De quantos sonhos é feito o ser humano? Em meio ao caos que estamos vivendo, será que ainda sonhamos? E até que ponto estamos dispostos a ir para alcançar aquilo que almejamos. Natural de Rezende, Pablo Pegas deixou a casa dos pais para ir em busca de seus sonhos.

Ator, poeta e mais recentemente vem se descobrindo dramaturgo. O caminho é longo e árduo, mas ele segue incansável, buscando o seu lugar ao sol e se destacando pelos múltiplos talentos. Além de se destacar pela generosidade com que age no seu dia a dia, seja no palco, com o espectador, seja com seus colegas de profissão ou mesmo com amigos e familiares.

Esse jovem estudante de Atuação Cênica da Unirio veio para ficar e certamente você vai querer conhecer um pouco mais desse ser humano iluminado que tivemos a oportunidade de entrevistar.

Adriana Dehoul: Como surgiu o desejo de entrar no teatro?

Pablo Pegas: Quando criança, eu tinha o costume de ir muito em locadoras para pegar filmes. Era a coisa que eu mais amava fazer. Eu acho que essa vontade de ser ator veio de todos os filmes que eu assistia quando criança e de todos esses universos que me eram apresentados. Eu lembro que eu amava brincar com miniaturas e brinquedos de bonecos e animais, e eles sempre tinham falas e interagiam, tinha uma história na minha cabeça que eles todos viveriam, como se eles estivessem num outro universo, num próprio filme. Eu fui crescendo e fui vendo que era possível canalizar toda essa imaginação em uma profissão, e aí, cá estamos.

AD: Como foi para você vir para o Rio de Janeiro e deixar em Resende a família e uma situação estável em busca de seus sonhos?

PP: Foi bem fácil! (haha) Era o que eu mais queria. Tipo, foi fácil partindo de mim, pensando sobre a vontade de vir, mas tive que dar uma trabalhada boa para juntar uma quantia e vir. Meu pai sempre se mostrou tranquilo com a escolha da minha profissão, mas minha mãe era mais receosa. Aos 17, eu saí da escola fazendo concurso público para a prefeitura da cidade antes mesmo de fazer o vestibular para faculdade.

Aos 19, eu me vi concursado trabalhando com saúde mental em um Centro de Atenção Psicossocial, já tinha trancado uma faculdade de Comunicação Social, estava cursando Psicologia numa faculdade perto de casa e dando aula de inglês. Aos finais de semana, eu escapava e ia fazer um curso de teatro numa cidade vizinha.

Eu larguei tudo em 2013, pedi demissão dos trabalhos, tranquei a faculdade, peguei minhas coisas e sem nem saber se tinha passado para faculdade aqui no Rio, eu já estava disposto a explorar novos lugares. Meus pais não podiam me auxiliar financeiramente naquela época (parece que faz 40 anos falando assim), eu entendia a preocupação deles, mas eles sempre me apoiaram. Eles e toda a minha família, tenho uma madrinha que me apoia muito também, ela é quase que minha empresária. Eles são mara! São incríveis!

AD: Quais os desafios que você tem encontrado na carreira?

PP: Eu acho que conseguir encontrar uma identidade como artista, conseguir explorar minha essência como ser humano em tudo que eu faço, como deixar isso visível, sabe? Como transformar aquilo que eu sou em uma marca que seja reconhecida em tudo que eu me propor a fazer. Acho que também, como conseguir trabalhar as técnicas em você, que você vai descobrindo e lendo sobre, para aperfeiçoar seu trabalho como artista. Eu não quero ficar falando das dificuldades em se fazer arte no Brasil, acho que já estamos todos bem apresentados a esse problema. Como a gente resiste e modifica esse cenário que é o importante.

Eu vejo o espaço universitário como um lugar capaz de fazer a arte acontecer, em meio a todas as novas dificuldades impostas aqueles (todos, né?) que precisam de investimentos para fazer seu trabalho acontecer, alguns estudantes de arte tem o espaço e ainda com sorte um “simbólico” investimento da própria universidade para realizar suas montagens e pesquisas. Eu acho que precisamos explorar mais esses espaços, digo nós, que ainda somos universitários, colocar-se no jogo enquanto ainda temos essa segurança. Chamar pessoas de fora para assistir projetos dentro da faculdade, integrar mais esse “de fora” com quem tá dentro da faculdade. Ir se juntando com quem também quer fazer arte, pesquisar, etc. Vamos nos juntando e caminhando e ampliando nosso espaço e reconhecimento como artistas.

AD: Ator, dramaturgo, poeta e professor de inglês nas horas vagas. Como você dá conta de tudo isso no dia a dia?

PP: Eu não dou. Eu tenho um vira-tempo. Mentira! Às vezes, eu nem sei porque estou cansado, mas fico exausto no final do dia geralmente. E odeio acordar cedo, mas tenho que acordar na maioria dos dias. Eu faço muita coisa, eu reconheço, mas eu não me permito sentir muito isso como um peso. Gosto de encarar como uma fase. Esses dias, eu passei o dia dando aula de inglês, quando peguei o ônibus de volta para casa, estava depressivo e não sabia porque. Cheguei em casa irritado, meio que a flor da pele.

