O prazo dos laços fraternais no frenesi da marginalidade

Em uma sociedade cada vez mais histriônica, amortecida por doses cavalares de adrenalina, o homem amontoa sobre si uma rotina degenerada de deveres e compromissos. É a metanfetamina socializada de nossos tempos, que espreme o indivíduo em uma jaula de abstrações efervescentes.

Esta é a tônica de Connie (Robert Patinsson) que se empenha para resgatar o irmão capturado pela polícia após ambos terem assaltado um banco.

Os jovens irmãos Safdie dirigem o trabalho salientando recuos e progressões de câmera em planos que perseguem a face das personagens ou específicos objetos cenográficos. Um fator que pode cansar os menos habituados a experimentalismos do tipo e fascinar os paladares mais incomuns.

Dados esses particulares enquadramentos, resta as margens da tela serem adornadas suavemente pelo contexto das comunidades que integram realidades suburbanas. Tíbias e indigentes. Cadeias, hospitais, casas compactas, urbanização modesta, cantos sujos mergulhados na penumbra, quando maquiadas pela sonoplastia em notas de longa duração (crescem conforme o clímax), que sugerem ao espectador que a missão de Connie é uma ação delirante, percebemos o funcionamento das cenas. As lentes miram os personagens em momentos em que esses dirigem a atenção e o olhar para fora do panorama da tela. Surge no público a sensação de curiosidade, que deseja participar do contexto de insegurança e suspeita que o gueto expira em todo lugar.

Foi primando pela apresentação de papeis que sugerem a todo momento que a história está imersa em uma realidade humana periférica, dados os problemáticos personagens que sempre estão fora do eixo comportamental (a menina drogada e irresponsável, o palerma traficante de ácido, a balzaquiana desvairada, vítima do oportunismo de Connie) que somos impelidos a nos aproximar de Connie e Nick. Essa ambientação torna possível e até muito provável que eles sejam observados como dois náufragos chapados em uma realidade dopada. Em busca das migalhas de abstemia.

O trabalho tem êxito em fixar na narrativa a agonia. Condição pela qual somos arrastados ao clima de urgência que nasce e ali se firma unicamente pelo sentimento de responsabilidade de Connie. Fora da paranoia com o irmão, não há urgência alguma exterior que clame uma necessidade de auxílio a Nick (Benny Safdie) nos moldes do imediatismo delinquente.

O foco deixa de pertencer a Connie como artífice de suas prioridades no tempo, e passa a ser ele a vítima de seus próprios encargos.

O psicólogo que acompanha Nick nas duas extremidades do longa, justamente delimita o intervalo confuso de seu paciente que anseia pela liberdade de escolher administrando os momentos de ensejo. Neste interlúdio, o ritmo é alucinante. Não nos moldes da resolução de conflitos em filmes de assalto. Mas na excelente cadência com que tempo e circunstâncias são distribuídos no impulsivo temperamento de Connie; lugar onde toda decisão parece não ser premeditada.

No desenrolar dos acontecimentos que se sobrepõem sem cortes drásticos, a montagem aproveita para privilegiar a dimensão de dependência afetiva entre os irmãos, ainda que distantes, em detrimento dos aspectos dissonantes entre os dois. A atuação de Patinsson e Safdie é concentrada no semblante dormente e letárgico de Nick contraposto ao vibrante e alvoroçado de Connie. Esse último mostra afeição aos cachorros como signo de fidelidade a seus companheiros. Enquanto Nick, admoestado pela sua visível limitação, busca autonomia. A viagem para Virgínia, a adoção de animais de estimação ou o desapego da experiência com a avó. O psiquiatra de Nick deixa entreaberto durante a consulta essa condição do personagem em sua própria fala sobre relevâncias e prioridades: O ovo ou a galinha? O ácido (droga) que Connie procura vender para pagar a liberdade do irmão é ainda mais barata e menos alucinógena que o próprio tempo e esforço investido no afeto familiar.

Somos fortemente levados a crer que a grande atmosfera febril quer permeia o longa é a exteriorização das consciências de Connie e Nick. Há curtos momentos em que assimilamos nossa observação do filme como Connie acompanhando o noticiário ou o reality show policial. É a conjunção reformada da pulsão vibrante de “Corra Lola! Corra!” (1998) com o zelo que Nicolas Cage tem pelo irmão em “A Outra Face” (1997).

“Bom Comportamento” é um gabarito de excelência para filmes que buscam a construção de cenas que conduzam, na marra, a audiência para um estado sensorial de euforia e pandemônio delineado na identidade de seus protagonistas. Não se faz necessário, neste caso, evocarmos como clássico, a obra que foge a curva do hodierno e marca determinado momento como o Festival de Cannes.

O trabalho dos jovens irmãos é mais um ingrediente na incubadora criativa do cinema, que pode nos revelar ainda mais como imagem e som abrem incontáveis possibilidades para que o público tenha a oportunidade de assimilar ficção e realidade. O tempo não suportaria mais o compasso psicodélico da diligência de Connie. A entrega devocional exige que um dos participantes lave o rosto na privada.

“Quem aqui já passou por isso cruze a sala.”


Por Bento Lessa

CRÍTICA (2): BOM COMPORTAMENTO
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