Crítica (2): The Cloverfield Paradox

“The Cloverfield Paradox” é o terceiro título na franquia Cloverfield e é um desses casos em que a produção problemática é um capítulo a parte e se faz necessária para a compreensão do resultado final da obra. Originalmente filmado sob o nome “The God Particle”, o longa foi produzido por J.J. Abrams, que decidiu, depois de pronto, de inclui-lo no seu “universo Cloverfield”. Refilmagens e muitas mudanças no roteiro depois, o filme teve seu lançamento nos cinemas abortado e foi lançado mundialmente, de surpresa, direto para streaming pela Netflix.

A história de “The Cloverfield Paradox” se passa em um futuro não muito distante no qual as fontes de energia da terra estão se esgotando. A protagonista desse cenário é Ava Hamilton (Gugu Mbatha-Raw), uma cientista britânica de luto pela perda de seus filhos, que é enviada com uma equipe multinacional para a Estação Cloverfield, em órbita na Terra para fazer testes com um acelerador de partículas, a fim de encontrar uma solução para a crise na qual o planeta se encontra. Os problemas começam quando, após anos tentando, um defeito no equipamento os prende em um universo paralelo.

Com o passar do filme a história se torna cada vez mais confusa e um pouco improvisada, mas com ideias boas por baixo. A direção de Julius Onah faz um bom trabalho em salientar, com o uso de planos holandeses, a sensação de estranheza e o sentimento de que os personagens não pertencem àquela realidade, mas ao mesmo tempo peca com a presença de sustos óbvios e de cenas exaustivas com diálogos expositivos em voice-over. Esta última que é parcialmente culpa de um roteiro problemático.

Sem muita continuidade com os outros longas da franquia, o script parece aquilo que é: uma história separada que foi encaixada à força no universo de Cloverfield. Isso é muito evidente nas partes do enredo que envolvem Michael (Roger Davies), marido de Hamilton que permanece na Terra, já que elas não tem relação nenhuma com o resto da trama, não possuem tensão e quebram o ritmo da história, existindo somente para referenciar o primeiro filme.

Além disso, a produção tem um tom bem conflitante, com diversos momentos de humor inapropriado, a maior parte vinda de Mundy (Chris O’Dowd), o engenheiro irlandês. Enquanto a maior parte do elenco não está ruim – são atores de nome, fazendo o melhor com aquilo que têm – a interpretação de O’Dowd parece deslocada e faz seu personagem soar apenas blasé, cuspindo piadas sobre a situação logo após um de seus amigos morrer de maneira surreal.

Outros personagens não passam de caricaturas, como o russo antagônico Volkov (Aksel Hennie), ou são apenas superficiais, como o comandante Kiel (David Oyelowo) e o médico brasileiro Monk (John Ortiz), que não possuem muita caracterização além de seu país de origem e seu cargo (e, no caso do segundo, sua religião).

O roteiro também tem uma mania de tentar se explicar demais sem realmente clarificar nada. Grande parte do longa é uma sucessão de eventos aleatórios que são explicados apenas como uma “ação da dimensão paralela”, que rapidamente vira uma desculpa para qualquer coisa que os roteiristas querem colocar no filme.

Porém, nem tudo é um desastre em “The Cloverfield Paradox”, que apresenta um design de produção notável na criação de apetrechos tecnológicos que são avançados, mas não o suficiente para parecer impossível de existirem em um futuro próximo. Os efeitos especiais, em sua maioria, também não deixam a desejar, com os planos que mostram o lado externo da estação espacial chamando mais atenção. Entretanto, algumas cenas com computação gráfica óbvia são mais desconcertantes, principalmente as que envolvem o incidente com o braço de um dos tripulantes.

Por fim, “The Cloverfield Paradox” não é um desastre completo, mas ele prova que a falta de fé da Paramount (sua distribuidora original) em lançá-lo nos cinemas não era sem fundamento. Um filme fraco quando considerado parte da franquia e um roteiro confuso se considerado separado, o longa chega para provar que o “direto para streaming” está se tornando o novo “diretamente em vídeo”, pelo menos no que diz quesito a continuações de terror meia boca.

Crítica (2): The Cloverfield Paradox
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