Com quase 20 anos de estrada trabalhando com audiovisual, o roteirista e diretor Marcelo Muller acaba de estrear nas telonas o seu primeiro longa metragem Eu Te Levo. Ele foi o único roteirista brasileiro a receber o Prêmio Coral de Roteiro Inédito de Havana, que é um dos reconhecimentos mais importantes para a categoria na América Latina. Apesar disso, mantém a humildade e o desejo de que outros colegas de trabalho tenham as mesmas oportunidades de reconhecimento no futuro.

Formado pela Escuela Internacional de Cine y TV e também pela Escola de Comunicações e Artes da USP, o diretor se denomina um contador de histórias e trilha sua jornada nesse sentido levando essas aventuras às pessoas através de seus roteiros, suas aulas e também em seu trabalho de direção.

Assim nasce o desejo de transportar para o cinema o filme “Eu Te Levo”, que retrata as questões de Rogério, interpretado pelo ator Anderson Di Rizzi, sua mãe (Rosi Campos), e os desdobramentos de suas vidas após o falecimento do chefe da família. Um drama existencial que debate sobre a chamada “Geração Canguru” – jovens de 25 a 34 anos que permanecem vivendo com os pais ou voltam a morar com eles por opção.

Eu te levo

Da vida real para a telona, o personagem central precisa declarar uma independência tardia, mas teme contrariar os planos da mãe. “Ele tem medo de decepcioná-la, ao mesmo tempo que é uma pessoa muito complexada –  fala pouco, padece quando cala essa vontade de mudança. É difícil. A casa da mãe acaba sendo um casulo, uma proteção pra ele. E o estilo de narrativa coloca o espectador dentro desse conflito, conduz a uma identificação”, diz Anderson Di Rizzi.

“Não há nada mais especial que o compromisso entre a tela e o público, entre a emoção da narrativa e a de quem está sentado na plateia. Sempre que digo ‘Eu te Levo’, também estou dizendo ‘vamos juntos’”, completa o diretor.

Batemos um papo super interessante com o diretor, no qual falamos sobre o filme e sua carreira. Confira abaixo a entrevista

Adriana Dehoul – Como foi a experiência de estrear seu primeiro longa-metragem como diretor? Quais foram os principais desafios que encontrou?

Marcelo Muller – Fazer um longa-metragem é um processo muito longo. A primeira reunião que fiz com a Iana (Cossoy Paro, co-roteirista do filme) foi em 2010, para falar da vontade de escrever mais uma história junto com ela. A partir daquele momento, começamos este longo processo de criação que terminou agora, com a entrega do filme ao público. Como toda experiência longa, ela tem altos e baixos, momentos de trabalho de muita intensidade e outros em que a expectativa de que alguma coisa aconteça é muito grande, mas só podemos ficar esperando. Eu já tinha vivido experiências parecidas como roteirista, em projetos em que participei desde o início, como o “Infância Clandestina”, com o Benjamin Ávila. Mas como diretor é bem diferente. O trabalho é ainda mais coletivo, pois a construção do filme passa também pela criação de uma rede de pessoas, profissionais, artistas, amigos e até mesmo os colegas que acompanham o processo de longe, dando alertas e indicando caminhos. Nesse sentido, foi maravilhoso descobrir como o diretor une toda esta gente com um objetivo estético, contar uma história que vai fazer parte da vida de outras pessoas, daquelas que fazem o filme e também daquelas que o assistem.

Neste sentido, o maior desafio é construir o filme com coerência estilística, focado no seu universo, tomando não só decisões sobre o que vai ser visto na tela, mas também sobre a construção deste universo de pessoas que fazem isso em conjunto.

AD – E a recepção do público foi como você esperava?

MM – Qualitativamente, eu estou muito feliz com a reação das pessoas que viram o filme, tanto agora, na estreia no circuito, como antes, em exibições especiais e festivais. O filme mexe em algum lugar do emocional do público. Reflete-se em emoções e sentimentos que fazem parte da história de todo mundo. É claro que o público é muito diverso, há quem fique entediado ou quem não encontre uma conexão com o universo ou com o personagem. O filme está para todos, para quem gosta do Rogério ou para quem o detesta.

Em termos quantitativos, é uma pena que o filme tenha atingido um público tão pequeno. É claro que “Eu te Levo” teria um espaço pequeno de distribuição, mas eu gostaria de ter tido um pouco mais de chance de chegar ao público. Mas não acho que a culpa pelos números ruins seja do filme em si, mas de um mercado que não permite que um filme fora de determinados padrões mantenha-se à disposição do público em salas e horários razoáveis por mais de duas semanas.

Mas espero que existam espaços para o filme ao longo do tempo. Ainda não chegamos a Jundiaí, que tem poucas salas e muito público. Não passamos no interior de São Paulo, nem nas periferias, onde tanta gente pode sentir algo em comum com Rogério. O “Eu te Levo” pode proporcionar uma conexão muito forte com a vida de mais pessoas.

AD – Os personagens na trama, além da estética preta e branca, nos trazem certa angústia e identificação ao mesmo tempo. Isso, provavelmente, se dá pelo trabalho dos atores, então você poderia nos contar um pouco sobre como aconteceu a escolha do elenco e a preparação deles para este filme?

