Ser cria, de pai e mãe, de uma localidade; de criação artística; de ter uma cria, e de criar: filhos e arte. “Cria” é como se chama o novo trabalho da coreógrafa Alice Ripoll. O espetáculo do grupo Suave, que mescla passinho e dança contemporânea, traz para o palco uma verdadeira mistura de estilos, amarrados pelo olhar atual da coreógrafa. A curta temporada de “Cria” estreia dia 17 e fica até dia 20 de novembro no Espaço Cultural Municipal Sergio Porto, no Humaitá, e de 30 de novembro a 3 de dezembro no Teatro Angel Vianna do Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro.

Após o trabalho de estreia do grupo, o homônimo “Suave”, – apresentado em diversas cidades do Brasil e países na Europa –  Alice Ripoll desenvolveu junto ao grupo de 10 dançarinos uma pesquisa de um ano que culminou em uma linguagem de hibridismo inovador e construiu corpos  capazes de expressar a ginga da dança nascida nas favelas, o virtuosismo do passinho e o questionamento e a teatralidade da dança contemporânea. O trabalho passeia pela dança afro, o afrofunk, o passinho, a dancinha, o contato-improvisação e ainda por uma elaborada pesquisa sonora.

Ao transcorrer das cenas de “Cria”, o público pode sentir a busca pela força criadora que mantém o desejo de estar vivo, e se movimentando.

“Desde o início do grupo nossos processos falam de estar aberto a se modificar através do contato com os outros. Isso gerou uma força muito intensa que se manifesta nas cenas de conjunto, isso é maior do que qualquer coreografia ou técnica.” afirma Alice.

Com o ritmo eletrizante misturado ao gingado do funk, o espetáculo também traz a camada sonora de uma linguagem teatral desenvolvida a partir de falas, das conversas, discussões, do “tum ta ta tum”, beat box do funk cantado.

“Fiquei com vontade de explorar essa relação deles com a fala. Uma linguagem que não é bem valorizada, digamos assim, num mundo mais formal, mas que é muito potente e precisa ser escutada. Naturalmente a fala deles é teatral. Então desenvolvemos um gromelô que anula o sentido da palavra e foca nos sons, que também tem conteúdo.” explica a coreógrafa.

Foto: Pedro Farina

Os pais da “Cria”

Crias de diversas favelas do Rio de Janeiro, sendo metade cria da Penha, parte do grupo de dez dançarinos agora já começa a dar cria, por assim dizer, e a afetividade dessa paternidade também foi inserida no trabalho. Sanderson Rei da Quebradeira acaba de ser pai, GB Dancy tornou-se pai no início do processo. E no meio deles, Alan Ferreira, assistente de direção e marido da coreógrafa, também.

A delicadeza expressa pelos intérpretes em cena remete ao cuidado que se tem com uma cria recém nascida. No trabalho, homens podem cuidar de homens, numa exaltação à paternidade também como proposta de mundo onde os homens possam ter e ser pais. Que possam sobreviver e não ser a próxima vítima da violência.

Acompanho de perto essa relação profunda da convivência com a violência no dia-a-dia e ao mesmo tempo eles sendo envolvidos muito afetivamente com os filhos, uma relação com a paternidade e com a virilidade diferente do que a gente costuma escutar. Eu os vejo como homens muito sensíveis, muito afetivos, que podem se tocar, se dar beijo, abraço, podem aceitar homossexuais no grupo. Hoje eles são muitos mais sensíveis do que eram antes, eles têm uma relação diferente com as mulheres do que eles tinham antes, se perguntam coisas sobre o tratamento das mulheres no universo do funk que antes eles não se perguntavam. Não fui eu que trouxe, é algo do grupo, do nosso encontro, e que reflete no espetáculo.” conta Alice Ripoll.

A dancinha

Estilo de dança derivado do passinho, a “dancinha” se apresenta com força total. Segundo Alice, o estilo se aproxima da dança contemporânea pela liberdade com relação à técnica. Não há um jeito certo de se fazer determinada movimentação, tudo pode ser incorporado a uma pesquisa, gestos cotidianos, de outros estilos de dança, teatro, etc.

Se a dança contemporânea se pergunta o que faz um gesto virar dança, a “dancinha” responde – diferencia a coreógrafa Sanderson Reis da Quebradeira, 24 anos, do Complexo da Penha, que é referência no “passinho” e entusiasta do novo estilo, completa:

– O passinho tem regra, a dancinha é livre.

A dancinha se desenvolveu em um contexto onde o beat dos funks acelerou de 130 para 150 bpm, houve a chegada das drogas sintéticas nos bailes, que passaram a começar de madrugada e ir até o dia seguinte. Essa energia acelerada surgiu espontaneamente nos improvisos e pode ser vista em “Cria”.

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