Falar em arte sempre é falar em descobrimentos. Seja em uma atividade, seja no outro ou mesmo (e principalmente) em si. Que a arte tem uma capacidade ímpar de ampliar o autoconhecimento, todos que desfrutam dela bem sabem. Mas uma coisa que potencializa esse poder é quando a arte é apropriada com causa! E neste mês (onde comemoramos as lutas das mulheres por igualdade de direitos – que datam dos idos de 1857) começamos a tratar de arte nessa dobradinha que amamos: arte feat. empoderamento feminino.

Para ilustrar esse anseio por engajamento no ambiente artístico (levando a mensagem de sororidade e equidade), vamos falar de um grupo de mulheres que a vida uniu para fazerem a diferença: O Coletivo As Minas (que nós já te apresentamos aqui!), criado pela atriz Rayza Noiá, abraça dez meninas que juntas constroem um trabalho teatral engajado.

E o que temos para essa semana? Conhecer um pouco mais desse coletivo incrível, que inclusive estreia um trabalho novo esse mês na Sede das Cias (dá uma olhada na nossa agenda).

A Woo! (que “manja dos paranauês”) não perdeu a oportunidade de entrevistar essas jovens e talentosas moças,  no desejo de conhecer um pouco mais as motivações e vivências que hoje culminam nessa parceria bacana. Como é muita história para contar (e empoderar), dividimos nossa matéria em duas partes: Esta, onde conheceremos um pouco mais sobre o projeto, sua idealização e desenvolvimento, além de trazer um papo com a diretora da peça; e a segunda parte onde conheceremos mais sobre as atrizes e as mudanças que esse projeto vem trazendo para a vida dessas moças.

Rayza Noiá – Foto: Gabriela Isaías

A atriz e produtora Rayza Noiá, ao finalizar sua formação na CAL,  sentiu a necessidade de mostrar seu trabalho e ideias em um mercado fechado e em crise. Percebendo que precisava expandir seu trabalho para além das oportunidades que apareciam, em suas palavras:

“Eu tinha acabado de me formar e estava em cartaz com um musical. Tinha ansiedade de dar voz ao que me concerne pessoalmente como artista, de trabalhar, de ser vista, mas o mercado além de já ser competitivo, passava por uma crise. As oportunidades estavam limitadas. Eu não sabia como, e ainda tinha muito medo de me produzir sozinha. Fiz um coach profissional com Beth Lamas e lá ela me ajudou a ver que a única pessoa que poderia me impedir de realizar os meus sonhos era eu mesma.”

Nesta jornada, junto a sua aproximação com a luta feminista, vislumbrou a ideia de unir mulheres incríveis com as quais trabalhava em um projeto que desse protagonismo a está causa.

“Num momento em que o tema está mais latente do que nunca, entrar em contato com toda a equipe que reuni foi muito simples. Vozes que precisavam ser ouvidas se encontraram no coletivo. Era urgente para todas gritar isso no papel e no palco. Elas embarcaram nessa jornada de corpo e alma desde o princípio.”

 

O espetáculo Eu (quase) Morri Afogada Várias Vezes, desenvolvido coletivamente, conta com a direção de Brunna Napoleão, que inicia a entrevista dizendo que agradece diariamente por participar deste projeto.

Lorena Freitas- O projeto, a meu ver, tem um contexto sociocultural latente. E, nesse timing,  quais foram as suas motivações para desenvolver esse trabalho?

