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Literando: Tesoura Cega

Literando - Faixa

Tesoura cega, 

de Carlos Machado:

embates com o tempo predador

Fernando Fiorese*

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“O tempo é uma criança, criando, jogando o jogo de pedras; vigência da criança.” Com certa ironia, o fragmento 52 de Heráclito bem poderia epigrafar “Brinquedo de Chronos”, terceira seção de Tesoura cega. Desde a queda adâmica até os ofícios da palavra, os poemas de Tesoura cega, de Carlos Machado, perfazem um itinerário arquetípico, incluindo algumas incontornáveis estações de transbordo: o tempo, a memória, o amor, a morte, a linguagem. Porque a expulsão do Éden é apenas o analogon mítico de um inumerável repertório de quedas e desterros em que se funda e se dá a existência humana, repertório que Carlos Machado sumaria em “Canção de exílios” (p. 12):

O exílio do útero, país primeiro
O exílio da pátria, que Gonçalves Dias cantou
O exílio do Éden no livro um
O exílio forçado dos perseguidos
O exílio do poeta na república platônica
O exílio dos pobres em busca da terra prometida
O exílio da infância
O exílio de todo o tempo que passou
O exílio do corpo antigo e dos fogos de outrora
O exílio do amor perdido
O exílio do que foi sonhado e nunca chegou
O exílio bandeiriano do que poderia ter sido e que não foi
O exílio de todas as pasárgadas

Somos todos exilados

Já na primeira seção da obra, o poeta desdobra o ocaso das utopias futuristas que alimentaram a modernidade – “manhãs que não serão” (“Si menor”, p. 7) – num plural de exílios ancestrais e contemporâneos: as perguntas em definitivo sem respostas, a deriva do homem sem mapas ou roteiros, a descrença ocular e intelectiva em relação aos cálculos e certezas do mundo exterior, a indiferença das coisas, a suspeita quanto às dimensões e valores dos reptos humanos, a ociosidade ou inexistência de Deus, a malograda busca da infância perdida, a ruína inelutável da dimensão sagrada da existência, a passagem do tempo a acumular os mortos que acusam as nossas contradições e o nonsense da vida.

As ilusões perdidas com o fim da modernidade nos confrontam com o presente antilírico da caótica e desigual cena urbano-industrial. Daí que, na seção “Antilira paulistana”, Carlos Machado abandone (ou ao menos arrefeça) as metáforas para alcançar um realismo quase cru, necessário ao desvelamento do exílio menor e da solidão maior que tem lugar nas grandes metrópoles: “Estrangeiro em terra / de estrangeiros” (“Prosa paulista”, p. 27). Nem mesmo o “pombo coxo” que poderia simbolizar o poeta, tal “O albatroz” de Charles Baudelaire, escapa desta desmetaforização. Sem analogias ou correspondances, o “Pombo” resta sendo apenas pombo. Assim como a índia, a negra, o palhaço, apenas mais um fato entre outros incontáveis fatos sem pompa e sem sentido, apenas mais uma das “aves empalhadas” (“Domingo”, p. 36) que o olhar acurado do poeta surpreende no “desconcerto / desse balé de homens / luzes e máquinas” (“Prosa paulistana”, p. 27).

Afinal, se me permitem o devaneio mítico, a expulsão do paraíso precipitou o homem no reino do Chronos “de curvo pensar”, onde vive “não-honrado” e “sem-prêmios” (Hesíodo, Teogonia), às voltas com as forças titânicas que o submetem ou aniquilam. Mas, na cena contemporânea, é mais extenso o domínio de Chronos e a sua “prodigiosa foice / longa e dentada” (Hesíodo, Teogonia) degenera na prosaica tesoura cega que dá título ao livro de Carlos Machado. A lógica de Chronos, que denominamos tempo (linear, calculado, quantitativo e abstrato), só faz aumentar a fome deste deus, “o Implacável, / o Cruel entre os Cruéis” (“Chronos, p. 39), sempre à espreita para nos devorar. Somos seus filhos destinados à morte, ou melhor, as figuras com que brinca em seus jogos infantis e fatais, como diz o poeta em “Origâmi” (p. 48):

Uma tesoura
cega
recorta origâmis.

É Chronos
em sua oficina.

A máquina precária
não supõe prodígios
mesmo em mãos
divinas

– salvo se o segredo
desse deus ambíguo
seja o próprio corte
indulgente.

Figuras de papel
cortadas pelas mãos
de Chronos,
dançamos ao vento.

