Pelo menos desde a Idade Média a relação do ser humano com o seu próprio corpo não é a ideal. Na renascença os corpos deveriam ser grandes e gordos para serem belos. Já no começo do século XXI a regra é exatamente o oposto: a magreza das top models ditou os padrões de beleza. Hoje, a moda são os corpos curvilíneos e esculpidos em academias. Independente do formato, o padrão de beleza sempre seguiu um padrão inalcançável para cada época: no século XV a fartura era para poucos então os corpos gordos eram para poucos. Depois, nos anos 90 e 2000 a magreza das capas de revista e passarelas é impraticável para a maioria dos metabolismos. E agora parece que o corpo de academia nunca estará como os do Instagram.

Nossa relação com nosso próprio corpo sempre foi conturbada. Mas de forma inédita, hoje estamos questionando os padrões de beleza, de gênero, de representação, de tudo! E quando se fala em estética, sexualidade e representação mesmo, não tem como o corpo ficar de fora. Existem cada vez mais iniciativas lindas como a da Rihanna de trazer todos os tons de pele possíveis para sua coleção de maquiagens, ou de Khloe Kardashian de fazer com que jeans de numerações especiais possam ser vendidos ao lado das numerações menores sem nenhuma distinção. Modelos como Ashley Graham ou Candice Huffine mostram que a moda só tem a ganhar com a pluralidade de corpos.

O mais importante de tudo isso é que as mulheres magras, gordas, altas, baixas, negras, brancas, latinas, asiáticas, todas podem se ver representadas nas passarelas, nos comerciais e nas lojas. E com toda essa onda de desconstrução dos padrões, de representatividade e de empoderamento entra o movimento body positivity. Esse movimento consiste em uma filosofia de amor próprio na qual devemos olhar para os nossos corpos e amá-los da maneira que são, sem querer que ele seja mais magro ou mais gordo. Não se trata de abominar uma vida saudável e regrada ou procedimentos estéticos, mas amar seu corpo (e consequentemente amar o seu próprio ser) sem nenhum tipo de obsessão ou sofrimento. É muito mais sobre assegurar que jovens parem de sofrer com os distúrbios alimentares que os atormentaram durante décadas do que ir contra o estilo de vida fitness ou uma dieta vegan.

O body positivity ganhou mais adeptos na nova geração de feministas dos últimos anos, mas a ideia veio com a segunda onda do feminismo nos anos 60 e têm ajudado muitas pessoas, principalmente mulheres que são as que mais sofrem pressão para se enquadrarem no padrão de beleza imposto pela mídia, a se aceitarem mais e terem uma boa autoestima.

Contudo, algumas feministas dos Estados Unidos consideram que essa filosofia, ao invés de ajudar as mulheres a terem uma mentalidade saudável, às vezes atrapalha. O body positivity às vezes se traduz em uma obrigação de aceitar e amar seu próprio corpo. Amar, da noite para o dia, uma coisa com a qual você nunca se identificou pode ser um processo um tanto quanto desesperador. Imagine alguém com transtorno alimentar ter como única saída amar o corpo contra o qual trava uma batalha todos os dias. Complicado, não?

É aí que entra o movimento body neutrality: nem amar nem odiar o corpo, ter uma percepção neutra dele. Esse movimento quer que as mulheres deixem de lado a percepção que os outros tem de seu corpo – o que, na maioria das vezes, é a causa principal para a baixa autoestima – e tenha um equilíbrio maior entre o que o seu corpo realmente é e como você o percebe. Muitos concebem o body neutrality como um processo intermediário entre o ódio e o amor próprio. O movimento funciona quase que como um detox das imagens viciadas que nós temos atreladas ao nosso próprio corpo.

O body neutrality prega uma visão não só neutra, mas funcional do próprio corpo. Afinal, nosso corpo é nosso meio de estar no mundo e nossa representação nesse plano. Para que queremos um corpo do jeito que queremos?

O objetivo central dessa filosofia é a saúde mental e com a saúde mental é claro que a saúde corporal é mais fácil de ser conquistada. Um olhar neutro para o corpo nos conecta mais profundamente com as suas reais necessidades. Cuidamos melhor de um corpo quando compreendemos bem o que acontece com ele, sem encantamentos nem medos. Manter uma relação saudável com o corpo é o segredo para manter um corpo saudável.