Brunna Napoleão- O que sempre me incomodou na dramaturgia teatral é que a maioria esmagadora foi escrita por homens, eu adoraria que tivesse umA “Shakespeare” ou umA “Tchecov”, mas imagina! Na época de Shakespeare mulher não podia nem subir no palco, quanto mais escrever! Na música a mesma coisa, quantas compositoras temos? E das que temos, quantas não falam só sobre dor de cotovelo? Ano passado teve um projeto teatral com textos sobre mulheres e suas questões que achei maravilhoso, mas quando fui ver lá estavam os diretores homens e dramaturgos homens. Há sempre esse filtro masculino no nosso cotidiano. Daí pensei: como é quando tudo é feito por mulheres, mesmo mulheres que nunca tenham diretamente feito aquilo?  Como se chega nas mulheres? Quantas diretoras musicais existem, por exemplo. Temos a sensação que homens sempre são os primeiros nomes quando se monta uma equipe. Foi engraçado porque tive amigos de teatro indignados porque dessa vez eles estariam fora, mas quantas vezes nós mulheres estamos fora? Falam sobre nós, usam nossas dores e nossos assombros, mas dão trabalho pra outros homens. Não é pra brigar com nenhum homem, não é pra deixá-los de fora porque não gostamos deles ou qualquer coisa assim, é pra fazer com que trabalhos de mais mulheres sejam conhecidos. Eu não sabia que conseguia dirigir 10 atrizes, tendo uma dramaturgia e uma música inteiras criadas pra o mesmo espetáculo. Quando me toco disso é assustador.

Brunna Napoleão

LF- Lidar com o feminino é um desafio que exige muito tato (especialmente em tempos como os de hoje). Como se deu o processo de laboratório e desenvolvimento do trabalho? Como eram direcionadas as vivências de cada mulher envolvida em prol do resultado final do espetáculo?

BN- Quando a Rayza Noiá me convidou, não sabia direito como seria o espetáculo, ela me chamou para algo leve, lúdico, que fizesse chegar o feminismo nas pessoas sem agressões, mas quando eu cheguei, tomei um susto porque as atrizes iam se abrindo com suas histórias ou histórias de mulheres próximas a elas que mexiam muito com elas. Tive de repensar o que tinha conversado com a Rayza, porque o buraco era muito mais embaixo. E era lindo. Assustadoramente lindo. As atrizes já tinham feito algumas reuniões sobre alguns temas que elas queriam discutir e dei uma direcionada em cima disso. Passamos muito tempo nas reuniões até que um dia fomos trabalhar o corpo com elas e a Isabel Chavarri, nossa diretora de movimento, propôs um exercício. Ali aconteceu: “Nenhuma fica pra trás” foi o que escrevi nesse dia e toda a peça veio a partir daí. Inclusive uma das cenas do prólogo é a reconstrução desse trabalho. Dar segurança a cada atriz, construir uma rede pra que elas conseguissem falar sobre algo que as afligia foi o que me guiou em todo o processo. Saber quando ir e quando parar. Tivemos um processo com muitos choros e muitas gargalhadas. Saber respeitar esse outro lugar foi um dos meus maiores aprendizados. É um lugar completamente diferente da maior parte dos trabalho que fiz. Você tenta se afastar, mas hoje por exemplo, estava dirigindo uma cena e falei pra uma atriz “ontem um homem matou seus filhos e mandou a foto deles pra mãe antes de se matar”. Ontem aconteceu isso, todos os dias acontecem situações como essa. E pelo fato de estarmos trabalhando com isso, prestamos mais atenção no entorno,  e é terrível o que acontece. Almejo 1 dia que passe sem uma mulher ter sido agredida, ter sido abusada, assediada ou morta. 1 dia apenas.

LF- Na sua opinião,  qual o papel social do coletivo? E quais são as estratégias que você percebe como válidas para levar a mensagem para além dos ambientes (e pessoas) de Artes?

BN- Uma vez minha cunhada falou “eu só paro no dia que eu chegar na PUC e metade das pessoas forem negras”, então a minha resposta vem a partir do que ela falou, eu só paro quando todas as mulheres se sentirem protegidas e tiverem a total liberdade de ser quem elas querem ser. Eu sei, é uma luta pra vida toda, não devo assistir a isso, mas é a minha luta diária como ser humano. A minha luta vem através da arte, eu quero que aquela mulher que nunca parou para pensar sobre, que se acostumou com a violência, que acha que nada pode mudar, veja minha peça e pense: ”Opa! É possível sim.” Eu quero que homens assistam e pensem/repensem o lugar de fala real da mulher, que vejam que a decisão sobre a vida de uma mulher pertence 100% a ela e a mais ninguém.

LF -Qual a importância que você acredita que o feminismo teve na vida das meninas do coletivo? E qual a importância disso, na sua visão,  para as mulheres de forma geral?