Em alguns momentos, eu tenho raiva de fazer outra coisa que não seja só criar para o teatro, mas eu sei que ainda é uma necessidade. E eu abraço essa necessidade e a faço da melhor forma que eu posso, com todo o carinho que posso pelo tempo que for necessário. Mas não vou negar que me desgasta e que de vez em quando, eu tenho vontade de não sair de casa, só ficar escrevendo e lendo coisas que me interessam e criando.

AD: Quais os personagens mais desafiadores que já pegou?

PP: Todos! Eu nunca sei se o que eu estou fazendo está de acordo com aquilo que o diretor quer. Isso me dificulta até na hora da criação. Me deixa inseguro. Agora, que eu estou me dirigindo, encontrei outras dificuldades, que não essa insegurança em chegar em lugar comum com o diretor. Me dirigindo, eu sei bem onde eu quero ir. Eu amadureci muito nos últimos tempos nessa questão de insegurança com o meu trabalho de ator. Eu acho que eu ainda tenho questões (to fazendo análise) com o despontar a figura do diretor, sabe? Ele me escolheu, quero fazer o melhor que posso e acabo esquecendo de só fazer.

AD: Soubemos que você esta desenvolvendo seu primeiro projeto solo. Conte-nos um pouco sobre isso.

PP: Eu sempre quis falar sobre aquilo que me falta, e ao mesmo tempo, se faz presente em mim com muita força. Tem uma frase do Manoel de Barros que eu amo que é: “Há mais presença em mim aquilo que me falta”. É bem isso! O que me falta me move. Desenvolvi o texto desse projeto solo a partir de histórias que eu vivi e que amigos também viveram e cheguei ao que chamo carinhosamente de “Anamnese”. É sobre como nossa geração vem se relacionando afetivamente desde o boom dos aplicativos de relacionamento. É sobre um breve encontro entre dois apaixonados e todas as questões que ficam sem respostas após a despedida, sem o “vamos nos ver novamente…”. É sobre essa espera, sobre a relação com tempo, com um outro ser, com o amor, como o estar apaixonado, sobre ser ridículo. Eu sempre quis falar sobre o ser apaixonado.

“Anamnese” vem da noção de rememoração, seria um processo de diálogo com suas memórias. Eu foco na cena, em fazer retornar as memórias de um breve encontro na esperança de saber o quanto de amor existiu ali e se existiu amor ali e se ainda existe e reverbera. Por enquanto, tenho só 20 minutos e ainda é uma cena curta.

AD: Quem são suas inspirações no meio artístico e de que forma o trabalho deles lhe influencia?

PP: Eu gosto de tanta gente. Pego todo mundo e jogo num liquidificador imaginário e misturo geral. Eu tenho meus heróis, alguns já se foram e outros ainda me salvam dia a dia. Acho também que todo mundo que passou e passa na minha vida, me constrói. Tenho muita admiração pelos meus amigos artistas e não artistas, todos eles. Eles sempre me ensinam coisas que eu levo para o trabalho e para o pessoal. Citando alguém, não poderia deixar de citar Ana Kfouri – atriz, diretora e professora da PUC – com quem passei os últimos dois semestres absorvendo tudo que ela dizia e fazia. Tenho gratidão do tamanho do sol por ela e pela turma dela que me acolheu.

AD: Teatro ou TV? Quais são suas aspirações nessas áreas?

PP: Os dois, pode? Pode tudo? (haha) Então, é assim, eu estou na faculdade lendo uns moços da filosofia, uns moços do teatro e estou ali fazendo umas fotos, mandando um material para um produtor de elenco, fazendo uns cursos ali, indo de ouvinte em umas aulas lá, fazendo uns testes e enfim. Eu tô construindo o futuro que eu quero, mas não fico focado em uma coisa só. Tenho vontade e curiosidade de fazer várias coisas como artista.

AD: Quais são os projetos para 2017?

PP: Casamento e a aquisição da casa própria! Mentira. Eu quero apresentar “Anamnese” em muitos lugares e quero ter a experiência de fazer essa cena com as pessoas, quero essa aproximação com o público. Eu acho que para esse segundo semestre é isso. Tudo com muita calma, sem pressa. E o resto que virá, tudo será sempre bem vindo!

AD: Que mensagem você gostaria de deixar para aqueles que também almejam entrar nessa área?

PP: Acredite no que você quer pra você e se movimente para transformar isso em realidade. Manda mensagem pra quem você admira e pede para assistir ensaios, ser ouvinte em aulas, servir cafezinho, ajudar em montagem e desmontagem de peças. Faça as coisas sem pressa. Não alimente preconceitos com as outras áreas. Relaxa, acho que muita gente quer um dia fazer algo importante para avó que mora longe assistir, seja uma novela, um musical, uma grande peça, enfim. Não alimente desentendimentos, se aquela oportunidade não foi pra você, ela não era sua. Acredite no que você tem pra oferecer e não no que tem por aí para fazer. Crie espaços, junte-se com todo mundo, distribua amor, e não se esqueça do porque você ainda esta fazendo isso. A única pessoa que você não vai querer desapontar, é você mesmo. Tenha orgulho de tudo que você fizer, mesmo que você reconheça que não tenha sido o seu melhor, fique feliz que você conseguiu fazer. Não se ache pior que ninguém, há coisas que só você pode oferecer, busque sua identidade e faça disso sua maneira de formalizar arte. Sem pressa para o que vai acontecer, algo está sempre acontecendo.