M. Night Shayamalan e o maior hype dos últimos tempos

O retorno ao suspense característico e próprio, obras que marcaram a carreira e fizeram de seu nome um dos mais promissores da indústria. Desta vez, Shayamalan atráves de sua própria produtora Blinding Edge, bancou o budget para a produção, cerca de 9 milhões de dólares. Em parceria com a produtora americana Blumhouse, reconhecida pela realização de filmes com temática de horror para baixo orçamento como Atividade Paranormal (2009)”.

Primeiramente somos apresentados à Casey (Anya Taylor-Joy), uma jovem nitidamente deslocada e contida em relação a sua personalidade. Logo, ela e mais duas amigas são sequestradas e se veem presas em alguma espécie de porão. O seu sequestrador é Kevin (James McAvoy), um homem que sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade (DTI), popularmente conhecido como dupla personalidade.

Kevin possui 23 personalidade identificadas que coexistem dentro de si, cada uma com um jeito único de se comunicar e agir. Durante os 117 minutos do longa somos apresentados apenas para algumas destas personas, pois elas podem aparecer a qualquer momento dependendo da situação. Cada uma possui suas próprias necessidades e anseios.

Inicialmente assistimos a tentativa de adaptação das meninas no cativeiro e o desespero pela situação em que se encontram. Mas ao se depararem com o transtorno de Kevin, apenas Casey parece saber manter um diálogo com estas personalidade distintas. Claire (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula) desejam sair dali da forma que for, sempre existindo uma certa discordâcia no método como isso deve ser feito quando as três tentam planejar a fuga. Desde o começo do filme essa relação entre elas é mostrada visualmente, na própria composição de cena, quando todas estão juntas, mas sempre separadas de alguma forma. Seja Casey sentada no banco da frente do carro, enquanto Claire e Marcia no traseiro conversando, como se ela não estivesse ali. Dentro do próprio porão, onde na maioria do tempo ficam juntas na mesma cama, e Casey solitária em outra.

A construção da personalidade de cada personagem é milimetricamente encaixada nos acontecimentos, é preciso ter uma atenção especial durante o primeiro ato do filme, quando os detalhes sobre cada um é deixado nas entrelinhas. A união de direção e roteiro, ambas funções de Shayamalan se interligam numa construção narrativa que durante os dois primeiros atos não demonstram transparecer o que virá pela frente. No caso de Casey, a escolha pelo uso de flashbacks para dar a importância necessária à sua parte na trama é muito bem conduzida. Assim como o restante dos acontecimentos, vamos descobrindo o que tornou-a diferente e única em relação às outras meninas, e ao próprio Kevin inevitavelmente.

Não obstante ao tensionamento apresentado desde o início do filme, a fotografia de Mike Gioulakis é o maior trunfo na hora de determinar quando o medo do desconhecido é confrontado. Junto ao correto conceito de edição, as cenas de maior tensão possuem pouquíssimos cortes. Nas cenas de maior tensão, o uso de panorâmicas para situar o espectador não foram poupadas, assim como os close ups em plongée ou contra plongée já característicos em suas obras.

É muito interessante o processo de acompanhamento do espectador em relação ao desenvolvimento das inúmeras personalidades de Kevin, na qual presenciamos muitas delas a partir da Doutora Fletcher (Betty Buckley). Ela possui um prévio tratamento para o transtorno das identidades conhecidas e principalmente pelas desconhecidas. Desconfiada, porém sem saber definitivamente o que se passa, Fletcher funciona como um auxílio para algumas das personalidades mais abusivas de Kevin. Com a iminente chegada de uma 24ª identidade, denominada “A Besta”, a relação entre os dois fica cada vez mais íntima e perigosa.

Sobre James McAvoy é necessário o enorme elogio para sua atuação em representar tantos personagens no mesmo filme. Todas as representações são carregadas de um suspense amedrontador, e uma carga dramática que até mesmo a da criança proporciona momentos de tensão. As mãos de Shayamalan tem papel fundamental nesta criação, a direção para um personagem deste tipo precisou ser certeira, e apenas alguém com um objetivo visível de construção e desenvolvimento de personagem para nos proporcionar isto. É verdade que o figurino ajuda bastante, inclusive em sua forma feminina, quando a partir do que ele absorve na sua visão do que é ser mulher.

Parte do teor dramático da história só é possível atráves da ótima ambientação e do clima claustrofóbico daquele espaço. O excesso de sombras e a pouco iluminação parecem adiantar o fim nada animador para a história. Um corredor que parece não ter fim, portas que não podem ser abertas e vozes que não podem ser ouvidas. A trilha sonora é estranhamente composta por um agregado de elementos sinfônicos, misturados a partir de um rock industrial distorcido, resultando em conjunto de sons com referências ao eletrônico. Pode parecer confuso, mas funciona.

A história não nos entrega atos estruturados a partir da narrativa normalmente conhecida. A sua ferramenta de construção para um desenvolvimento definitivo dos acontecimentos, fica nítida apenas quando não sabemos mais o que esperar. É neste momento que todos os elementos técnicos se juntam e formam uma atmosfera particular característica do diretor. Um universo onde nos surpreendemos e passamos a duvidar da sanidade de qualquer personagem, bom ou ruim.

Shayamalan abusa da ousadia em “Fragmentado”. Com um plot twist muito bem preparado, e tão surpreendente quanto, vale a pena assistir tudo novamente para percebermos novos elementos que compõem o conteúdo geral de sua obra.

Crítica (2): Fragmentado
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