Se “Gabriel e a Montanha” fosse uma história ficcional, não seria de se estranhar. Casos insólitos são transportados para obras do cinema o tempo todo e esse filme é mais um deles. Temos, dessa vez, a jornada de Gabriel Buchmann retratada em tela. Ele quer estudar a pobreza, é economista, mas parte de uma perspectiva humanitária. Para isso, no entanto, decide passar um ano se aventurando por lugares exóticos ao redor do mundo. Mesmo em seu fatal fim, o que nos é apresentado é o caminho até ele, esse é o foco do longa. A premissa e a ideia lembram bastante Na Natureza Selvagem

O que mais chama a atenção é o realismo com o qual tudo é feito. Existe um forte equilíbrio entre um estilo documental e a ficção que seria muito difícil de estabelecer, mas que funciona de forma brilhantemente eficiente. A qualidade é consequência das locações por onde a história real se passou que são usadas juntamente com a participação de pessoas que estiveram nelas, atuando como elas próprias. Embora soe um pouco confuso e bastante ousado, esses fatores são grande mérito, que também constroem um clima intimista para a narrativa, aproximando-a do espectador. Não apenas assim, mas a ausência de trilha sonora em quase toda a exibição e a direção contida, sóbria, são elementos que reforçam o caráter da obra como um todo. Vale mencionar que, esteticamente, tudo é bem bonito. Há presença de minimalismo, caráter humano.

Ademais, é necessário dizer que o centro de “Gabriel e a Montanha” é seu protagonista. Sua proposta não é exatamente ser um estudo de personagem unicamente, mas esse tipo de pretensão recebe grande atenção por parte dos realizadores. Essa é uma construção que se dá pela relação que ele tem com as pessoas em sua volta, sejam africanos ou sua namorada. É através dela que podemos entendê-lo e ter algum tipo de ideia maior de sua visão de mundo, sua mentalidade. Mesmo com vários tipos de concepção de respeito e interesse com quem o rodeia, o personagem não é santificado, o que o fortalece e torna mais humano. Por vezes vemos que sua gentileza se contrasta com uma espécie de arrogância ou de atitudes machistas que permeiam seu namoro. Dessa forma, Gabriel não é unilateral, carrega consigo contradições que todos temos, querendo ou não. Ainda dentro desse tema, a atuação de João Pedro Zappa comove, sobretudo quando interage com Caroline Abras, ambos carregam muito do filme.

A despeito disso, não existe muito pano de fundo para o protagonista. Sabemos um pouco de sua história pelo que conversa, pelo dito, mas isso não é aprofundado. A exposição feita ilustra alguns traços da personalidade dele, refletindo-se também em como age, mas não são explorados de forma plena. Assim, um filme que é inegavelmente introspectivo e reflexivo necessitava de maior aprofundamento dessas questões, estar engajado com a causa do personagem é fundamental. Até mesmo por isso, perde-se muito do poder do que se assiste se não se conecta à ela, coisa que pode vir a acontecer com parte do público.

“Gabriel e a Montanha” funciona, então, na maior parte do tempo. Não vai mudar a vida de todos que o assistirem, mas é um bom estudo de personagem, feito com toques originais e autorais que valem a pena. Há de se ressaltar o fato de que é um filme nacional, contando com grande valor de produção. Ele é, portanto, grandioso dentro da sua perspectiva mais medidativa. É trágico, mas também comovente, e acima de tudo, honesto. A transparência e a sensibilidade, que tantas vezes faltam no tratamento para com a arte, não faltam nessa obra.

Crítica (2): Gabriel e a Montanha
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