MM – Esse sentimento é um conjunto de fatores, como você mencionou, que vão da fotografia ao ambiente sonoro, da música ao figurino, mas os atores são o elemento principal, sem dúvida. No filme, estamos vendo os personagens e não os atores. Por isso, teve um longo processo que foi da escolha ao trabalho de preparação com cada um deles.

O Anderson di Rizzi é um ator incrível, que tem uma capacidade de transformação muito grande. Ele está sempre diferente em cada personagem que faz. Eu queria um ator que pudesse acrescentar certa leveza a Rogério, por isso procurei alguém que tivesse experiência com comédias e que trouxesse um toque de carinho do público a ele. Quando nos encontramos pela primeira vez, descobrimos vários pontos em comum com a história que queríamos contar. Ele é de Campinas, vivia na estrada para São Paulo. Entendia este dilema de quem mora no interior, mas tem uma capital enorme por perto. Sabia o que era ter lutado por um sonho e muitas vezes não ter conseguido. Além do mais, dava pra ver que ele tinha a energia necessária para construir um personagem complexo, que não tem como expressar claramente suas angústias. Ele estava disposto a trabalhar muito para fazer o personagem, fazer um grande filme, criar uma parceria de criação e levar o processo adiante, como mais um dos que estávamos naquela rede. Do primeiro encontro até a filmagem passou mais de um ano, que aproveitamos para aproximar tanto o ator do personagem quanto o personagem ao ator. Ele escutou todo o punk rock que conseguiu e eu mexi no roteiro o tanto quanto pude. Ensaiamos, fomos às locações, discutimos cada pequena ação e cada diálogo. Foi um lindo trabalho de parceria, tanto com ele quanto com os demais atores.

AD – O que significa para você ser o único roteirista brasileiro a receber o Prêmio Coral de roteiro inédito de Havana?

MM – Os prêmios de roteiro inédito são bons para a gente entender que está no caminho certo, que o trabalho faz sentido e que aquelas palavras podem se transformar em um bom filme no futuro. Ganhar o prêmio de Havana foi importante para o “Infância Clandestina” ser realizado. Ter sido o primeiro roteirista brasileiro a ganhar este prêmio é quase uma casualidade, já que a questão do idioma dificulta muito a participação de projetos brasileiros no concurso de roteiros deste festival. Mas também aponta para uma questão do nosso cinema em relação ao isolamento do Brasil dos países vizinhos. Como eu estudei na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba, para mim é natural escrever com pessoas de outros países do continente, em espanhol. Gostaria muito de ver outros roteiristas brasileiros fazendo este caminho, seria muito bom para toda a indústria do continente. A gente tem muito a aprender com os vizinhos, da mesma maneira que eles também tem muito a aprender com a gente. E as histórias escritas assim, à quatro mãos e dois países, podem ser surpreendentes pois unem o olhar local com uma perspectiva universal que pode ter ótimos resultados. Acho que o “Infância Clandestina“, com sua ampla divulgação e exibição em mercados internacionais, é um exemplo de que as coproduções criativas são muito positivas para o cinema brasileiro.

AD – O que te levou a entrar nessa área e o que o motiva a seguir em frente, pesquisando e se reinventando, mesmo diante das dificuldades brasileiras de incentivo na área cultural?

MM – Acho que a única coisa que eu sei fazer é contar histórias. Mesmo como professor universitário, sinto-me como um cara que está lá para contar histórias que vão, de uma maneira ou de outra, afetar a vida das pessoas. Antes de escolher o cinema como o meu caminho de expressão, eu já me sentia assim. Fazia teatro amador em Jundiaí, até que escolhi fazer o vestibular para Cinema na USP. Não há outra saída, seja na crise ou seja nos tempos bons, nós, cineastas, estamos aqui para contar histórias e com isso tentar entender a nossa realidade.

AD – Quais os seus próximos passos? Já tem novos projetos em vista?

MM – Nesse momento me divido em quatro universos: Uma disputa eleitoral complexa numa pequena cidade de Pernambuco, para o diretor Marcelo Brennand; a biografia de Robi Santucho, o guerrilheiro mais importante dos anos 60 e 70 na Argentina, para os produtores Julio Santucho e Daniel Burak; um drama familiar que ocorre na guerra da Síria, com o diretor sueco/curdo Zanyar Adamy e uma violenta história de superação de um jogador de rúgbi em cadeira de rodas, ainda bastante embrionária, que pretendo explorar para, quem sabe, dirigir.

Gosto muito desta mistura de escrever para outros diretores alternando com o trabalho com parceiros que escrevem comigo o que eu quero dirigir. Como eu tenho insistido, contar histórias é o mais importante, principalmente quando eu acredito que são boas histórias, que podem ter interesse. Então não faço muita distinção se é para mim ou para outro diretor. Eu as trato da mesma maneira, com a mesma paixão.

AD – Existe algo que não perguntamos, mas que você gostaria de falar para as pessoas que acompanham o seu trabalho?

MM – Por uma coincidência, o “Eu te Levo” foi realizado no mesmo período do meu doutorado e por isso é o objeto que conduz a tese, que foi entregue alguns meses depois do final da mixagem. Lá está a descrição de todo o processo de criação da mise en scène do filme. É um estudo acadêmico, que aborda uma série de questões fundamentais não só para quem está estudando direção e processos criativos em audiovisual, mas também tem links para muito material inédito do filme, inclusive as cenas cortadas e toda uma outra sequência final que testamos durante a montagem.

A tese está disponível na biblioteca digital da USP: Clique aqui para ter acesso.