Tapeçaria, pinturas, esculturas, cerâmica e mobiliário de um período que abrange cinco mil anos e que provêm dos cincos continentes. Tudo isso pertencia a uma única pessoa: Eva Klabin. Ela dedicou sua vida a colecionar obras de arte e planejou deixar sua casa como um legado para a cultura do Rio de Janeiro. São oferecidas visitas guiadas pelo espaço e, até 14 de janeiro, estarão expostas 12 obras do Arthur Bispo do Rosário. A mostra, nomeada “Flutuações”, é parte do Projeto Respiração, criado em 2004, e está em sua 22ª edição, cujo objetivo é criar intervenções de arte contemporânea no acervo de arte clássica da Casa Museu Eva Klabin. O projeto tem curadoria de Marcio Doctors e consiste em convidar artistas contemporâneos a intervirem no circuito expositivo do lugar, criando uma ponte entre a arte consagrada do passado e as manifestações atuais, como informa o site do museu. O espaço fica localizado na Lagoa, Av. Epitácio Pessoa 2.480, e pode ser visitado de terça a domingo das 14h às 18h. A entrada é grátis aos sábados e domingos, e R$10 de terça a sexta.

A fortuna de Eva veio através de sua família, composta por lituanos que se estabeleceram no Brasil no final do século XIX e aqui desenvolveram, com sucesso, uma indústria de papel e celulose. Eva nasceu em São Paulo, onde começou seus estudos que foram completados na Suíça e Alemanha, e, ao se casar em 1933, se mudou para o Rio de Janeiro. Com o tempo, ela se tornou uma grande anfitriã e personagem importante no cenário social carioca, promovendo animadas festas em sua casa. A colecionadora faleceu em 1991, aos 88 anos, mas, um ano antes, expressou seu desejo de transformar a casa, com toda a sua coleção particular, em um museu. E então foi criada a Fundação Eva Klabin. A ideia era que o lugar, com mais de duas mil peças, se tornasse um centro cultural e estimulasse o gosto pela arte, pela conservação e pela pesquisa. A disposição dos objetos foi feita ao gosto da falecida proprietária da refinada moradia de 3 andares, e diversas salas receberam nomes e temática definidos por Eva, passando pelo estilo gótico, pela Renascença e pela arte oriental, principalmente chinesa.

Pela primeira vez desde a criação do Projeto Respiração, o artista convidado é um já falecido, e a intervenção foi idealizada pelo próprio curador da casa. Marcio afirma em seu texto, disponível no início da visita ao espaço, que acredita que o curador trata de potências, e que é importante a curadoria não corromper a potência que motivou a invenção da obra, e sim a afirmar.  Para tanto, é preciso conhecer o contexto do artista e suas motivações e visões. Arthur Bispo do Rosário nasceu no interior do Sergipe em 1909, e ingressou na Marinha em 1925. Ele teve alguns empregos até se tornar empregado doméstico da família Leone, em Botafogo, no Rio de Janeiro. Uma noite, em 1938, ele despertou com a alucinações que o levaram ao patrão, a quem disse que iria se apresentar à Igreja da Candelária. O Bispo perambulou pela rua e por várias igrejas até que subiu ao Monsteiro São Bento, onde anunciou a um grupo de monges que era um enviado de D’eus, encarregado de julgar os vivos e os mortos. Dois dias após esse episódio, ele foi detido e fichado pela polícia “como negro, sem documentos e indigente”, e levado ao Hospício Pedro II, a primeira instituição oficial desse tipo no país, inaugurada em 1852. Um mês depois, Bispo foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, onde, diagnosticado como “esquizofrênico-paranoico”, recebeu o número de paciente 01662 e permaneceu por mais de 50 anos. Durante esse tempo, Bispo saiu e retornou algumas vezes à Colônia, onde passou os últimos 25 anos de sua vida, e esse vai e volta evidencia que, em algum momento, ele decidiu que ficaria confinado, isolando-se do mundo em sua cela.

Em certo momento de sua internação, Bispo do Rosário começou a criar objetos com itens catados no lixo e vindos da sucata, materiais precários e ao seu alcance, todos restos da sociedade de consumo preparados com um cuidado estética e reutilizados para registrar o cotidiano dos indivíduos. A estética do artista foi posteriormente reconhecida como arte vanguardista. A sua obra mais conhecida, que não se encontra na Fundação Eva Klabin, é o Manto da Apresentação, roupa que Bispo deveria vestir no dia do Juízo Final. Em diversas peças que criou, estão presentes palavras que parecem estar soltas, sem nexo ou sentido, o que soa como se o artista estivesse fragmentando a comunicação em códigos que apenas ele entendia, códigos que ele usava como referência para sua catalogação.

