Banksy é um dos artistas mais polêmicos da atualidade. Suas obras são sempre carregadas de cunho político, e acabam forçando o inevitável: a discussão sobre temas relevantes através da arte. O artista britânico, natural de Bristol, até hoje não teve sua identidade revelada. Apesar de diversas especulações, Banksy ainda permanece no anonimato.

Se o anonimato facilita que Banksy consiga criar obras de arte que provocam a sociedade, não sabemos com certeza, mas que o artista está sempre criando um burburinho no mundo artístico, não há dúvidas!

Seu mais recente trabalho, lançado dia 02 de Novembro, aconteceu em West Bank, fronteira de Israel com a Palestina. A obra, “ER… SORRY” esculpida no parte israelense do muro em Bethlehem, é um pedido de desculpas aos palestinos. A inauguração da obra foi feita de forma teatral: um ator contratado vestido de Rainha Elizabeth II abria as cortinas e revelava a obra, enquanto turistas, jornalistas e 50 crianças que vivem em campos de refugiados próximos dali, convidadas por Banksy, assistiam. O evento era uma espécie de “chá da tarde”, uma sátira do famoso “tea party” britânico. A decoração da mesa tinha bandeiras britânicas queimadas e um grande bolo, com tema também britânico.

O “ER” da obra também funciona como um jogo de palavras, e remete às iniciais de Elizabeth Regina, que em Latim significa Rainha Elizabeth. As iniciais também aparecem logo abaixo da Coroa Real Britânica.

Mas se você não entendeu o que motivou Banksy a criar a obra, vamos explicar agora. “ER… SORRY” é uma alfinetada nos governos britânico e israelense, e uma forma de oferecer aos palestinos um verdadeiro ‘sinto muito’ pela Declaração de Balfour de 1917, uma carta datada de 2 de novembro – a primeira conexão com a inauguração da obra de Bansky – do então secretário do governo da Grã-Bretanha, Arthur Balfour, ao líder da comunidade judaica do Reino Unido, onde Balfour declarava a intenção do governo britânico em facilitar a criação do Lar Nacional Judeu na Palestina.

Na época, a Inglaterra estava em guerra com o Império Otomano, que dominava a região. Após a Primeira Guerra Mundial, um acordo de paz assinado entre o Império Otomano e os Aliados (Estados Unidos, Reino Unido, França, Japão, Itália, Brasil e Portugal) ficou conhecido como Tratado de Sèvres, em agosto de 1920. A carta de Balfour foi incorporada ao Tratado, mantendo a Palestina sob administração britânica. Os países aliados ratificaram a Declaração espontaneamente.

Quase 30 anos depois deu-se, de fato, a criação de Israel, mas muitos estudiosos sobre o Oriente Médio acreditam que a Declaração foi o pontapé inicial para os conflitos na região.

O grande problema é que, apesar de salientar a intenção em estabelecer um Lar Judeu na Palestina, Arthur Balfour dizia em sua carta que isso não colocaria em risco os direitos civis e religiosos de comunidades não-judaicas já existentes na Palestina e muitos acreditam que a Inglaterra falhou em cumprir essa parte da dita promessa. Judeus e israelenses acreditam que o juramento foi um marco, enquanto palestinos acreditam que foi uma grande injustiça, e sentem-se traídos. Mahmoud Abbas, o presidente palestino, pediu essa semana que o Governo Britânico repare a Declaração de Balfour.

A data foi comemorada em Londres pela Primeira Ministra Theresa May, que recebeu o também Primeiro Ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Banksy, no entanto, acredita que a data não é digna de comemoração. Em sua declaração oficial, o artista afirmou que o conflito trouxe muito sofrimento, para ambos os lados, e que não parecia apropriado celebrar o papel britânico nessa parte da história.

O evento aconteceu na parte externa do hotel Walled Off, cujo dono é o próprio artista. Banksy lançou o Walled Off como um de seus projetos, que foi descrito como hotel, protesto e arte em um mesmo local, e segundo o artista, “tem a pior vista do mundo”. O objetivo é atrair turistas e empregos para Bethlehem e promover um diálogo entre jovens israelenses e palestinos. O hotel contra com 9 quartos e 1 suíte, além de diversas obras de Banksy e outros dois amigos, Sami Musa e Dominique Petrin.

Fachada do The Walled Off Hotel de Banksy, em Bethlehem

O profissional contratado para esculpir a obra no muro foi também responsável por outros trabalhos, incluindo o Palácio de Buckingham e a Abadia de Westminster, uma das igrejas mais importantes do Reino Unido.

“Os britânicos não souberam lidar bem com as coisas aqui. Quando você organiza um casamento, é sempre bom ter certeza que a noiva já não é casada” (Declaração de Banksy no lançamento da obra)

Banksy é um crítico da ocupação israelense de longa data e deixou sua arte na fronteira de Bethlehem mais de uma vez. Além do Walled Off Hotel e agora o “ER… Sorry”, ele fez uma espécie de vídeo caseiro, como um turista, na Faixa de Gaza, logo após a guerra, em 2014, mostrando as condições miseráveis lá. Um ano depois, em seu brilhante projeto Dismaland, onde Banksy recriou um parque de diversões, o artista colocou obras de arte de israelenses e palestinos lado a lado.