O Oi Futuro, localizado no Flamengo, na Rua Dois de Dezembro 63, recebe, de 5 de fevereiro a 18 de março, a primeira edição da “Bienal de Arte Digital”. Os 30 trabalhos exibidos foram escolhidos dentre 675 de todo o mundo, avaliados por um conselho curador, encarregado da seleção. A finalidade do evento é despertar reflexões acerca do uso de ferramentas digitais e tecnologias inovadoras na experimentação de novas linguagens artísticas. O Oi Futuro já foi assunto de outro texto nesta coluna, com a exposição “Wishful Thinking”, de Miguel Rio Branco, e é uma instituição que busca uma programação voltada para a produção de vanguarda, que una arte contemporânea e tecnologia.

O evento é promovido pelo Festival de Arte Digital (FAD), projeto criado em 2007 sobre a exploração inventiva de novas tecnologias no campo da arte e da comunicação, e voltado para como a cultura digital impacta a sociedade atual. A Bienal de Arte Digital conta com exposições e performances de cerca de 20 artistas de diferentes países, incluindo Brasil, Alemanha, Estados Unidos e Suécia, todos debruçados sobre o tema “Linguagens Híbridas”. Nos trabalhos dessa temática, há um processo de troca entre o mundo real e o simulado, e está presente o hibridismo resultante da junção entre o analógico e o digital, o natural e o artificial, o real e o digital. A tecnologia está incorporada de tal forma no nosso cotidiano que passou a ser vista como um fator constitutivo da vida humana e, com a biotecnologia, da própria vida. Como informado pelo release, a proposta do evento é se tornar uma agenda nacional de arte digital e mostrar, a cada dois anos, obras e exposições que reflitam temáticas sociais importantes, evidenciando que a arte possibilita que a tecnologia exiba suas experiências sociais. O release da Bienal nos explica isso através da frase: “As pesquisas científicas são reapropriadas e se transformam em linguagens artísticas, através do uso da interatividade, virtualidade, sistemas híbridos e imersão”. A programação também inclui oficinas e palestras, além de um simpósio internacional com a presença do americano Joe Davis, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Depois de passar pelo Rio de Janeiro, a Bienal seguirá para Belo Horizonte.

As obras expostas reavivam o debate do que é arte, quais suas fronteiras e suas formas de ressignificação, e unem estética à pesquisa científica. Com a evolução da tecnologia e seus impactos no nosso cotidiano, é evidente que o digital chegaria também no campo da arte, que acompanha o andamento da sociedade ou até caminha à frente dela. A expressão artística já passou por pincéis, telas, mármore, cerâmica e muitos outros meios, e chegou em recursos como o bidê de Duchamp ou o tubarão em uma caixa de formol, por Damien Hirst, nos provando que a arte é, a todo momento, repensada e renovada, e nunca será estática. Assim, ao olharmos para os “robôs aquáticos” do brasileiro Ivan Henriques, expostos na Bienal, devemos ter em mente essa expansão da fronteira da arte, que alia-se, na obra, à ciência, à tecnologia e à vida. Em entrevista para o jornal O Globo, Henriques comentou o tema da exposição e seu teor vanguardista: “A arte híbrida tensiona fronteiras do conhecimento, por isso é questionada. O mesmo se deu com os ready mades de Duchamp, que muita gente na época não considerava arte e hoje é um referencial”.

As estruturas que se locomovem em um tanque de água e produzem barulhos característicos de objetos mecânicos foram desenvolvidos em parceria com a universidade de Gante, na Bélgica, e o projeto é chamado de “Caravel”. O protótipo é uma bio-máquina cuja função é produzir energia a partir da fotossíntese de bactérias anaeróbicas, aquelas que não necessitam de oxigênio para seu desenvolvimento. Tais bactérias se encontram nas MFC, células de combustível microbianas, dispositivos que as usam como catalisadores para oxidar a matéria orgânica e gerar eletricidade. A energia colhida é utilizada para mover a estrutura robótica flutuante e, ao mesmo tempo, para limpar o ambiente poluído, graças a ajuda de plantas purificadoras de água, presentes na estrutura. O texto sobre a obra nos informa tanto seu modo operacional e suas funções, quanto que as bio-máquinas desenvolvidas por Ivan Henriques são formas híbridas entre organismo vivos e máquinas, assim criando uma união evolutiva entre máquina e natureza.

Outra obra que desperta grande interesse é a “Langpath”, de Sollimán Lopez, artista espanhol. “Langpath” é uma escultura cinética, o que significa que ela faz parte de uma corrente das artes plásticas que explora efeitos visuais por meio de movimentos físicos, ilusão de óptica ou truques de posicionamento de peças. A escultura trabalha em tempo real com informações reais (arquivos), armazenadas em diferentes servidores distribuídos no hemisfério norte e sul do planeta Terra. Ela funciona como uma interface para exibir o processo de viagens digitais de arquivos, que passam de um servidor de um hemisfério para o do hemisfério oposto, e o movimento da grande peça é acionado pela presença do espectador. Ela acompanha os passos do visitante, então recomendamos que, ao prestar uma visita, você se coloque parado em frente ao centro dela, e depois caminhe devagar para a esquerda, depois para a direita, e explore atravessar toda sua extensão, para vê-la dançar com a sua presença. É de uma beleza sutil e divertida, algo que não estamos acostumados a procurar enxergar em estruturas mecânicas, que geralmente encaramos com frieza e distanciamento. Lopez trabalha nessa análise da tecnologia de um ponto técnico e conceitual, e explora a nova linguagem que o digital traz.

