É certo que futebol não é só um jogo em qualquer parte do mundo, mas na Colômbia o esporte fica ainda mais peculiar. Não, não falamos de James, Falcão ou Valderrama. Falamos de algo ainda mais inerente. Bem como grande parte dos países fanáticos por futebol, a Colômbia tem sua história nacional andando lado a lado com sua história esportiva.

O esporte colombiano teve seu melhor momento quando o país viveu uma época, digamos, delicada. Era o ano de 1989 e o mesmo “Atlético Nacional de Medellin” – que deu a Copa Sulamericana de 2017 para a Chapecoense depois do acidente aéreo – ganhou a sua primeira Libertadores. Contudo, diferente do time de 2016, o Atlético de 1989 passou bem longe do fair-play.

Dias depois da vitória, os jogadores e a comissão técnica foram comemorar o título na casa de um grande fã do clube. Só tinha um detalhe, esse fã era Pablo Escobar, o narcotraficante mais procurado do mundo naquela época. E o senhor do tráfico era não somente torcedor do Nacional como também um financiador da equipe.

A relação de Escobar com o futebol era tão íntima que na prisão-resort que ele havia construído, entre as muitas regalias que tinha, estava um campo de futebol muito bem equipado, onde aconteceram algumas partidas com o escrete colombiano completo. Com direito à comissão técnica em peso.

Um dos grandes nomes do futebol colombiano, o irreverente goleiro René Higuita era amigo pessoal de Pablo. Tão próximo do traficante que consumia frequentemente sua cocaína e foi preso em 1993 por ajudá-lo em um sequestro. Prisão que acabou por tirá-lo da Copa do mundo de 1994, na qual os “cafeteros” chegaram como favoritos.

Porém, os favoritos perderam de 3×1 para a Romênia no jogo de estreia. Derrotas são ruins, mas são catastroficamente piores quando um cartel de narcotraficantes manda um recado para equipe: perder não era uma opção. Mas diferente do mercado negro, o futebol não era uma coisa que aqueles senhores podiam controlar.

A Colômbia foi eliminada precocemente. Alguns dias depois da seleção voltar ao país com a derrota nas costas, o capitão Andrés Escobar escreveu uma coluna em um jornal de Bogotá dizendo que apesar da derrota “a vida não termina aqui”. Infelizmente, ele estava errado. Foi assassinado pelos chefes do tráfico dias depois.

Hoje, a história colombiana ainda encontra ecos no futebol, mas felizmente agora não é mais causa de morte. Há mais de quatro anos o governo colombiano tenta um acordo de paz com as FARC. Hoje, essa paz parece mais próxima. Um dos representantes da polêmica guerrilha anunciou no início do mês que para promover a reincorporação de seus membros na vida legal e para de certa forma efetivar o acordo de paz, as FARC querem montar um clube de futebol para disputar a segunda divisão do campeonato colombiano. O time se chamará justamente “La Paz FC”.

A criação do La Paz FC faz parte das metas de educação, formação de cultura para o pós-conflito da fundação “Futbol Y Paz Construyendo un Pais”, que viabilizou o projeto de criação da equipe.

O futebol já foi usado para promover a paz no país de Shakira. Em 2015, Maradona, Rincón e Aspirilla participaram do “Jogo da Paz”, usado para apoiar as negociações do acordo.

Que seja sempre assim, que o futebol continue a fazer história, mas sempre do lado dos que querem a vida, dos que querem a paz.