Outro dia alguém fez uma enquete no twitter: Qual é o pior desgraçamento da vida adulta? Entre família, relacionamento e outras drogas, com 37% venceu o tópico Pagar As Contas.  

É, não dá para discordar, você já passou no mercadinho hoje? (essa é pro leitor universal) Quando terminei de ver Stranger Things só pensava no tal demogorgon. Pô, a série teve uma aceitação razoável entre jovens adultos e adultos. No final do dia é uma história sobre o monstro do armário, só que vindo de um laboratório e de uma teia de ectoplasma.

Mas a gente se identifica, do auge dos vinte e cinco anos se identifica. Com o quê? Há tramas adultas, sim, luto aqui, luto ali, abandono parental, apatia do homem de meia idade de classe média, há espaço até para um triângulo amoroso adolescente. Talvez por isso Stranger Things pareça tão equilibrada. Colocar monstros para correr atrás de pessoas, qualquer diretor com um bom orçamento faz, mas comover já é de outra natureza.

As atuações pontuais, no tom preciso, dão vida a personagens variados, que queremos abraçar (mesmo, todo mundo ali parece precisar de um abraço).

E é aí que volto à enquete. Supostamente, os nossos monstros são trancados de vez quando entendemos que o escuro faz parte, e a gente até pode preferir andar pela casa com luzes acesas, mas o medo da criatura é sempre maior que a criatura.

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Foto: Demogorgon (Stranger Things)

O demogorgon, temporariamente derrotado por Eleven no capítulo final, é um vilão que não causa empatia, ele é o próprio medo, grande, assustador, escuro, mas vazio – contudo, sabemos que nunca foi sobre ele.

Sei lá quando foi a última vez que senti medo. Bom, medo tem uns dois minutos, mas MEDO, daquele aterrorizante de criaturas sobrenaturais não sei ao certo. Até os sete anos de vez em quando eu acordava e cismava que o lustre do quarto era uma pessoa. Talvez por uma escolha de design e uma ausência de armários grandes no cômodo, essa categoria específica de monstro não conheci.

Mas eu tenho que ter um demogorgon, todo mundo tem um. Sabe quando você olha para um corredor longo e afunilado e ele é um espelho e você enxerga ali alguma coisa que prefere ignorar? Um fracasso? Uma perda? Um desajuste? Uma vida que não te representa? Uma síndrome do impostor? Não sei.

Isso me lembra A Luz de Tieta:

Existe alguém em nós em muitos dentre nós esse alguém que brilha mais do que milhões de sóis e que a escuridão conhece também existe alguém aqui fundo no fundo de você, de mim que grita para quem quiser ouvir quando canta assim

Podemos dizer que cada personagem projetava alguma coisa no tal monstro: A mãe a sua possível negligência, o Jonathan a sua insegurança, os meninos o medo das consequências de suas aventuras, a Eleven o medo de retornar ao seu local de abuso, a Nancy o medo de não ser ela mesma, o namorado o medo de ser um babaca irrecuperável, o policial o medo de revisitar o seu luto.

Acho que o meu demogorgon da vida foi o transtorno de ansiedade. Com braços demais, quase krishniana, a ansiedade já fez parecer que iria me vencer bem fácil. Mas a gente aprende, uma partida de dungeons and dragons após a outra, que a ansiedade não é diferente de qualquer outra dificuldade. Ela é poderosa, mas não invencível. Onipresente, mas não onipotente. E ela precisa ser combatida de dentro.

A vida adulta, com contas, contos e outras histórias não permite sempre a roupagem ficcional, o brincar de ver monstro, o cobertor cabaninha como protetor e o grito pela mãe. Talvez por isso os nossos demogorgons sejam mais fáceis de achar que os pokémons do joguinho.

Viver é brincar de capturar demogorgon, mesmo sem poderes especiais e sem fazer o seu amiguinho voar, olhar para dentro da criatura, seja ela qual for e dizer: Querido, hoje não (ou se você gosta de RuPaul’s Drag Race: Not today, Satan, not today).


Por Érika Nunes