Outro trabalho que se movimenta de acordo com o deslocamento do espectador são as instalações performáticas do brasileiro Jack Holmer. Na obra “Manifesto Sobre A Gravidade”, o artista cria objetos no mundo virtual, em computador, e tais objetos sofrem a passagem para o mundo concreto, onde as leis da física modificam suas propriedades originárias, concebidas no virtual, assim mudando seu modo de existir. Ao nos aproximarmos das estruturas montadas por canudos, que, no caso da “Bienal de Arte Digital”, são um animal marinho e um ser humano, elas interagem conosco, nos dando algum gesto em troca da aproximação: ao darmos nossa atenção sensível ao objeto, ele também sente em seus sensores, um sentir ainda precário em comparação ao dos sentidos humanos. Holmer pesquisa sobre poéticas tecnológicas afetivas e, como escrito no texto que explica o documentário da obra, também presente na Bienal, “Menosprezar os sentidos e interpretações precárias da máquina pode ser desprezar as primeiras etapas da evolução da vida na Terra. Os primeiros seres vivos pendem mais para uma ação/reação behaveriana do que uma cognição completa”.

A arte de Daniel Cruz, chileno, que divide espaço com “Langpath”, chama atenção com seu belo jogo de luzes. “Bloques erráticos” é composta por 49 garrafas de água, nas quais um texto poético é reproduzido através de um sequenciador de impulsos de luz. Assim, podemos ver uma letra surgir de cada vez, criada pelos espaços entre garrafas iluminadas e garrafas “apagadas”, compondo frases como “A invisibilidade é a metáfora do Oceano” e “Os segredos se ocultam em águas transparentes”. A obra trata dos impactos do aquecimento global, mas também aborda as mudanças na forma de comunicar. Cruz explicou, em entrevista para O Globo, que, hoje em dia, cerca de 97% de todas as informações globais seguem por cabos submarinos, e que não temos clareza sobre como é a gestão destes dados, uma vez que fornecemos informações gratuitas a empresas e perdemos o controle sobre elas, assim abrindo mão da nossa privacidade.

As instalações audiovisuais também despertam questionamentos interessantes, e compõe experiências imersivas que valem a visita. O vídeo “Attention Seeker”, da inglesa Georgie Grace, explora o efeito que paisagens sintéticas causam no cérebro humano. A ideia de que passar um tempo admirando uma paisagem natural afeta positivamente nosso estado mental é amplamente aceita, mas a pesquisa feita mostrou que a imagem de uma paisagem pode ser uma alternativa efetiva. Como explicado no texto que acompanha a obra, esse fato levanta a questão de saber se é necessária a experiência real, e se podemos receber o maior benefício de uma paisagem sintética, produzida, combinada com outros componentes que melhorem nosso bem-estar mental. A paisagem de Attention Seeker é extremamente real e se torna imersiva ao colocarmos o fone e escutarmos sons da natureza, como grilos, pássaros e o barulho do fluxo do lago, mas tal imagem foi gerada por computador, aplicando texturas feitas a partir de fotografias de superfícies reais e da vida vegetal, assim aliando o digital ao natural. O vídeo consegue manipular nossas emoções, nos deixando calmos e relaxados através da iluminação, dos sons e do texto, ou até nos colocando em um estado de alerta e tensão causado pelo bombardeio de imagens e de textos rápidos. Isso faz parte do estudo de Grace, que se interessa sobre os efeitos que a mídia com base em tela tem em nossos estados mentais.

Outro projeto em vídeo, o “Black Moves”, da chinesa Carla Chan, é extremamente imersivo, pois o vídeo é apresentado em uma sala escura, o que nos faz ficar hipnotizados pela imagem. O que assistimos é uma paisagem virtual que simula a formação e o desmembramento de uma massa negra amorfa, mas que visualmente podemos acabar associando a paisagens naturais, como o movimento do mar ou a observação aérea de dunas. O vídeo nos envolve e nos leva em uma viagem pelo movimento dos diversos pontinhos pretos, pontinhos que uma criança visitando a exposição disse parecer um milhão de formigas caminhando. É curioso como o conteúdo audiovisual de algo tão impessoal quanto uma massa negra amorfa nos evoca sentimentos como encantamento e leveza.

A Bienal de Arte Digital tem, ainda, muito mais a oferecer. Além das obras aqui apresentadas, diversas outras estão expostas para visitação e adicionam mais tijolos importantes e esclarecedores à discussão da tecnologia e do digital na formação de novas linguagens artísticas. Já estamos vivendo há décadas, e cada vez mais intensamente, essa forte presença da tecnologia em todos os âmbitos da vida humana, então por que não entender mais ainda sobre algo que tanto nos cerca? E entender sob um novo ponto de vista, por vezes ignorado: o da arte.

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