Talvez você já tenha ouvido falar nesse artista que vem fazendo um furdunço bom pelas bandas do Rio de Janeiro e pelo Brasil afora, ou já tenha passado por ele e dado boas gargalhadas com seu espetáculo “Kê Gracinha” que acaba de completar 5 anos de estrada, ou ainda não tenha tido a oportunidade, mas deveria, conhecer esse ator que já tem quase 10 anos de carreira e há 7 anos se debruçou sobre a pesquisa da palhaçaria.

Renato Garcia começou como ator de teatro, mas ao se encontrar com a palhaçaria e descobrir seu palhaço “Gracinha” é que seu trabalho começou a ganhar destaque recebendo várias premiações como melhor ator, melhor trilha sonora, melhor espetáculo e melhor figurino em diversos festivais no país. Iniciou seus estudos na área em um curso da Lana Sultani em 2010 e finalizou parte de sua pesquisa no curso da ESLIPA – Escola Livre de Palhaços em 2015, e hoje segue com os estudos a partir de seus próprios trabalhos, pois considera que “a formação de um palhaço não existe de uma forma pragmática no molde tradicional de escola, porque um palhaço NUNCA está pronto, formado”. Além disso, passou a dar oficinas de palhaçaria em várias localidades, inclusive recentemente na ocupação que realizou junto ao seu Núcleo Artístico Gema no Teatro Gonzaguinha no início deste ano. Nesse processo, ele descobriu que aprende muito também enquanto ensina, que a troca com os parceiros que fazem as oficinas hoje é parte integrante de seu desenvolvimento.

“É tão bom ver na ingenuidade do erro, as nossas fragilidades e os nossos erros, que vamos assimilando tudo e aprendendo mais e mais juntos. Repito: Aprendo MUITO ensinando.”

Nós, da Woo! Magazine, tivemos a oportunidade de conhecer um pouquinho mais sobre o ator e registramos esse bate papo aqui:

Adriana Dehoul – Conte-nos um pouco sobre como começou sua carreira artística?

Renato Garcia: Como todo artista, você já ouviu a frase: “Você é ator? Ahh tá, eu fiz teatro na escola”? Então, eu comecei com esse terror que é o teatro na escola, ou, na verdade tive a sorte de ter essa oportunidade de ter aula de teatro na escola. Como um bom adolescente, vivi bem a época das descobertas e o famoso “Sexo, Drogas e Rock and roll”. Me descobri, me juntando aos grupos de violão da escola pra tocar Legião Urbana e Nirvana, e Jota Quest (porque era fácil, extremamente fácil tocar Jota Quest), então começamos a formar bandas cover daqui e de lá, quando vi estava cantando, tocando e indo fazer participação em novela. Um fato que marcou o final da minha adolescência foi ir gravar cenas no Projac com minha banda e ver o Antônio Fagundes jogar o texto todo pra cima depois de muitos erros e repetições e falar: “Vamos gravar agora que vai sair do jeito que tiver que sair”. A gravação aconteceu com muito êxito do ator e foi a melhor cena do dia. Ali, eu disse: “Quero fazer isso também (Teatro).

AD – Há diferenças entro o Renato Garcia de hoje e o de 6 anos atrás?

RG: MUITA. Em 2011, eu achava que sabia bem menos daquilo que eu acho que sei hoje. Na verdade mesmo, a mudança veio grande em 2012 quando eu chutei os baldes sociais pra viver “disso”.

AD – A música influencia a sua arte?

RG: Totalmente. Eu me formei em percussão com 15 anos, ouvir música e tocar instrumentos são a minha fonte de criação. Tenho um espetáculo todo baseado em trilhas sonoras de filmes. Sou apaixonado por trilhas.

Foto Divulgação

AD – Quando descobriu o seu palhaço Gracinha e como começou o Núcleo Artístico Gema e o Gema da Alegria?