BN- Eu gostaria muito de ter tido isso, ter participado de um coletivo feminista e ter feito uma peça sobre esse tema, quando tinha a idade delas, eu sou o pulo de geração entre a 2a e 3a onda e me achava esquisita por isso, mas com elas eu vejo que não, porque eu posso ser de verdade quem eu quero, e eu sou primordialmente feminista. Acho de verdade que o maior questionamento das atrizes é como mudar o sistema do patriarcado que tanto nos machuca, tanto nos tira a voz, tanto tira o poder de decisão sobre nosso próprio corpo. E mais: como não ser machista? Porque todas nós viemos dessa cultura,  então diariamente reproduzimos o discurso machista. Precisamos combatê-lo diariamente, inclusive nos xingamentos. No nosso ensaio só meia dúzia de xingamentos são permitidos porque a grande maioria é machista ou homofóbica. Durante os ensaios li uma frase da Yoko Ono, assim: “Try to say nothing negitive about yourself for three days, for forty-five days, for three months. See what happens to your life.” (“Tente não dizer nada negativo sobre você por 3 dias, por 45 dias, por 3 meses. Veja o que acontece na sua vida”). Falei isso pras atrizes e proibi que elas xingassem a si próprias ou dissessem que não iam conseguir ou que não eram boas o suficiente e etc e elas levaram a sério. Uma chama atenção da outra, e até de mim mesma, quando isso acontece, e tem sido incrível. É um belo exercício. Chamar atenção uma da outra faz com que elas vejam o melhor que existe em si mesmas e nas outras. Volta e meia alguém fala no ensaio “nossa, mas só tem mulher bonita aqui”. Eu não sei se antes de se começar a quebrar o olhar pros padrões enfiados goelas abaixo ouviríamos essa frase, com certeza antes viríamos os defeitos. Agora primeiro olhamos as qualidades.

LF- Como, hoje, ao longo desse processo, tu sentes que encabeçar esse processo te modificou enquanto mulher?

BN- Uma das primeiras frases que escrevi para o meu mestrado que tem o tema bem próximo dessa peça foi: “É possível falar sobre arte quando uma mulher sofre violência? Como a violência silenciada insere em nossos corpos e culturas?” Diariamente respondo essas perguntas pra mim através das atrizes. Naqueles corpos jogados no espaço, com tanta intensidade, tanto trabalho, tantas histórias deixadas ali que ninguém mais sabe. Eu achava que ser feminista era algo inerente a ser mulher, logo não precisava me afirmar como tal, porque uma palavra já explicava a outra. Só quando essa retomada do Feminismo aconteceu é que descobri que não, não é inerente e nem óbvio e que sim, preciso me definir como feminista para que outras mulheres também façam isso e que os homens realmente conheçam e respeitem o feminismo. Meu maior aprendizado são todas as palavras que escrevi aqui, em cada uma das perguntas. Em cada uma delas agradeci muito por participar desse projeto, porque não só é possível falar sobre arte quando uma mulher sofre violência, como também é possível transformá-la. E de tudo o que aprendi, as principais frases foram: “Juntas somos mais fortes.” E “Nenhuma fica pra trás.” – Eu não sei se falaria tanto sobre – e quisesse tanto –  que tivesse sororidade no mundo, se não tivesse vindo parar nesse projeto.

A diretora de movimento das Minas, Isabel Chavarri – maravilhosa artista burlesca conhecida como Delirious Fênix – também topou nos contar um pouco sobre sua experiência no projeto:

Isabel Chavarri – Foto: Danillo Sabino

Lorena Freitas- Quais foram as suas motivações para desenvolver esse trabalho?

Isabel Chavarri – As minhas motivações para fazer este trabalho é poder, junto com outras mulheres, fazer com arte, um trabalho que possa estimular outras mulheres a se levantarem, a saírem de um lugar submisso, a saírem de um lugar de abuso e que elas consigam através do que a gente tá fazendo ter uma voz ou pelo menos  que se inspirem a caminhar com mais coragem. E eu só posso fazer isso através da minha arte. Fora que é um prazer trabalhar com todas essas mulheres, eu aprendo todos os dias com elas. Além disso, tem a parceria com a Brunna, que já é quase um casamento de 16 anos.

