Pode parecer uma contradição, mas a moda de massa está se tornando cada vez mais individual. Bem longe de ser exclusiva, as peças vendidas em lojas de departamentos e e-commerces estão considerando a individualidade de cada consumidor de forma inédita. Isto é, nunca houve uma pluralidade tão grande de estilos nas araras das lojas de fast-fashion. Isso por que o consumidor está com uma vontade crescente de expressar sua individualidade. Com os textões e polêmicas nas redes sociais fica explícito que todos nós temos algo a dizer sobre tudo. E isso obviamente tem reflexos no modo como nos vestimos.

Mas, ao mesmo tempo continuamos preocupados com a coletividade. Se de um lado a moda considera mais as individualidades de cada um ela busca abarcar o maior número possível de pessoas. As peças hoje são desenhadas para que possam ser usadas pelo maior número de corpos possível, mas também são pensadas para que cada um desses corpos possa expressar sua individualidade. O resultado disso tudo: estamos cada vez mais viciados em camisetas.

São pouquíssimas as peças tão universais quanto as camisetas. Também são poucas as que conseguem mandar mensagens tão variadas quanto elas. Desde o seu candidato à presidência até sua religião ou seu gosto musical: você pode expressar tudo o que quer através do simples ato de vestir uma camiseta.

Não é nada novo esse nosso gosto pela peça que surgiu como uma roupa íntima, mas nos últimos anos a febre pelas t-shirts aumentou. O primeiro motivo para isso é simples: programas para design de estampas estão cada vez mais populares e mais fáceis de usar, hoje qualquer um pode ser um design de camisetas. Basta ter um computador e enviar sua criação para um dos muitos e-commerces que estampam camisetas e entregam por correio.

O segundo motivo tem uma explicação sociológica: como já foi dito, nós nunca tivemos tanta necessidade de nos expressar, nunca se fez tantas tatuagens, nunca se registrou tanto os acontecimentos banais da vida e nunca se falou tanto sobre tanta coisa. E a camiseta funciona mais ou menos como a tatuagem: é a mensagem que você carrega em si mesmo, é algo que te traduz e traduz suas causas, gostos e preferências. É um registro sobre o que você estava pensando e o momento que você estava vivendo, mais ou menos como seu post no Facebook, sua foto no Instagram e seu tweet. É como se sentíssemos a necessidade de que todos saibam a série que nós assistimos, a banda que ouvimos e as causas pelas quais nos engajamos.

Desde que começou a se popularizar, as camisetas foram um símbolo de juventude e até de rebeldia. Acredita-se que ela surgiu no século XVIII como roupas de baixo e nos anos 30 tornaram-se parte do uniforme dos militares europeus e americanos. Contudo, foi só nos anos 50 que a peça virou popular depois que ficou conhecida como a marca registrada de James Dean em “Juventude Transviada”.

Nos anos 60 a camiseta continuou sendo símbolo de rebeldia e contestação através da cultura hippie e do Tie Dye – aquelas camisetas artesanalmente pintadas com várias cores. Foi nesta década também que foi criada uma das camisetas mais famosas de todos os tempos: Em 1968 o artista plástico irlandês Jim Fitzpatrick criou a famosa camiseta com o rosto do guerrilheiro Che Guevara.

Jim adiantou uma tendência que viria se confirmar na década seguinte: a de utilizar as camisetas para transmitir mensagens políticas e de engajamento. Nos anos 70 Nova York passava por um período difícil economicamente, então Milton Glaser criou a famosíssima estampa “I ♥ NY”.

Foi também na década de 1970 que foi inventada a camiseta de banda mais conhecida do mundo: Em 1971 o designer John Pasche criou o encarte do disco “Sticky Fingers”, dos Rolling Stones e a boca vermelha com língua de fora passou a estampar milhares de camisetas mundo a fora. Isso para não falar das camisetas de “Dark Side of the moon” do Pink Floyd, dos Ramones e do ACDC.

Nos anos 80 a tendência continuou com a invenção de outras camisetas históricas como a “Just do It” da Nike, a do Hard Rock Café e da Harley Davidson.

Já na última década do primeiro milênio o destaque foi para a logomania. Com o crescimento da cultura da ostentação grifes famosas como Gucci, Calvin Klein e Tommy Hilfiger passaram a estampar camisetas brancas com seus logos – tendência que voltou nos últimos anos.

Nas duas décadas que seguiram a camiseta imperou. No início dos anos 2000 surgiram os e-commerces facilitando ainda mais a venda e a personalização de camisetas. Nos anos de 2010 somaram-se às camisetas de bandas e de mensagens políticas, as de séries e, mais recentemente, de memes. Camisetas como a da Supreme e a “We should all be feminists” da Dior já são clássicos e são imitadas e relidas várias vezes por lojas como Touts e Vandal. Ao que parece, o reinado das camisetas está longe de acabar.

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