Um encontro entre a experiência e a homenagem

No dia 19 de janeiro, Marcelo Quintanilha começou o ano com o pé direito. Ele lançou seu mais novo álbum, “CAJU“, em homenagem ao atemporal Cazuza. Em 2018, um dos maiores poetas do rock nacional completaria 60 anos, no dia 04 de abril. Esse foi um dos motivos que levou o “Quinta” a produzir releituras de canções consagradas que amamos e não cansamos de ouvir.

“O Cazuza foi muito importante pra mim e me influenciou muito como cantor e compositor, sempre admirei muito a linguagem e a liberdade que ele tinha na sua obra e na sua vida.”

O repertório do álbum conta com 11 canções interpretadas por Cazuza, como “Exagerado”, “Brasil”, “Codinome Beija-Flor”, “Blues da Piedade” (minha versão favorita), “Faz Parte do Meu Show”e “Um Trem Para As Estrelas”. Para fechar a produção, Marcelo compôs “Caju”, que transmite a sua admiração ao homenageado. O nome da música, que é o título da obra, era também um apelido carinhoso que Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, recebeu de amigos mais íntimos.

Para você que ainda não teve o prazer de conhecer Marcelo Quintanilha, essa é a hora. Esse paulistano cresceu vivendo e convivendo com música. Seus pais tocavam acordeon e desde
cedo o estimularam a aprender a tocar algum instrumento. Como tinha o incentivo dentro de casa, sua paixão pela música floresceu e cresceu. Em 92, aos 23 anos, ele se classificou como o ‘compositor mais jovem’ entre os finalistas do Festival da Record, com a canção “Domingo Outra Vez”. Ao longos dos anos, suas composições foram gravadas pelos mais diversos cantores, como Daniela Mercury, Padre Fabio de Melo e Nando Reis. Seu debut foi em 95, com “Metamorfosicamente“, e agora continua sua carreira com seu 10º álbum, “Caju“.

Depois dessa rápida apresentação, vamos à nossa entrevista. Marcelo tirou um tempinho para responder algumas perguntas que vocês conferem abaixo. Falamos do disco, de sua carreira e ainda tem umas curiosidades.

Paulo Olivera: Você já havia regravado “O Tempo não Para” para o álbum “Quinto” (2008). Com a proximidade da comemoração dos 60 anos de Cazuza, sem falar na forte influência dele na sua carreira, você faz uma grande homenagem a ele. Como foi feita a escolha das músicas para “Caju”?

Marcelo Quintanilha: Em primeiro lugar, agradeço o elogio! As canções do álbum “Caju” foram escolhidas de acordo com o que achávamos que se encaixariam melhor no conceito que queríamos imprimir ao álbum: algo que pudesse soar mais suave, mais doce (quase sempre) e que chamasse a atenção das pessoas para o lado poético de Cazuza. Valorizar as letras era uma das nossas prioridades. Claro que com tantas músicas à disposição, acabei escolhendo também segundo minhas preferências pessoais.

P.O.: As composições seguem um estilo bem diferente e diversificado se comparado às canções originais. Qual é a dificuldade em dar uma nova roupagem melódica a canções já consagradas?

M.Q.: A intenção sempre foi essa, descolar dos arranjos originais, fugir do cover. E acho que foi um dos maiores desafios também, porque as canções ficaram eternizadas com aqueles arranjos. A saída foi através de muito trabalho, descobrir novos riffs melódicos, novas roupagens sonoras que coubessem pra vestir aquelas melodias e letras, para que soassem quase como algo novo. Acho que conseguimos isso!

P.O.: Com a canção final, que também justifica o nome do álbum, você fecha sua homenagem ao Cazuza. Essa composição já estava nos planos iniciais quando surgiu a ideia ou o inside veio durante a gravação do álbum? Como foi compô-la?

M.Q.: Quando tive a ideia do álbum, comecei a fazer uma pesquisa bem aprofundada sobre Cazuza e descobri que, além de não existirem outros álbuns em sua homenagem depois do gravado por Cassia Eller, também que não existiam canções (não que tivesse descoberto) feitas para ele. Resolvi compor então “Caju” para fechar o álbum como um agradecimento pela influência que ele causou em minha carreira e como uma reverência também. Tentei usar uma linguagem próxima à sua, algo muito difícil para mim. Mas um compositor tem que sair do próprio corpo, às vezes.

P.O.: Em “Brasil”, você canta ao lado de sua filha, Nina Quintanilha. Como surgiu essa parceria familiar?

M.Q.: Nina já havia gravado comigo, em outro álbum, e com a mãe, minha esposa e cantora Vania Abreu. Ela há muito já tem uma convivência profissional com a música. Lembrei muito de Cazuza cantando essa canção com a Gal e resolvi chamá-la para cantar em dueto comigo, como forma de mostrar a atemporalidade da obra de Cazuza, mas também como maneira de sugerir um fio de esperança num país novo e melhor para a geração dela.

P.O.: Com “Caju”, você completa o lançamento do seu 10º álbum. Olhando para trás, existe algum preferido e/ou que lhe traga grandes lembranças sobre essa época?

M.Q.: Gosto de todos os meus álbuns autorais, pois antes e acima de tudo sou um compositor. Mas sem dúvida, meu preferido é “Pierrot e Colombina”, um álbum que gravei com Vania Abreu e que é um conto de Carnaval. No repertório, clássicos da MPB que falam sobre a festa de maneira muito poética e numa ordem cronológica que vai da espera do Carnaval à sua chegada, passagem e saudades. Muitas saudades dos shows e das gravações desse CD!

“Minha música representa a mim mesmo e o mundo que percebo.” Foto: Drausio Tuzzolo / Divulgação.

 P.O.: Você tem composições gravadas por inúmeros artistas renomados, mas existe algum que você gostaria muito de gravasse uma composição sua? Se sim, o por que desse artista?

M.Q.: Tenho orgulho de ter sido gravado por cada um dos artistas que já me deram essa honra. Ser gravado por Maria Bethânia seria realizar o sonho de me ouvir na voz da maior intérprete do Brasil.

P.O.: Desde pequeno você cresceu sendo influenciado por seus pais, que também eram músicos. Como foi crescer no meio musical?

M.Q.: Foi decisivo para a minha carreira. Sem essa vivência e experiência, não teria aprendido a tocar tantos instrumentos, a compor canções e a amar a música brasileira. Meus pais foram os primeiros a serem decisivos para que me tornasse um artista.

P.O.: Com uma formação clássica, você se considera um rebelde por se permitir misturar todas as possibilidades que a música brasileira oferece?

M.Q.: Me considero um brasileiro. Brasileiro que não se mistura, além de perder sua essência e nossa maior riqueza, não aproveita o melhor da festa: usar e abusar desse nosso tesouro cultural que é a diversidade. Cazuza foi assim, livre. Quem imaginaria à época um vocalista de uma banda de rock cantar Cartola com tanta lindeza!!??

   

Acima, deixamos esse álbum incrível que falamos tanto por aqui. O nosso muito obrigado por compartilhar conosco os bastidores da produção, assim como momentos de sua carreira. Sucesso a você, Marcelo Quintanilha, e vida longa ao “Caju”/Cazuza!

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