Bons sustos e um início promissor. Mas, aos poucos, se torna óbvio.

Nós sabemos que um dos elementos mais importantes de um filme é o som. Quando se trata de um filme de terror, esse elemento se torna ainda mais relevante para o sucesso do mesmo. Tente assistir a uma cena de filme de terror ou suspense sem o som e você entenderá a importância dele. Porém, se assistirmos a um filme sem o som e legenda e, ainda assim, conseguirmos entender as nuances do roteiro, teremos certeza de que estamos diante de um grande filme, se levarmos em consideração que a primeira missão da obra é se comunicar com o público.

Nos filmes de terror o som é vital, porém, na maioria das produções contemporâneas, esse elemento é usado com descuido e abuso. Esse é o caso de “Annabelle 2 – A Criação do Mal”. Na maior parte do filme, pelo menos, com o objetivo de surpreender o espectador, o som é uma ferramenta usada de forma excessiva. Mas isso não chega a atrapalhar a experiencia de assistir a produção, pois o filme se baseia mais na atmosfera e no simbolismo, ao contrário da maioria dos filmes de terror contemporâneos, que tem apenas o objetivo de assustar a platéia.

Para começar, podemos dizer que essa produção não é tão tímida quanto seus outros “colegas” do gênero. Seu roteiro retrata um período entre as décadas de 40 e 50 e, de início, nos faz lembrar do incrível filme de terror de Guillermo del Toro, “A Espinha do Diabo”, de 2001.

O filme também tem um excelente começo, onde um grupo de órfãos é enviado para viver numa casa onde terríveis eventos acontecem. No segundo andar da sinistra residência, a boneca Annabelle está trancada num quarto. Após uma série de acontecimentos horripilantes, um demônio adormecido há muitos anos acorda com sede de vingança. Familiar, não? Pois é! “Annabelle 2 – A Criação do Mal” pega emprestado o enredo de filmes de terror espanhóis como “O Orfanato”, de J. A. Bayona, e “Os Olhos de Julia”, de Guillem Morales. E fica aqui uma reflexão: será que esses filmes de terror espanhóis foram usados como inspiração por que as últimas produções de terror americanas foram um desastre?

Um filme de terror só tem sucesso quando consegue manipular o espectador. E para isso acontecer, é necessário muito mais do que apenas um visual sombrio e gritos. Certo? Na verdade, não! Pelo menos não para a maioria. Ninguém gosta de admitir que é facilmente manipulado ao assistir esse tipo de cinema, mas, verdade seja dita, a maioria das pessoas é.

Qualquer filme de terror, mesmo as produções mais toscas (e existem muitas por aí), consegue criar situações de medo e suspense, manipulando o espectador desavisado. Mas um bom filme de terror vai além disso. E poderíamos delinear varias possibilidades que tornariam o gênero mais rico. Que tal, ao invés de utilizar as ferramentas mais óbvias para assustar a platéia, o filme projetasse imagens (ou sensaçoes) na mente do espectador sem nunca realmente mostrá-la? Os melhores filmes de terror e suspense, trabalham simplesmente com o poder da sugestão.

Talvez, se ao invés de nos mostrar a boneca horripilante, o roteiro de “Annabelle 2 – A Criação do Mal” nos desse detalhes mais ricos e significativos, o resultado seria mais eficaz. Nos causaria muito mais tensão o simples fato de avisar que, em nenhuma circunstância, alguém poderia se aproximar do quarto onde ela está. A boneca é um perigo e está escondida por uma razão. A história diz que um demônio fez da boneca o seu corpo físico e, por isso, ela deve continuar trancafiada a sete chaves.

Se relembramos os grandes filmes de terror do passado, veremos que todo o trabalho estava somente voltado em criar situações e sensações no espectador para deixá-lo num suspense constante. Dessa forma, ao invés de seguir num caminho mais fácil e óbvio, o roteiro construiria o medo na sua platéia. São diferenças como essas que definem os espectadores de terror. Como dito anteriormente, a maioria é facilmente manipulada por um roteiro fraco e por efeitos sonoros para o susto imediato. E talvez esse seja um dos motivos para o declínio do gênero, com tantas produções duvidosas.

Mas, de alguma forma, o diretor David F. Sandberg parece não pertencer a esta maioria. “Annabelle 2 – A Criação do Mal” não é um filme perfeito. E Sandberg está longe de ser o melhor diretor trabalhando no gênero atualmente. Mas ele fez um filme que traz grandes melhorias em relação ao seu antecessor, “Annabelle”. Apesar dessa obra ter certas semelhanças com o filme anterior, ele utiliza mais o suspense e os climas sombrios, deixando um pouco de lado aqueles sustos baratos do anterior. E essas escolhas, resultam num filme mais eficaz.

“Annabelle 2 – A Criação do Mal” tem um início promissor e nos oferece algumas palpitações de medo. Mas, conforme o roteiro segue, a falta de consistência do material aparece e, aos poucos, vai se tornando extremamente óbvio. Porém, é um filme bem feito e e deve funcionar como blockbuster para a maioria dos fãs do gênero.


Por Thiago Pach

Crítica (2): Annabelle 2 - A Criação do Mal
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