03/11/2017

Querido Dário,

Fui-me embora! Não! Eu não estou em casa da Margarida a conversar. Eu sei que insistes em dizer isso mas eu nunca conheci nem, muito menos, fiquei amiga de nenhuma Margarida. Não! Também não estou em casa dos meus pais. O meu pai está num lar de idosos, faz amanhã 6 anos, e a minha mãe morreu quando eu tinha 10 anos. Como era de prever, tu não sabes. Também, como é óbvio, não estou em casa da minha irmã. Sabes bem, ou devias saber, que sou filha única. Porque é que eu saí de casa? Contrariando tudo o que tu já possas ter pensado, por tua culpa! Não foi porque encontrei outro. Não foi porque achei que tinhas outra, sei bem que não conseguirias mesmo que quisesses, e eu sei que querias. Foi por tua culpa!

Ah que Desgraciosa Ocasião! Tenho completa certeza de que foi isso que tu pensaste. Todos já decoramos essa tua expressão. Desde que a disseste por engano em 2006 que nunca paras de a repetir. Apenas tu ainda achas graça. Para tua informação: desgraciosa existe mesmo. Não é uma palavra inventada por ti. Não és assim tão inteligente. Não és sequer inteligente. Aposto que agora disseste algo como “Inteligente sou eu não, mas Inteligente também tu és não”. Também todos sabemos que achas que tens graça por trocares a ordem das frases. O Yoda faz isso desde 1980, mas tu insistes em dizer que ele é um Duende do Senhor dos Anéis.

Por falar em Senhor dos Anéis: Não! O Gandalf não é “um Merlin”. Não! O Aragorn não é o Rei Arthur. Tal como o Batman continua a não voar e o Super-Homem continua a ser só um, não são todos “Super-Homens”. Não! A Internet nunca falhava sempre que tu ligavas o Google. Ligares o Google e esperares resultados não funciona. E tentá-lo sem a Internet ligada também não. Não! A Água não ficava sempre fria quanto tu ligavas a água Quente. Se tu insistes em ligar para o lado direito, aquele com a bolinha azul, é normal que fique frio. Aquele lado representa a água Fria.

Aposto que voltaste a pensar Desgraciosa Ocasião. Não voltou a ter graça desde há dois minutos. Nunca terá graça. Tal como não tem graça repetires a anedota que o Miguel nos disse no almoço de segunda-feira. Lá porque passa um dia não quer dizer que eu me tenha esquecido. Peço-te que pares de dizer que só tens acidentes de carro porque eu te distraio. Nunca sequer andei contigo de carro. Tu nem sequer tens carro. Tu nem sequer tens carta. Tu nem sequer sabes o que é uma Carta. Quando foste apreendido quando conduzias o carro do Alex e te pediram a carta e tu respondeste “Valete ou Dama?”. O polícia não ficou sem se rir por estar em serviço. Ele não se riu pelo mesmo motivo que nos fez não rir. Tu não tens graça. Não tens graça tal como não és bom no futebol. Tal como não és bom nadador. Tu não foste de um lado ao outro a nadar na Piscina Municipal. Não existe uma Piscina Municipal. Aquilo era um Bidé.

Sei que dizes que todos te adoram no trabalho. Não sei o que intendes por trabalho. Se com trabalho dizes ir ao café dizer aos desconhecidos que o café está bom, então nem nisso és bom. Por tua causa aquela padaria fechou. Não foi pelo facto da ASAE ter aparecido. A ASAE deixou de aparecer tal como os clientes. Perguntares se tens desconto na tua “Sandocha” por seres um amigo da casa perdeu o sentido na primeira vez que tu o disseste As empregadas não estavam a suspirar porque lhes tinhas tirado um peso de cima ao chegar. Elas suspiravam porque não te podiam ver. Sabes quem também não te pode ver? O Alex. Está cego faz em março 3 anos. Mas tu insistes em dizer “Tira os óculos que aqui não está sol”.

Sabes quem também já não te pode ver? O Mário. A mulher dele morreu de cancro em 2010 mas tu insistes em perguntar como é que ela está. Quando a tua afilhada disse que tinha tido 10 num exame e tu disseste que quando eras novo tinhas sempre mais, não foi bem um elogio para ti. Ao contrário do que tu pensas, a tua afilhada não anda no Quinto Ano. Ela está a estudar medicina em Lisboa. Sim, porque nós também estamos em Lisboa. Isto não é Nova Iorque e a Estátua do Camões não é a Estátua da Liberdade tal como a Estátua do Fernando Pessoa não é um homem estátua muito talentoso. Talento é do que tu careces. Por favor pára de me mandar mensagens todas acabadas em “Enviar”. Eu as não vou receber porque não basta escrever “Enviar” para elas serem enviadas. Não é nada pessoal. Mas realmente, és muito burro. Chamar-te burro aliás seria uma ofensa aos burros. Tu és, digamos, uma Desgraciosa Ocasião.
Um Abraço,
Ana,

Sim, porque eu não me chamo Madalena!


Por Rodrigo Duarte

Sobre o autor: Nascido no Município de Arouca, no distrito de Avieiro, Portugal; Rodrigo começou a interessar-se por livros aos 7 anos de idade. Aos 13, descobriu a crônica de opinião e com essa mesma idade resolveu aventurar-se nesse tipo de escrita. Atualmente escreve na página The Moosers, no Facebook. Página esta, na qual Carta de Despedida saiu por primeira vez.