LF – Como se deu o processo de laboratório e desenvolvimento do trabalho? Como eram direcionadas as vivências de cada mulher envolvida em prol do resultado final do espetáculo?

IC – Lidar com o feminino no mundo de hoje não exige tato, eu acho, exige coragem. Geralmente eu trabalho compreendendo primeiro o universo de cada pessoa pra poder tocar na essência dela através dos movimentos e de um trabalho muitas vezes psicofísico. Um trabalho que parte de ações que inspiram ou que estabelecem estados no corpo de cada uma. Isso faz com que elas consigam expressar todo o material que elas levantaram tanto pessoal quanto de pesquisa teórica. Isso foi muito delicado, como tinham coisas muito pessoais a gente precisou num dado momento, ser muito mais rigorosa com elas porque a gente precisava virar a chave pra atriz. Então elas passaram por um grande desafio de sair desse lugar de doar a própria experiência de vida, de desabafo, para entrar neste lugar da atriz que se apropria daquele material e lida com ele de uma forma um pouco mais racional para poder expressar isso ao público. Então essas meninas estão trabalhando com o maior desafio do ator que é o desnudar-se, o que, por si só, já é muito mais forte do que tirar a roupa em cena, por exemplo.

LF- Na sua opinião,  qual o papel social do coletivo? E quais são as estratégias que você percebe como válidas para levar a mensagem para além dos ambientes (e pessoas) de Artes?

IC – Este trabalho social está sendo feito desde o primeiro dia, desde o momento em que a gente começou a compreender a idéia do feminismo nas nossas vidas, e “achávamos” que tínhamos entendido. Vimos que precisávamos compreender muito mais. Assumir que não sabíamos nada sobre as experiências de outras mulheres. Posso falar por mim, eu sei da experiência da mulher num mundo machista, como uma mulher cis e branca, mas eu não posso falar em nome de uma mulher negra, não posso falar em nome de uma mulher transsexual. Então, pra mim o maior exercício tem sido: nos entendermos enquanto ser coletivo. O que, por si só, já é um exercício feminista. O mundo hoje em dia está tão egoísta. Precisamos criar esses grupos. Esses que experimentam o coletivo ali, no seu ambiente seguro, pra poder depois passar pra frente essa forma mais ampla e menos auto-centrada de se pensar. Ainda estamos em processo, somos um embrião lindo. Acredito que se continuarmos nessa jornada, todas com os mesmos esforços, os mesmos desejos, todas querendo colocar a sua marca na sociedade vamos dar muito pano pra manga ainda. O Coletivo As Minas ainda tem muita história pra fazer.

LF -Qual a importância que você acredita que o feminismo teve na vida das meninas do coletivo? E qual a importância disso, na sua visão,  para as mulheres de forma geral?

IC- Eu observo que desde o início do processo até hoje todas de alguma forma agora procuram uma posição de compartilhar o conhecimento que foi adquirido dentro do Coletivo. Além disso, também procuram fazer um exercício de aplicar todo esse conhecimento na própria vida.

LF- Como, hoje, ao longo desse processo, tu sentes que participar desse processo te modificou enquanto mulher?

IC – O mergulho nesse espetáculo fez com que eu voltasse o meu olhar para muitas coisas minhas. Algumas que tinham ficado no passado. Também me fez esclarecer mais ainda a minha missão no  mundo como profissional, mulher e ser humano, eu tenho uma diferença a fazer no mundo para torna-lo mais igualitário e através da minha arte que vou agir.

Poolparty dAs Minas: Foto: Gabriela Isaías

O projeto das Minas vem sendo desenvolvido com um financiamento colaborativo do espetáculo  (INDEPENDENTE) . Vale dar uma conferida não só para ajudar, mas também pelas gratificações incríveis. Para saber mais, clique aqui.

E para saber as informações sobre as apresentações,  dar aquela conferida na nossa agenda. E vamos juntos prestigiar tanta história,  talento e causa.

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