Nesta semana passada aconteceu, em São Paulo, a 41ª edição da Casa de Criadores – que também comemorou 20 anos. Com o objetivo de criar um espaço que trouxesse uma proximidade com o mercado da moda, um grupo de jovens estilistas brasileiros, junto com o jornalista André Hidalgo, decidiram fundar o evento. Desde 1997 que novas coleções são lançadas, tendo como pivô a criação autoral e a revelação de novos talentos, que participando do evento conseguem ganhar certa credibilidade no âmbito da moda. O evento acontece duas vezes a cada ano seguindo o calendário de lançamento de coleções (primavera/verão e outono/inverno). As coleções para o Verão 2018 já estão sendo apresentadas em oficinas.

Um nome conhecido que foi projetado pela Casa de Criadores é o do estilista Ronaldo Fraga. Muito prestigiado por valorizar as raízes e a cultura brasileira em suas roupas, Ronaldo nos seus desfiles constrói narrativas, e nesse enredo o estilista tem total desapego a qualquer tipo de tendência. É um artista que assiste à moda como se ela fosse o espelho do tempo em que vivemos. Ronaldo Fraga já recebeu uma medalha da Ordem do Mérito Cultural, em 2007, por seu trabalho incorporar muito bem a cultura do Brasil. Mas, o designer de moda já chegou a ter sido criticado nas redes sociais. Em um desfile, para uma São Paulo Fashion Week, que falava de futebol, modelos desfilaram com perucas de palha de aço e Ronaldo Fraga virou “trending topic” no Twitter tendo seu nome associado ao termo racista, quando o artista disse ter tentado demonstrar o oposto.

Re-existência – Ronaldo Fraga

Para o Verão 2017, o estilista preparou a coleção “Re-existência” que foi um de seus desfiles mais fascinantes. Ele teve como inspiração os refugiados do mundo, especialmente os da África. Para contar a história e homenagear os refugiados, Ronaldo Fraga usou como referência textos do moçambicano Mia Couto e do poeta e romancista, nascido na Angola, Valter Hugo Mãe. Toda essa ideia surgiu quando ele fez uma viagem à África. Lá ele pôde refletir em cima do vestuário e dos costumes daquele povo e percebeu que a roupa era a última coisa que os ligavam a sua cultura. Em fuga, pela busca da sobrevivência e da liberdade, nas embarcações, era onde eles só tinham a roupa do corpo e um resto de esperança. Então, realizou uma coleção com o viés político e humanitário sobre essa situação usando acessórios de inspiração étnica e, além disso, também juntou o repúdio da comunidade européia em prints de rostos saídos da mamma áfrica.

Desfile da Cemfreio na 40ª edição da Casa de Criadores

São nesses trabalhos ligados à área social que também consiste um dos grandes objetivos da Casa de Criadores. Encontram-se a campanha “Homofobia Fora de Moda”, que é um desses trabalhos, e tem como parceria a Secretaria de Cultura do Governo do Estado de São Paulo. Outro exemplo é o evento “Fashion Mob”, que é a primeira passeata de moda do Brasil. Ao preencher as ruas do centro de São Paulo, a passeata acontece de forma democrática, sendo aberta para quem quiser participar: estudantes, costureiras, profissionais de moda etc. Lá acontece também um concurso em que o vencedor passa a integrar o casting de estilistas e marcas que desfilam na Casa de Criadores. Nesta 41ª edição da Casa de Criadores, a marca Cemfreio, de Victor Apolinário, fez seu segundo desfile, realizado na abertura do evento, e levou a cantora Pabllo Vittar para ser a trilha da apresentação.


Por Graziella Ferreira