RG: Em 2010, eu decidi mergulhar no mundo da comédia, já era ator cômico, mas era bem ruim (risos). Procurei cursos, livros, assisti muita coisa, li tcc’s, queria entender o que fazia a gente rir, e como eu poderia fazer aquilo, que eu já fazia intuitivamente, de forma técnica e precisa. Descobri então o mundo mágico dos palhaços. Fiz oficinas atrás de oficinas, assisti vídeo à beça, workshop’s, assisti vídeo à beça, fui a diversos circos, assisti vídeo à beça. Até que achei o “Mimo Tuga” e o “Mimo Karkocha” no YouTube, UAUUU!!! Dois BAITAS artistas de ruas, que interagem com o público, com veículos, caminhões, aviões, sério, assistam. Fiquei noites em claro assistindo vídeos desses caras, eu ria da barriga doer, de acordar minha mãe no quarto, foi então que resolvi “imitar” o Karkocha, pelo menos assim eu descobriria algo de mim, criaria uma gag na hora, colocaria em prática as aulas de improviso. Fui pra rua e: NASCEU! Claro, que como em todo parto, foi bem doloroso e sofrido, mas sob o sol de meio dia no Largo da Carioca (eu não tinha noção NENHUMA) eu tive o estado de presença mais pleno de toda a minha vida.

Em 2011, estudei muito, conheci palhaços maravilhosos no Ceará, aprendi muitas reprises, o que fez com que em 2012 eu estreasse o Núcleo Artístico Gema e começasse a ter coragem para as visitas hospitalares, que em 2013 tomaram corpo e se emanciparam, formando o projeto Gema da Alegria.

Foto: Guilherme Maia

AD – Fale-nos um pouco sobre o trabalho que desenvolve dentro de hospitais.

RG: Trabalhei em alguns grupos de palhaços hospitalares, como o Tiltak Rio, Uma Flor Um Sorriso, Palhamédicos da Saúde… Sempre achei fantástico esse trabalho e me senti muito agraciado de poder realizar intervenções dentro de um ambiente tão inóspito quanto um hospital, e por poder transformar encontros em bem-estar para crianças em tratamentos diversos.

Em 2012, conheci o Lar Maria de Lourdes e não quis mais saber de outra coisa. Passei a desenvolver com amigos palhaços o projeto Gema da Alegria naquele espaço. O Gema da Alegria é um projeto que nasceu dentro do Núcleo Artístico Gema como um viés mais social, sendo que esse viés social é tão forte que sentimos a necessidade de expandir as nossas visitas. Trabalhamos semanalmente no Lar Maria de Lourdes na Taquara, um abrigo para crianças e adolescentes com deficiências. Esse é o foco da nossa pesquisa, a funcionalidade da função social que é ser palhaço para a transformação do tratamento de crianças e adolescentes com deficiências físicas e psicológicas em regime de residência. É sempre uma emoção falar do quanto que o Gema da Alegria já transformou, e o tanto que ainda tem pra transformar na vida daquelas crianças.

Em 2015, ganhamos o prêmio de Ações Locais e um certificado da Prefeitura do Rio de Janeiro nos afirmando enquanto projeto social da cidade, e em 2016 ganhamos o Prêmio Nacional de Inovação Comunitária da BrazilFundation pela nossa atuação regular no Lar Maria de Lourdes.

Foto Divulgação

AD – Para você, há diferenças entre a construção de um personagem e a descoberta do palhaço?

RG: Total diferença. São “SÓ” coisas opostas (risos). Falando bem superficialmente da criação de personagem porque sei que vai muito além e tem diferentes técnicas, mas não é a minha pesquisa: A gênese de uma personagem é a única coisa que o público não vê, já os sentimentos que damos a esse personagem, o corpo, a voz, é tudo criação. Criação essa a partir de ensaios, estudos, observação, etc. Mas o foco é que é geralmente de fora pra dentro.

Já na descoberta do palhaço é o contrário, o público vê o que aquele ser humano está pensando, o público ri da forma que ele pensa, da lógica particular do palhaço (cada um tem a sua forma particular de pensar e reagir a estímulos). O corpo, a voz e os sentimentos são como se tivessem sido ampliados por uma lupa quando se está com o nariz vermelho. O Palhaço existe na relação. É de dentro pra fora.

AD – Quais são seus projetos para 2017?

RG: Em 2017, eu busco cada vez mais a autonomia do meu trabalho. Hoje eu posso trabalhar nos trens, ônibus, ou trabalhar em qualquer praça que tiro dali o meu sustento. Mas penso que ter um “sustento” é tão pouco se eu posso oferecer o saber. Para isso eu retornei a morar em Campo Grande, para pesquisar os locais potentes de apresentação, para identificar um local público que anseia por cultura e pessoas disponíveis a assistir e a aprender. Estou preparando elenco, estamos ocupando uma sala no Calouste Gulbenkian com cursos e oficinas do Núcleo Artístico Gema, estou trabalhando com outras duplas para aprender e ensinar no fazer.

