Os Estados Unidos têm a maior população carcerária do mundo. São aproximadamente 2.239.751 detentos, o que representa a proporção de 716 presos para cada 100 mil habitantes. O Brasil é o quarto país da lista, com números assustadoramente altos também. Estima-se que a população priosional do mundo já passa dos 10 milhões. O ex-presidente americano, Barack Obama, levantou em 2015 a discussão sobre a necessidade de uma reforma no sistema penitenciário americano. Na ocasião, dias depois de Obama visitar um presídio em Oklahoma e defender mudanças no sistema penal, uma produção da Safe Streets Arts Foundation inaugurou a exposição “Escaping Time: Art from U.S. Prison” (em português, “Tempo de Fuga: Arte das Prisões dos EUA”). A instituição usa a arte para permitir que os presos possam se comunicar uns com os outros e com a sociedade em geral.

A exposição que ficou em exibição no ano de 2015 em Governors Island, uma pequena ilha próxima à Nova York, tinha 200 obras de arte de presidiários de todo o país. A exposição era comprometida, também, em destacar o valor terapêutico encontrado na arte feita pelos encarcerados e chamar atenção para as lutas que eles enfrentam ao tentarem a reintegração na sociedade.

Uma das instalações, intitulada “The Drug War”, uma apresentação multimídia que retrata visualmente alguns dos problemas mais convincentes da guerra contra as drogas. As narrativas visuais na instalação são lembretes poderosos de como essa guerra pode devastar muitas comunidades. Essa obra é de Anthony Papa, ex-presidiário e ativista na luta contra as drogas. Papa afirma que sua instalação segue o caminho de revelar o impacto da guerra das drogas nos Estados Unidos.

Instalação “The Drug War”

O uso da arte como arma política não é novo. Através da história, o papel do artista como comentador social tem sido inestimável. A arte é um ótimo veículo para expressar visões particulares de uma maneira incomparável, em qualquer outra mídia, por sua veracidade. Como o “Guernica” de Picasso e o “Terceiro de maio” de Goya, que retrataram poderosamente as atrocidades da Guerra Civil espanhola.

A curadora da exposição foi Anastasia Voron, Diretora de Exposições da Wallplay, na Galeria 151, que disse: “As formas de expressão não devem ser limitadas ao aprisionamento físico. A arte oferece aos prisioneiros uma nova convicção de que, embora suas circunstâncias possam parecer incontornáveis, suas memórias, experiências e esperanças são preservadas “. Voron continua: “As complexidades do encarceramento no sistema penal dos EUA são lembretes de que o tempo não é essencial. A exposição procura desbloquear as barreiras do cativeiro físico e temporal, apresentando os ataques de escapismo que obrigam os presos a criar arte. Durante o período confinado de introspecção forçada e falta de estímulos externos, a arte pode proporcionar uma sensação de fuga de paredes confinadas e tempo ocioso”.

Mas essa não foi a única vez que a arte saiu de dentro dos presídios para alcançar os olhos da sociedade. Em Guantánamo, um dos maiores presídios americanos, localizado na Baía de Guantánamo, em Cuba, também apresenta obras de arte feitas pelos detentos.

“Ode to the Sea”, inaugurada esse ano na Galeria do Presidente da John Jay College of Criminal Justice na cidade de Nova York, apresenta 36 obras criadas por prisioneiros, enquanto eles estavam algemados em suas celas. O título, coerente com o fato gritante da prisão: Guantánamo é uma base cercada pelo oceano, mas os detidos são impedidos de ver, por conta de uma lona que tampa a visão nas grades das celas.

“Em Guantánamo, estamos bem ao lado do mar, mas não podemos ir até ele”, disse Abdualmalik Abud, um dos encarcerados.

Arte de Al Anei, detento em Guantánamo

A curadora dessa exposição, Erin Thompson, é professora de Arte Criminal em John Jay, e acredita que a  arte é uma maneira de se imaginar fora da prisão. Thompson diz que o principal objetivo de “Ode to the Sea” é oferecer às pessoas uma forma diferente de pensar sobre sobre esses detentos, mas também oferecer a eles a mesma oportunidade, de pensarem neles próprios de uma maneira diferente.

Erin, no entanto, afirma que o objetivo mudou após a eleição de Trump no fim do ano passado. O atual presidente dos EUA já afirmou seu desejo em expandir Guantánamo, e por isso a exposição agora tem um propósito mais ativista.

As aulas de arte para os detentos teve início em 2009, depois de Barack Obama se tornar presidente, onde os funcionários do exército americano emitiu um comunicado de imprensa afirmando que “O programa de arte oferece estimulação intelectual para os detidos e lhes permite expressar sua criatividade”.

Obra de Ghaleb, sob orientação de Erin Thompson, que pede que eles se imaginem fora da prisão e expressem suas visões através da arte

As iniciativas das curadoras e das instituições que apoiam a causa resultam em ajudar os mais de 2 milhões de homens e mulheres detentos, dos quais pelo menos 90% são prováveis de retornarem à sociedade e tornarem-se vizinhos, colegas de trabalho, funcionários, etc. O apoio recebido na cadeia através da arte pode ajudar no desenvolvimento da auto-estima deles, além de intensificar uma atitude positiva necessária para reintegração após o cumprimento das penas.