A mostra “Flutuações” se estrutura a partir do enorme antagonismo que há ao se colocar os universos de Eva Klabin e Bispo do Rosário lado a lado. Os dois viveram na mesma época, mas tiveram uma experiência do que é a vida completamente diferente. Ela, rica e membro da elite, valorizada socialmente; ele, pobre, negro e marginalizado. Ambos colecionavam. Ela tinha um dos acervos mais importantes de arte clássica do Brasil e o deixou para a cidade do Rio de Janeiro; ele colecionava coisas consideradas sem valor, sucatas que encontrava ou objetos que lhe davam, para montar um inventário dos elementos do mundo, que seria apresentado, no momento de sua morte, como testemunho de sua passagem pela Terra. Como escreveu Doctors em seu texto sobre a mostra, “Eva reuniu o que havia de precioso na sociedade e Bispo do Rosário reuniu o que era descartado, sem valor, mas que ele soube transformar em algo para além do descartável. Ambos tinham preocupação com a permanência além da morte e de reunir no lugar em que viveram o testemunho de suas existências”. A beleza está justamente no contraste.Tanto Eva quanto Bispo montaram retratos de suas passagens pelo planeta, pela vida, e reuniram, no lugar em que viveram, o que seria o testemunho de suas existências, como explica Marcio. Ambos fizeram interferências em seus espaços para representar o tempo em que estiveram presentes. Suas diferenças, porém, impossibilitam que eles dividam o mesmo espaço, pois seus contextos e vivências não podem ser dimensionados e contextualizados da mesma forma. Eva nunca estará em Bispo assim como Bispo nunca receberá Eva. Assim, seu encontro é realizado sem que se encostem: as marcas de Bispo, através de suas obras, são colocadas na casa-museu Eva Klabin, mas sem interferir no espaço, sem mudar de qualquer modo a organização que ela escolheu para sua casa. Isso é feito ao as peças de Bispo serem colocadas suspensas no ar por meio de fios transparentes que as sustentam – por isso o nome “Flutuações”. Assim, a singularidade de cada um é mantida. O curioso, também, é que o próprio artista costumava dizer “Os doentes mentais nunca pousam, ficam sempre a dois metros do chão”, o que nos remete a como as obras foram colocadas penduradas na mostra.

Esse encontro é chocante por vermos a simplicidade do artista em contraste com a  suntuosidade das peças da colecionadora. A marginalização de Bispo do Rosário versus a valorização da arte clássica e a aceitação de Eva na vida social carioca.  Pode-se notar as dissidências de uma mesma realidade histórica, as multiplicidades de narrativa, e o aspecto-ilha de Bispo, que vivia em seu próprio mundo, imerso em sua missão, que ele acreditava ser reconstruir o mundo, um mundo que ele recriava em suas obras a partir de sua ótica louca e própria. Uma de suas obras mais carregadas de significado e tocantes é a cama em que ele dormia, que foi enfeitada e transformada no que ele dizia ser uma arca que o levaria para o céu no momento de sua morte. Com seus recursos limitados, Bispo parece ter enfeitado a arca com as coisas mais lindas e preciosas que estavam a seu alcance: fitas, linhas coloridas, pedaços de renda e de tecidos branco e dourado. Pensar nisso olhando, ao lado, para vitrines com obras renascentistas e tapeçarias e cadeiras valiosas pode criar um desconforto e despertar diversos debates internos. Em outra sala, com uma longa mesa cheia de copos que aparentam ser de cristal e talheres que parecem de ouro, vemos três estruturas montadas por Bispo, três murais com suas bases de sustentação todas de papelão e madeira, onde foi pregado um material para servir de fundo azul. Na frente dele estão presos diversos objetos do cotidiano, entre eles uma boca de fogão, um garfo, uma figa, um sino, um abajur e um espanador. Até mesmo uma caixa de cotonetes foi incluída. Um dos elementos que chama a atenção é um fio de arame com diversas contas de bijuteria, criando uma espécie de colar. Esses pequenos detalhes são tocantes por mostrarem que o artista queria adornar suas catalogações, talvez torná-las mais belas para quando fossem mostradas à D’eus, e seu conceito de beleza era humilde, voltado para coisas coloridas e brilhantes que fizessem parte de sua realidade. Três murais como essa estrutura estão distribuídos pela sala. Em outras obras, as que envolvem objetos enrolados por fios ou com palavras e números bordados, a delicadeza e a situação precária do artista aparecem novamente, pois as linhas que ele usava eram muitas vezes provenientes de seu próprio uniforme da Colônia, que ele desfiava para obter o material. Em “Flutuações”, há uma única obra de Bispo nessa intervenção que não flutua. A caixa de feira com vasos de flores improvisados foi vista como frágil demais para ser pendurada, então, para manter o conceito desse encontro de Eva e Bispo, as poltronas da dona da casa, que cercam a obra, foram suspensas, em vez da obra. O artista finalmente é assentado e toca o chão, enquanto os móveis de Eva abrem caminho para ele. Para quem se acostumou a ver as obras dele flutuando e a casa dela intocada, a inversão é curiosa e pode ser até calmante, por soar aos olhos como um pouso, um descanso após um longo voo. A visita à casa, com o encontro entre Eva e Bispo, traz muito do que pode-se querer tirar de uma experiência artística: curiosidade, beleza, inquietação e reflexão.

(Fotos de: Mario Grisolli)