Recentemente, a Netflix lançou em sua plataforma a série Cara Gente Branca, para falar de racismo e empoderamento das minorias. A série, que teve 100% de aprovação no Rotten Tomatoes, veio para quebrar discursos disfarçados de opinião e trazer à tona questões antes menosprezadas pela sociedade. Mas, engana-se quem pensa que essa é a primeira produção com cunho social da empresa.

Desde 2016, “Chewing Gum” está disponível no serviço de streaming trazendo humor para falar de racismo. Produzida, dirigida, roteirizada e protagonizada por Michaela Coel, a série é um monólogo. Agora, na Netflix, possui 12 episódios com aproximadamente 20 minutos, onde a protagonista fala com o espectador.

“Minha mãe ia me chamar de Alyssa, doce anjo em indiano, mas, quando me viu, me chamou de Tracey”. Essas palavras abrem o episódio piloto, que contam a história da jovem, de 24 anos, que deseja muito perder a virgindade com seu namorado Ronald. Tracey mora no subúrbio de Londres com sua mãe e irmã, ambas extremamente religiosas, e tem a companhia de sua melhor amiga. Ainda assim, ela é afetada indiretamente por inúmeras questões, que criam situações cômicas enquanto revelam o caráter racista da mesma.

“Chewing Gum” não é previsível. Na realidade, mostra as situações rotineiras com um toque sutil de crítica. Mistura, com um roteiro imediato, a falta de experiência sexual da protagonista com o mundo à sua volta, relacionamentos desastrosos, humor e torna-se, assim, uma das melhores séries originais da Netflix.

A grande questão de “Chewing Gum” transpassa a falta de domínio do sexo da protagonista. Uma vez que não o fez e inserida no âmbito familiar religioso, a ansiedade da mesma gera situações cômicas entre uma cena e outra. Na primeira temporada, a busca exagerada pelo sexo mostra à Tracey o caminho do amor, enquanto na segunda temporada (onde ocorre uma queda brusca de roteiro), a jovem parece colocar os pés no chão.

Na segunda temporada, a discussão sobre racismo é mais acentuada, falando também da fetichização da mulher negra. Tracey, apesar de seu jeito infantil e de sua falta de experiência, não deixa de ser fetichizada por homens brancos. E, por ser muito ingênua, a falta de continuidade de certas cenas causa um mal estar em quem assiste e ri de um assunto que ainda não é tão amplamente discutido na sociedade.

“Chewing Gum” consegue brincar entre a linha tênue do humor e da crítica. A série trata uma situação com humor para logo após indagar ao telespectador porque ele ri. E, a pergunta é séria: por que você ri? Por que situações de machismo e racismo ainda geram graça? Afinal, as situações retratadas na série de fato ocorrem com negros e, principalmente, com a mulher negra. Além disso, a série tem personagens que representam todas as minorias e diversificam a trama, uma vez que o monólogo não era cômico, e torná-lo humorístico foi uma opção da Netflix.

A série também conta com um elenco muito forte, tendo como destaque as personagens Cynthia (Susan Wokoma) e Candice (Danielle Isaie), irmã e melhor amiga da protagonista, que são opostas entre si e servem de “conselheiras” de Tracey. Ambas conduzem a trama e são responsáveis pelas melhores piadas.

Outro ponto importante é a condenação social sobre o argumento religioso. Na trama, a mãe e a irmã de Tracey são extremamente religiosas e o ato sexual é visto como um pecado. Ocorre aí, então, a falta de naturalização e discussão sobre um assunto que ainda é visto como um tabu. A condenação moral e religiosa é resultado de um discurso conservador e antiquado, mas que ainda é presente.

Com a representatividade na série, outros pontos são mencionados, como homossexualidade e ausência paterna. Um dos grandes acertos da mesma é mostrar que, às vezes, o tão endeusado papel do homem patriarcal não deveria mais ser tão enaltecido, independente da relação. A condenação social costuma se esquecer de homens e se concentrar apenas em menosprezar mulheres.

O segredo parece ser um só para a Netflix: unir discussões atuais com um elenco bom e criar séries originais que façam uma crítica social. Dá certo em quase todos os casos, proporcionando boas experiências como “Chewing Gum” e a recente “Dear White People”. A diferença crucial é a necessidade de competir com outras séries originais do serviço e lutar por um espaço de fala e conscientização no meio de tantas outras produções. Resta esperar, então, que novas tramas possam conscientizar a sociedade sobre uma discussão tão antiga e necessária como o racismo.

CLOSE
CLOSE