Quando “Intocáveis” estreou em 2011, o sucesso foi instantâneo. Todos ficaram comovidos pela história de um malandro de bom coração que passa a cuidar de um milionário tetraplégico.  Baseados em eventos reais, o filme conta o desenvolvimento da amizade desses homens tão diferentes, mas que se completam e mudam a vida um do outro. Após o lançamento, já surgiram inúmeras noticias sobre um possível remake vindo de Hollywood. Os endinheirados americanos, neste caso, foram passados para trás, pois os argentinos o fizeram primeiro.

Em 2016 temos “Inseparáveis”, com Oscar Martínez (“Relatos Selvagens”) e Rodrigo de La Serna (“Diários de Motocicleta”) nos papéis principais. A palavra refilmagem foi tratada na forma literal, já que cada frame é vindo do original francês. Mesmo a barroca mansão do milionário parece ter sido reproduzida nos mínimos detalhes. Quase todas as situações que marcam o encontro dos dois também são repetidas, alterando-se alguns pequenos detalhes que não são importantes para o avanço do enredo. A fotografia, assim como em “Intocáveis”, possui momentos soturnos e coloridos, variando de acordo com o estado emocional dos personagens. O tom melodramático impera em cenas de confissões e choro. Em se tratando de narrativa, não há nenhum elemento que se destaque ou que ultrapasse o acadêmico. Não deixa de ser uma pena, já que há situações que poderiam ser trabalhadas com outros pontos de vista, trazendo mais discussões nas entrelinhas. Sem muita complexidade, era possível traçar uma linha sobre a nossa mortalidade na figura do milionário; que até possui algumas falas que podem indicar esse caminho, mas que, de tão superficiais, ficam fora de contexto.

O elenco cumpre seu papel, principalmente com Rodrigo de La Serna encarnando um homem que, apesar de suas maneiras brutas, consegue ser apaixonante e sensível. O problema é que Omar Sy já havia interpretado esse mesmo personagem e com a mesma sensibilidade. O ator argentino só inclui traços de personalidade latinos, principalmente na cena da dança durante um aniversário. Oscar Martínez causa pena e tristeza com um homem amargurado, que teve a vida interrompida por um acidente, chegando a superar em alguns momentos a atuação do francês François Cluzet.

Para quem não viu o original, será uma boa oportunidade para ir ao cinema e acompanhar a história recontada por nossos vizinhos portenhos e, mesmo para quem já viu, será uma reprise agradável como passa tempo. Quando falamos passa-tempo, não é nossa intenção rebaixar o filme, mas sim dizer que a missão de contar uma história de amizade leve e engraçada foi cumprida, mesmo com a grande e evidente sensação de déjà-vu.

Mais do que o filme em si, é válido discutir a necessidade da realização de refilmagens de produções tão recentes. O cinema possui uma linguagem universal, que, mesmo precisando de legenda ou dublagem, consegue atingir pessoas do mundo todo. “Intocáveis” surgiu e atingiu milhares, inclusive na Argentina, e é até curioso ver um remake vindo de lá, que é um país festejado por sua filmografia original e de estilo próprio, sendo reconhecida no mundo todo por sua excelência. Esse papel de reprodutor é muito associado aos EUA, que não possui muita aceitação do que vem de outros países. Será que essa falta de aceitação está atingindo outros lugares? Será que a globalização do cinema passará a ter barreiras representadas pela língua e pela cultura? Não queremos acreditar que a forma de arte mais completa que existe seguirá o exemplo da política de alguns países e construirá muros em suas fronteiras, preferindo refazer com sua visão algo vindo de outro lugar não agradável aos seus olhos.

Esperemos e acreditemos que se trata de apenas mais uma tentativa de se produzir mais dinheiro em bilheteria.

 

Crítica (2): Inseparáveis
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