Teremos ainda uma ocupação no Parque das Ruínas no segundo semestre. Eu quero trocar cada vez com mais pessoas de forma sustentável. Nossas oficinas estão sendo produzidas através do chapéu. As pessoas dizem quanto podem e querem pagar pelo curso, por esse saber empírico que é o do palhaço. Quero me livrar cada vez mais da necessidade dos editais, quero co-produzir, quero trabalhar todos os dias com pessoas que vivem o que fazem, e não com pessoas que escrevem para outros realizarem. Sou do fazer, e aí, bora fazer? Bora!


AD – Recentemente você sofreu um assalto onde foram levados os pertences do Kê Gracinha. Como podemos ajudar?

RG: Sim. Infelizmente temos muitos policiais e poucos palhaços nas ruas, o que faz com que a sociedade esteja tão mais vivenciando a cultura do medo do que vivenciando a cultura da felicidade. A nossa capital está um reduto de violência. Por outro lado eu consegui algo mágico, uma coisa que sempre tive vontade, que era promover um evento que misturasse linguagens. Consegui promover no Largo do Machado um evento gratuito que juntou diversos pernaltas, diversos palhaços, espetáculos, uma galera da poesia e músicos dos mais variados blocos de rua do carnaval carioca. Esse evento era para arrecadar fundos para um instrumento que tinha sido roubado pós-carnaval e para consertar outro que tinha sido amassado. E no evento para arrecadação, que foi fruto de um furto, roubaram a mala do nosso espetáculo “Kê Gracinha”, com lona, malabares, acordeon, microfones, raquetes, mágicas e diversos acessórios do espetáculo.

Tem sido difícil remontar, porque foi um prejuízo em torno de 6 mil reais. Mas fizemos uma vakinha e conseguimos arrecadar 2 mil, falta só 60%. E estamos indo pras ruas Adriana, porque é lá que começamos, é lá que fizemos a nossa estrada até aqui e é lá que eu acredito que o nosso espetáculo deve estar. Mas pra quem quiser colaborar basta clicar aqui.

AD – Existe algo que não perguntamos, mas que você gostaria de falar?

RG: Sempre. Palhaços não param de falar sobre o seu afazer nunca, se deixar vamos falar até amanhã.  Queria dizer que nossa estrada é curta, mas potente. Temos, no Núcleo Artístico Gema, 4 espetáculos no repertório, alguns prêmios, algumas esquetes, mas o mais importante é que temos uma centena de pessoas que passaram pela gente, que aprenderam e ensinaram alguma coisa. Isso é o que nos dá força pra brindar mais 7 anos, mais 17, 37, 57…..

Estamos produzindo um seminário “A Multiplicidade do Palhaço”, que acontecerá na sexta-feira, dia 09 de junho, no auditório do Calouste Gulbenkian. Será uma mesa com 5 convidados da cena da palhaçaria do Rio de Janeiro. A entrada é franca, mas precisa se inscrever na nossa página porque tem lotação, a saída é no chapéu.
Nosso próximo curso começa em junho e também já deve estar sendo divulgado também em nossa página do facebook.

AD – Qual a mensagem que você deixa para aqueles que estão em busca do seu palhaço?

RG: Venha, sem amarras. Se descobrir é muito mais potente quando você se permite. Eu costumo dizer e afirmar que depois da palhaçaria eu passei a ser um músico melhor, um ator melhor, um professor melhor, um produtor melhor, um limpador de casa melhor, um cozinheiro melhor, um ser humano melhor. É porque eu passei a levar menos a sério e consegui fazer tudo com mais prazer, quando se tem prazer, seu parceirx gosta, o público gosta, o juri gosta, e o mais importante, você gosta.

Não queira estar PRONTO amanhã, a palhaçaria é uma construção diária, você vai indo, quando menos esperar, você foi.

Palhaçaria é autoconhecimento. E aí, você está pronto pra se conhecer? É um caminho sem volta. Te espero. Beijo na testa.