A questão de ontem, de urgência e necessidade atual

Pode parecer até distante, afinal tem mais ou mesmos 40 anos que AIDS ganhou repercussão mundial. De lá para cá, inúmeros tratamentos foram criados, vistos e revistos. Contudo, a camisinha continua sendo o melhor mecanismo contraceptivo. Se o mundo dá voltas e vivemos em ciclos, numa visão negativa, apesar da evolução médica, nós não estamos evoluindo como pessoas conscientes. Nós estamos regredindo. Hoje os números de infectados, principalmente entre os jovens é demasiadamente crescente e por isso “120 Batimentos Por Minuto” (120 Battements par Minute) é uma necessidade urgente, usando o cinema e a ficção como arma de conscientização.

O filme se passa na França, no início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up, formado por portadores e não portadores do vírus, está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a Aids, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) é um dos não infectados que acredita no fortalecimento da comunicação e prevenção. Em pouco tempo ele fica impressionado com a dedicação do grupo e especialmente pelo esforço de Sean (Nahuel Pérez Biscayart) em defender as minorias, LGBTQ’s, garotas de programa, drogados e etc. Apesar de seu estado de saúde agravado, assim como de vários outros, Sean não mede esforços para estar a frente de vários protestos. Pacificamente, o pedido deles é a intensificação da pesquisa para combater a doença, a divulgação dos resultados reais, mas, principalmente, a conscientização governamental para com a ignorante e preconceituosa sociedade.

Numa desgostosa ironia, o roteiro de Robin Campillo e Philippe Mangeot é tão atual quando um numeroso grupo de jovens brasileiros perguntarem o porquê de uma Drag Queen usar camisinha se ela não engravida. Parece mentira, mas é uma verdade assustadora, principalmente a falta de conscientização para a prevenção entre o mesmo grupo no país, em pleno 2017.

Deixando de lado essa situação e focando na estrutura narrativa, o roteiro baseado em uma história real, consegue superar a questão de “filme de gênero” para nos agraciar com um drama de extrema potência e reconhecimento independente da sexualidade de seu público. Aqui não é o fato de ser ou não ser gay, é ver a necessidade de diálogo e principalmente pela luta diária de sobrevivência. Entre inúmeras cenas tocantes, uma das mais simples acaba se tornando uma das mais fortes. Então, aqui temos um leve alerta de spoiler! Em determinado momento, os membros da Act Up vão a uma escola distribuir panfletos e falar sobra a necessidade de se usar camisinha entre os adolescentes. Uma certa hora, Nathan vai entregar um panfleto com uma camisinha para uma menina e ela se recusa a receber dizendo que não precisava, pois ela não era gay. Embora tentemos entender a mente fechada da época, se pensarmos que hoje há quem faça o mesmo é, no mínimo, estarrecedor.

A direção de Campillo tem algo de muita valia à produção. Com um olhar humano e delicado ele nos dá mais do que um filme “institucional”, mas uma obra cheia de vida e com nuances particulares presentes em todos os personagens da narrativa. Com algumas imagens reais da época, a câmera na mão seguindo as ações dá ritmo e encontra uma linguagem mais urbana e jovial. Esbanjando esperança sem deixar de lado a dor da fatalidade presente, sua direção é um retrato de prazeres, riscos e preconceitos. Ao contrário do que poderia ser, em seu trabalho é dispensado os estereótipos e se resume a uma fala de um dos personagens “Somos todos vivos e mortos”. Junto com uma boa equipe de efeitos visuais, sob a supervisão de Guy Monbillard, ele ainda agrega algo magnífico ao visual. Nas cenas de balada/festa, vemos uma poeira, aquela que conseguimos ver contra a luz, ganhar o primeiro plano e se tornar uma célula infectada, em vários estágios. Essa armar visual também serve para contar a passagem de tempo.

Cada morte vira um símbolo de luta pela vida em que, embora abalados, suas dores se tornam um escudo para se fortalecerem como indivíduos e como grupo. É nesse jogo pessoal, construído aqui, que vemos o trabalho do elenco sendo uma expoente crescente. Não há sequer um ator que se destoe negativamente dos outros, mantendo uma igualdade interpretativa e pulsante entre os “coadjuvantes”. Arnaud Valois, como Nathan, transborda uma afetividade absurda em seu olhar e sua presença se torna cativante. Mas já que tocamos no quesito presença, Nahuel Pérez Biscayart tem uma surreal, não só pela força de seu personagem, mas por seu dedicado, verossímil e rico trabalho para construir seu Sean.

Se depois de assistir “120 Batimentos Por Minuto” você não repensar sobre sua vida sexual, sobre o tipo de relacionamento quer construir e o tipo de diálogo quer ter com seus filhos, se repense como ser humano. Assim como a obra e a própria Art Up Paris, o que nos queremos e/ou deveríamos querer é ter sempre educação de conscientização. Seja você HIV+ ou HIV- precisamos sim dialogar sem vergonha sobre o sexo, seus benefícios e suas contraindicações. Nessa tocante narrativa passam as tristezas, mas ficam a vontade decrescer em nosso interior. Entre os muitos aprendizados com o filme, deixamos esse: Seu silêncio é capaz de matar muitos, inclusive você. Vida longa aos que não se calam e lutam pra viver. Muitos estalos de dedos (quem assistir vai entender melhor) para essa produção magnífica e necessária!

*Filme visto no Festival do Rio 2017. Ele ainda não possui trailer com legendas em português, nem data de estreia no circuito nacional. 

Crítica: 120 Batimentos Por Minuto
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