É péssimo encontrar literatura que já chega pedindo licença. Literatura educada, que não ofende ninguém. Que agrada a mãe, dindo e avó. Literatura não é certificado de formatura para dar orgulho à família. Aprenda a escrever sem ser tão polido. A literatura contemporânea agradece. Escreva sem medo.

1. Se o assunto é desconfortável, é ele mesmo que você deve abordar

Escrever requer coragem. De visitar os lugares sociais e próprios que causam náusea e tremor. Escrever de luvas e meias não é para quem quer viver de literatura. Literatura é revirar. Vá em frente. Vá lá naquele cantinho que você menos quer olhar. Comece pela notícia ruim. Deixe a maciez vir depois. Adiar os pontos difíceis pode tornar a escrita explicitamente conveniente e chata.

2. Todos os heterônimos são yo

Escreva com heterônimos, pseudônimos, apelidos e nomes de guerra. Escrever como personas distintas pode ajudar o escritor a se dissociar das ideias que tem de si mesmo. Ser vários e várias em um contribui para a fluidez da criatividade. Ser outro temporariamente não significa se abandonar.

3. Já fui lá, não vou mais

Já escreveu sobre algo? Siga em frente. Se desafie. Ninguém vai fazer isso por você. Não seja preguiçoso. Lembre do negocinho que escrever é transpiração. Não se acomode em um universo literário e em apenas um gênero. Brinque de fazer literatura.

4. A página é minha, o texto é meu

Tem medo de se expor nas redes sociais? Supere agora, poste algo seu. Poste um texto que você acha ruinzinho, mais ou menos, vergonhoso. Aprenda a lidar com a mediocridade. Brilhantismo planejado chega atrasado. Primeiro, escreva. Depois, deixe a sua obra chegar a outras pessoas.

Falando nisso…

5. Perdeu, playboy

O texto não é mais seu. Não chore, flua. O texto saiu do seu corpo, ele é literatura para a humanidade. Isso não quer dizer que o seu texto seja bom, apenas lembre-se de que o controle na arte é o descontrole. Crie e deixe criar. Deixe o seu texto viver em outras pessoas e fazer morada. Deixe ele se demorar na bochecha de alguém. O deixe ser mastigado, deglutido, reinventado. Palavras não têm dono. Seja mensageiro, não latifundiário. 

6. Você não é genial

Esqueça o que a sua mãe falou. Você não é melhor que Tolstói. Você é… Você. Não tente se comparar com os autores clássicos da literatura, porque esse é o caminho certo da desistência. Se conforme que se o que você escrever algum dia virar clássico, você terá morrido faz tempo.

7. Escrever nem sempre é dor

Esqueça a ideia do artista torturado, incompreendido, que morreu sem ser lido. Na contemporaneidade encontramos muitas ferramentas para ajudar quem produz a encontrar o seu público. Isso não quer dizer que é fácil. Mas é bem melhor do que já foi. Você não precisa da aprovação de uma grande editora para ser lido, mas você precisa ainda de determinação e foco. Não se esqueça, é trabalho.

8. Não subestime o leitor

Não venha já com as cadeirinhas dizendo quem pode te assistir. Não produza conteúdo criativo já dizendo que o que você faz é de nicho. Se é só para os seus amigos, não é para ninguém. Seus amigos não vão te magoar e vão no seu coquetel de lançamento mesmo que o livro seja horrível. Escreva para chegar, não para se distanciar. Essa ideia de que os artistas mais geniais são incompreendidos faz parte de um imaginário social não muito verdadeiro. Muita gente pode gostar do que você escreve. Muita gente também pode não gostar. Mas se antes de produzir você já se limita, significa que no fundo você subestima as pessoas que estão no mundo. E subestimar outros seres humanos é uma ótima maneira de ser um escritor arrogante e amargo. Escreva com generosidade.

9. Encontre a sua voz

Todo mundo tem uma. Alguns uma voz rouca, outros uma estridente. A voz literária é a sua assinatura que te acompanhará pela vida. Ela não é um cercado, é um universo. O seu universo. E quem entrar vai saber de cara se você deixar os elementos lá. Não dá para ser forjada. A tal voz, que quem ama literatura conhece bem, precisa ser genuína. Treine bastante até encontrar a sua.

Bom suor e boa escrita. Dizem que escrever queima mais calorias que uma hora e meia de academia.


Por Érika Nunes