casal protagonista) o aplicativo os coloca novamente em um novo encontro. Sim, é o destino.

Dessa vez, eles decidem burlar o sistema, não olhando a data de validade. Mas como tudo em Black Mirror, tem que ter tragédia, e a curiosidade “mata o gato”. Em resumo, como em qualquer conto de amor, o casal terá seu final feliz, uma característica dessa temporada em questão. É um final agradável, considerando o episódio anterior “Crocodile”, mas não chega nem perto de ser o melhor da temporada. Georgina, por um lado, é encantadora. A atriz vive a sonhadora e apaixonada Amy e completa muito bem o Frank de Joe Cole, que é mais tímido e mais pé no chão. A química entre os dois atores é inegável e faz com que a torcida para o casal seja positiva.

É interessante a construção do aplicativo que permite, como demonstrado no final, com facilidade que se veja o futuro, evitando possíveis frustrações futuras. Amy e Frank passam por toda a simulação e no final alcançam o percentual estimado de sucesso: 99,8% de compatibilidade. Assim, eles tem a certeza de que investir um no outro dará certo.

Temporada 4, Episódio 5 – “Metalhead” 

O que já difere o episódio dos demais é que ele é em preto e branco, mas isso não causa nenhum tipo de reação, pois o que é apresentado é belo e totalmente compatível com a escolha do tom. Maxine Peake é a protagonista desse episódio tão característico, que se passa num futuro onde máquinas, uma espécie de cão robô, tem uma só missão: matar.

A personagem de Peake, Bella, tem um plano de roubar uma caixa em um galpão e se depara com uma dessas criaturas, que quando atiram costumam deixar estilhaços com um “rastreador” no inimigo. O episódio todo é Bella fugindo e lutando contra a criatura e seu instinto assassino, pouco sabemos porque ela precisava roubar aquela caixa (que revela seu conteúdo no final) ou como surgiram essas máquinas.

Ainda assim, é um bom episódio pois a empatia do público com Bella, e a promessa feita pela protagonista à irmã, faz com que a torcida seja por um final feliz, mesmo que nada indique que isso vai acontecer. Nesse episódio não acontece, quebrando com o ritmo da temporada até então, mas a impecável atuação de Maxine Peake dá ao final todo o drama que merece.

Temporada 4, Episódio 6 – Black Museum

O melhor episódio da temporada, “Black Museum”, não remete a um museu voltado para a cultura negra, como pode soar o título. Algumas séries, como American Horror Story, já se basearam na premissa de simular um museu de horrores com escravos, com direito a tortura ao vivo, um tema sempre delicado de assistir. Nesse episódio, até que não é o caso, mas não deixa de criticar esses ideias de justiça. O “Black” do título, aqui, faz menção ao escuro, “dark”, e claro, ao nome da série, “Black Mirror”. No museu, por acaso, estão alguns objetos de episódios anteriores, que na narrativa são itens de histórias reais e cotidianas. Temos o tablet de “Arkangel”, o traje de “White Bear”, o leitor de DNAs de “USS Callister”, a banheira de “Crocodile”, protótipos iniciais de mente e ursos de pelúcia.

O dono desse museu é o excêntrico Rolo Haynes, interpretado por Douglas Hodge. Ele é a mente por trás de reunir tantos horrores e se considera um gênio “salvador da pátria”. Nish, interpretada por Letitia Wright é quem protagoniza a trama e, centrada e segura de si, aceita o convite do frustrado Haynes para conhecer o museu.

Haynes, na tentativa de assustar Nish, conta histórias de alguns itens específicos que, por acaso, ele inventou: o primeiro é uma touca de cabelo capaz de transmitir sensações. Com um protótipo atrás da orelha, o médico Dawson (Daniel Lapaine) conseguia sentir as dores que seus pacientes sentiam, e que muitas vezes não conseguiam explicar, com isso o diagnóstico ficava mais fácil. Mas, depois de uma experiência pós-morte, o doutor se tornou obcecado pela sensação da dor chegando a sentir prazer na mesma. E lógico que essa experiência não resultou num final agradável. Inclusive, as cenas dessa sub trama em questão são desconfortáveis e podem ser pesadas para determinado público.

A segunda história é sobre um urso de pelúcia. Um jovem casal, Jack (Aldis Hodge) e Carrie (Alexandra Roach) são felizes com seu filho pequeno, Parker (Kyros McGee), mas após uma acidente, a jovem entra em coma. Com isso, o caminho de Haynes cruza o do casal com uma tecnologia que permite colocar a mulher dentro da cabeça do homem. Assim, tudo o que ele faz é sentido, visto e experimentado por ela também. Então, quando ele abraça o filho, ela sente. Mas, obviamente, isso não deu certo. Imagine viver vigiado todos os dias? Uma voz que não para de falar em sua cabeça? O cientista então aparece com uma possível solução, pausar a esposa por um tempo indeterminado. Durante um tempo, Jack consegue seguir com sua vida, mas o amor por Parker, um sentimento compartilhado por Carrie, é o que coloca tudo em jogo. A solução então é passar Carrie para um urso de pelúcia – o objeto tema da história – mas como o próprio narrador conta, o presente não deu resultado por tanto tempo assim. Mais uma vitória para a tecnologia.

A última história contada pelo ex-cientista se trata da experiência de criar um fantasma virtual. Nesse caso, o homem vítima de Haynes é acusado pelo assassinato de uma jornalista e após morrer na cadeira elétrica, é “clonado” e transformado em um fantasma. Haynes, obviamente, o coloca como a principal atração no museu onde os visitantes tem o direito de torturá-lo e ainda ganham, no final, um chaveiro com um vídeo de suas expressões de dor durante o momento do choque. Além da crítica óbvia já inserida no contexto, o que era uma história triste de um sádico com desejo de justiça, vira uma grande vingança, com um dos melhores desfechos da temporada – e claro, feliz.

Qual foi o seu episódio favorito? Não perca a crítica da quarta temporada de Black Mirror.