Caricatura contemporânea do Chronos grego, o tempo histórico linear não reina sem enfrentar as nossas resistências, mesmo frágeis e transitórias, aos avances de suas armas. Também brincamos com o tempo, opondo-lhe o devenir fou da memória e as artimanhas do acaso. Enquanto baralha passado, presente e futuro nas derivas da memória, este “amarrotado desvario que / mantém o homem vivo” (“Pastelaria Triunfo”, p. 18), a escrita desvela “um tempo sem fio” (“O tempo e o nada”, p. 43), cujo passo de dança “não é constante / nem fiel ao / milho seco do relógio” (“Tango”, p. 46). Ao acaso, exsurgem as nossas pequenas eternidades, com suas alegrias. Nelas e com elas resistimos às tentações do nada e ao “Ponto / monstruosamente final” (“Ponto final”, p. 57).

Na quarta seção de Tesoura cega, são essas pequenas eternidades que Carlos Machado grafa como “Lições de assovio”. Através de seus personagens, suas paisagens, seus bichos, seus ofícios, suas paixões, a infância retorna. Também retornam os mortos nomeados pelo poeta. Este o modo da poesia de “zombar de tudo / que é breve / e que, como nós, / se consome / no atrito das / horas…” (“Baobá”, p. 79). Porque, se não escapa ao trabalho de luto, a textualização da memória e dos mortos ao menos nos oferta os retratos de uma morte feliz.

Ainda quando “o amor carrega no bolso / sete grãos de chumbo” (“Caçador”, p. 87), ainda quando dele “o tempo / ri – ri e atraiçoa” (“Bodas”, p. 89), são os seus curtos-circuitos – talvez porque curtos, talvez porque circuĭtus (do latim, “ação de ir à volta de, movimento de rotação; contorno, circunferência; volta, desvio”) – que garantem o vigor de nosso exílio mortal. O destempo do amor, com suas breves estações de alegria e dor, afirma o trânsito entre o eu e o outro, a alegria de saber-se existindo na “Trama” (p. 88) que somos:  

E se o amor – essa trama de pronomes
oblíquos e possessivos, frases feitas
e desatinos – adormecesse sereno
à sombra dos relógios? E se então

com o tecido a salvo e o fogo contido,
fosse possível abrandar o calor
das fornalhas e o fragor das batalhas,
quanto de sossego restaria? Quanto

de azul viria cortejar o amanhecer
do sábado? Quanto fermento seria
necessário para compor o pão de cada

dúvida? Quanto de amor, ele mesmo
– esse bicho sagaz e sangrento –, ficaria
para contar a história dos desatinos?  

Não por acaso, iniciado na queda adâmica, o itinerário de exílios de Tesoura cega alcança o seu termo nos poemas metalinguísticos da seção “Atos de ofício”. Porque se, como afirma Walter Benjamin, “o pecado original é a hora de nascimento da palavra humana”, cumpre ao poeta refletir acerca do estatuto da linguagem. Ainda que conspurcada pela imprecisão e pela tagarelice, ainda que destituída do seu caráter mágico e criador, a palavra resta sendo a testemunha de nosso existir no mundo, símbolo da grandeza e da miséria humanas. Desterrado no tempo predador e privado da palavra genésica, cumpre ao poeta perscrutar no transitivo verbo humano os resíduos do Verbum divino, da perdida linguagem paradisíaca, na qual inexistia a inelutável fissura entre signo e coisa. Trata-se sempre de declinar da palavra como instrumento e mediação para colher a coisa que o nome surpreende e engendra, seja um rato, seja um “Botão” (p. 93):

onde o nome da rosa
presume a rosa

onde o pássaro-nome
pousa na coisa nomeada

onde o nome-rosa
roça a rosa flor

onde nome e coisa
se confundem

onde nome e rosa
abotoam outra rosa

mais bela que todas
as flores do chão

MACHADO, Carlos. Tesoura cega. São Paulo: Dobra Editorial, 2015.

(*) Fernando Fiorese é poeta, escritor e ensaísta. Tem publicadas as seguintes obras: Um chão de presas fáceis (romance, 2015), Aconselho-te crueldade (contos, 2010), Um dia, o trem (poemas, 2008), Dicionário mínimo: poemas em prosa (2003), Murilo na cidade: os horizontes portáteis do mito (ensaio, 2003), Corpo portátil: 1986-2000 (reunião poética, 2002) e Trem e cinema: Buster Keaton on the railroad (ensaio, 1998).

Os textos de “Fragmenta Crítica” são publicados mensalmente nas revistas Prosa Escrita (http://prosaescrita.wordpress.com) e WOO! Magazine, Coluna “Literando” (http://woomagazine.com.br/antigo/category/literando/).

Visite o blog do autor, Corpo Portátil: http://corpoportatil.blogspot.com.br.

 

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