Em 2009 a Maurício de Sousa Produções” lançou o livro MSP 50 para comemorar os cinquenta anos de carreira do criador da Turma da Mônica. Graças ao sucesso desse álbum que trazia a representação dos personagens de Mauricio por 50 talentosos artistas brasileiros, vieram dois novos livros: o “MSP + 50” (de 2010) e “MSP Novos 50” (de 2011). Sob a curadoria do prestigiado jornalista especializado em quadrinhos, Sidney Gusman, enxergou-se a oportunidade de trazer de volta para o Mauricio de Sousa aquele leitor juvenil e adulto. Aquele leitor que cresceu lendo os quadrinhos dele, mas que se distanciou quando foi ficando mais velho. Com isso ele se tornou o editor responsável pelo selo Graphic MSP, que traz regularmente graphic novels com os personagens clássicos sob uma nova leitura. Até o momento já passaram pelos lápis de diversos artistas, os personagens Astronauta, Chico Bento, Bidu, Piteco, Penadinho, Louco, Papa Capim, Mônica, Capitão Feio e Jeremias.

Aqui nesta resenha vamos falar de “Chico Bento – Arvorada”, o qual foi um dos lançamentos de 2017 sob o traço de Orlandeli. Na verdade, essa foi a segunda vez que o caipira mais querido da Turma da Mônica ganhou uma edição dedicada. O bom humor do autor já se faz presente desde o título (Arvorada) de natureza dúbia, afinal, tanto pode significar uma quantidade grande de árvores quanto o nascer de um novo dia (Alvorada) pronunciada em “caipirês”.

Quem conhece o multi-premiado cartunista, quadrinista e ilustrador Orlandeli, criador do hilário Grump, está bem familiarizado com seu viés de humor e com seu belo traço bastante fora do convencional. Este foi noss primeiro choque ao ler “Chico Bento – Arvorada”, onde encontramos uma mistura equilibrada de bom humor com alguns níveis de drama. Sim, drama daqueles de tirar algumas lágrimas. E os elementos que, no nosso caso, provocaram isso até que são comuns a muita gente. Primeiramente foi a inserção de uma nova personagem, a Vó Dita, que o próprio Maurício importou de sua vida particular para os quadrinhos, a qual inevitavelmente traz à tona memórias saudosistas de quem cresceu muito próximo dos avós. O segundo elemento é quase um personagem presente na HQ, o Ipê Amarelo, o qual tem uma importância intensa na trama e também me traz boas lembranças pelo fato – desse que vos fala – desde criança num bairro densamente decorado por essa árvore que proporciona aqueles lindos tapetes amarelos pelas ruas nos meses de agosto e setembro!

Como nos diz a epígrafe da graphic novel, “esta é a história de um menino (Chico Bento), uma anciã (Vó Dita) e um Ipê Amarelo”. Devido aos trechos tocantes, não vamos nos aprofundar muito na trama onde Chico Bento, o caipira mais famoso dos quadrinhos, leva uma daquelas lições que a vida de vez em quando dá em todos nós. Porque nem tudo pode ser deixado para depois. Fica claro que se trata de um drama familiar onde Chico lida com as lembranças da Estrelinha Chamada Mariana (1990) ao mesmo tempo em que lida com a situação atual da avó e aprende uma importante lição de se aproveitar o tempo, recurso finito em nossa vida que, uma vez perdido, nunca volta. Outros personagens presentes na HQ são Rosinha, Zé Lelé, os pais de Chico e o porquinho Torresmo, os quais foram empregados apesar das participações discretas que fazem durante a trama.

Como se um belo roteiro desses já não bastasse, Orlandeli também surpreende com uma aplicação inusitada de seu traço peculiar. Mesmo com figuras totalmente estilizadas, as personagens são muito expressivas, em total sinergia com o clima da história. As deformidades características do traço do ilustrador fizeram com que partes dos corpos dos personagens acabasse se tornando elementos narrativos. Embora isso pareça estranho o resultado é belíssimo, pois denota a interação de Chico com o ambiente que o envolve. Outro ponto que salta aos olhos é a lindíssima paleta de cores utilizada. Além de bem combinada, com cores vibrantes e bem contrastadas, esta também faz pano de fundo aos sentimentos presentes em cada quadro ou página.

“Chico Bento – Arvorada” é daquelas obras que tem o poder de mexer com o leitor em diversas instâncias. O talento de Orlandeli em retratar o rico universo de Maurício de Sousa foi impagável! Mesmo que você não se interesse em colecionar o Graphic MSP (que vale a pena) este álbum é imperdível.

Publicado em: abril de 2017
Editora: Panini
Categoria: Graphic Novel
Número de páginas: 100
Formato: (19 x 26 cm)
Colorido/Capa dura
Preço médio: R$36,00

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