Todo cantor precisa de backing vocal. Mas nem todo backing vocal precisa de um cantor principal para ter uma boa carreira. É sob essa luz que A Um Passo do Estrelato tece um documentário forte sobre a delicada posição de quem faz parte do show, mas não está na vista dos holofotes.

O doc, do ano de 2013, conta desde o início da história da profissão até a entrada de cantoras negras, que mudaram completamente o cenário e a maneira de fazer. Os backing vocals precisam fazer parte do todo e precisam atuar como instrumentos humanos, mas até então, antes da Darlene Wright/Love, era tudo muito mecânico e reduzido.

É impossível falar de música sem falar de negritude. A música está costurada com a história negra, com os movimentos civis, com opressão e resistência. Tantas vezes a música era a única forma de reunir negros em um clube e conferir identidade a um grupo marginalizado. Dos negro spirituals, entre as religiões africanas e protestantes, até o jazz, blues, soul, folk, sempre os negros trouxeram um colorido diferente à arte, a tal alma.

Pode ser interessante assistir esse documentário agora, no momento em que acabamos de sair de um Grammy com uma apresentação monumentalmente linda da Beyoncé, sem o coroamento correspondente. Ela é boa para elevar os números de audiência, ela é boa para conduzir apresentações milimetricamente pensadas como nenhuma outra artista fez até hoje, mas ela é boa o suficiente para ser premiada quando faz um álbum obviamente negro, que passeia por quase todos os gêneros? A resposta está em uma pergunta, da própria vencedora de álbum do ano, a cantora Adele: “o que mais ela tem que fazer para vocês?”. Os negros saíram do fundo, da posição de back? Ou eles elevam a música e todas as manifestações culturais para brancos mastigarem um conteúdo menos rico e aparecerem bem na foto?A Um Passo do Estrelato é mais do que um doc sobre backing, é um documentário sobre quem não é visto, sobre preconceitos históricos, sobre talentos negligenciados e colocados no fundo quando poderiam estar na frente. Como diz o Sting em um dos trechos, agora não parece mais ser sobre a música. Esse filme merece ser visto, com uma atenção especial para as histórias das mulheres negras, que elevaram o rock e o pop sem levarem o devido crédito.


Por Érika Nunes

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