Misturando comédia com drama, Ariano Suassuna fez de seus textos obras incomparáveis. Em seus livros tem toda a identidade do povo brasileiro, especialmente o nordestino, com seus sofrimentos, seus dramas, mas também sua fé e bom humor.

Autor de mais de 30 obras entre livros, peças e poemas, Ariano usou seu humor afiado e inteligencia para fazer obras que transcenderam a época em que foram feitas. Seus livros viraram obras de Teatro amplamente reproduzidas em todo país e alguns também foram transformados em filmes e telefilmes, como é o caso de “Auto da Compadecida”.

O livro ganhou um filme homônimo e várias adaptações no teatro. A obra conta a história de João Grilo e Chicó, dois nordestinos pobres que sobrevivem graças a esperteza que João Grilo possui. Vivendo de pequenos bicos até serem contratados e explorados pelo padeiro da cidade, ambos se arranjam na amizade que têm e na fé que levam.

Assunto recorrente nas obras de Suassuna, a crença é basicamente protagonista de tudo. Todos os personagens são devotos de algum santo, de Nossa Senhora ou de Jesus Cristo. Muito popular no nordeste, Padre Cícero (ou Padim Ciço) é citado constantemente, espelho da fé fervorosa que os nordestinos, principalmente os sertanejos, tem nele. Nossa Senhora também possui vários fervorosos, que fazem novena, dedicam-lhe prendas e fazem promessas a ela. No momento do julgamento de vários personagens de o “Auto da Compadecida”, é ela quem faz as vezes da advogada de defesa, enquanto Jesus é o juiz e o Diabo o promotor.

No livro, ainda se discute outras mazelas humanas como a traição, presente no casamento do padeiro e da mulher dele que constantemente está tendo casos extra-conjugais, da falta de empatia entre seres humanos, como quando João Grilo ficou 3 dias preso em uma cama e nenhum copo de água recebeu (coisa que ele mesmo diz incansavelmente), ou a violência, que as vezes é o único resultado de uma sociedade que está totalmente quebrada em suas entranhas, e a seca, que assombra o nordeste por muitas décadas.

Em “O Santo e a Porca”, Suassuna novamente recorre a fé para construir uma história também cravada na avareza humana, algo citado em o “Auto Da Compadecida” com o personagem do Padeiro e sua mulher, nesta obra fica ainda mais evidente. Euricão Árabe, um velho avarento, possui uma porca em que guarda todas as suas economias e é a coisa mais importante em sua vida, mais que até mesmo sua filha e por causa disso arma-se uma grande confusão. Devoto de Santo Antônio, Euricão não abre mão do que pensa ser sua maior riqueza, chegando ao cúmulo de enterrá-la para resguardá-la, mas sem sucesso algum.

Novamente, Ariano usa de sua habilidade com as palavras e de sua inteligência para escrever um livro em que critica com bom humor os pecados capitais que vê o ser humano cometer com assiduidade. O livro foi bastante adaptado em peças e é constantemente montado por estudantes de teatro.

Suassuna utiliza em suas obras da linguagem circense, colocando palhaços, malabaristas e bonecos no meio de seus escritos. Com muitas figuras de linguagem e licenças poéticas, o escritor criticou fortemente o que havia de errado de uma forma tão carismática que, ou as pessoas não entendiam, mas riam, ou aprendiam a rir de si mesmas.

O autor chegou devagar, sem grandes pretensões, mas foi responsável por fazer obras que derrubou as fronteiras que limitavam escritas nordestinas e fez textos que venceram a barreira do tempo, sendo cada vez mais contemporâneos e ilimitados. Ariano faleceu em 2014, mas com seus escritos tornou-se imortal.