Crítica (2): Na Mira do Atirador

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Fala, areia e nada mais

Quando pensamos em assistir um filme sobre guerra a primeira coisa que nos vem a cabeça é muita ação, com tiros, explosões, mortes e pânico geral. Os trailers fazem recortes rápidos de grandes sequências de ação para aguçar o espectador e assim vai. Mas o novo filme de Doug Liman, “Na Mira do Atirador” (The Wall), foge um pouco dessa estrutura. O que pode afastar o expectador assíduo de filmes do gênero.

Produzido de maneira independente pela Amazon Studios, o longa apresenta uma única locação, dois atores e três personagens. Sendo que um dos personagens ouvimos somente a voz. De maneira minimalista, temos dois soldados numa área árida do Iraque. Eles estão a horas observando o horizonte a espera de um famoso atirador. Para Isaac (Aaron Taylor-Johnson) ele está a espreita, mas para seu parceiro Matthews (John Cena) ele cumpriu seu trabalho e já foi embora, fazendo com que eles estejam ali atoa. Supostamente a “guerra” entre os Estados Unidos e o Iraque já acabou, mas nós sabemos que não é/foi exatamente assim. Quando Matthews resolve sair do esconderijo acaba sendo atingido por um tiro, confirmando a teoria de Isaac. A partir daí, ambos começam uma luta física e emocional para sobreviverem ao “Ghost”, Juba (Laith Nakli).

Nessa estrutura, o roteiro de Dwain Worrell traz um tom mais emocional e racional do que de ação. Considerando a maneira como foi produzido, tal ato favorece a narrativa escrita. Pontuado em seus momentos mais aguçados, vemos nesse exemplar a tentativa de exercer uma psiquê para seus protagonistas em confronto, mas acaba sendo tudo muito raso e rápido, para não cair na monotonia. O “quase” monólogo levanta algumas questões sobre patriotismo, reconhecimento e até crenças, mas de maneira leve e sem muito aprofundamento politico/social. É como se, no resumo da ópera, fosse uma espécie de “Todos somos os culpados de alguma maneira”, que não convence.

Entre uma filosofia e outra, um poema e outro, um tiro aqui, um tiro ali, temos uma direção precisa. Talvez, uma das melhores coisa do filme. De maneira orgânica, Liman tem uma conduta realista, sem muitos rebuscamentos, conduzindo seu elenco a uma boa atuação. Alinhado a seca fotografia de Roman Vasyanov e a alinhada montagem de Julia Bloch, a narrativa visual salta os olhos. A direção consegue nos transpor ao embate de vida ou morte, dando um “batimento cardíaco” em um local já “morto”. Doug Liman extrai do roteiro seu melhor, sem se preocupar em fazer, mas em ser, ainda que não possamos dizer que é um resultado de excelência como em outros filmes de sua filmografia.

John Cena, famoso como lutador, aos poucos vem aparecendo em alguns filmes, mas ainda não consegue ser convincente o suficiente. Embora seu porte se enquadre no personagem, vemos seu esforço em viver Matthews, mas tendo como parceiro de cena Aaron Taylor-Johnson, acaba perdendo sua força. Aaron por sua vez, é quem segura todo o filme e mais uma vez prova que o Kick Ass cresceu e se tornou muito mais que um rostinho/corpinho bonito de Hollywood. Numa safra de boas atuações, ele mais uma vez segue em destaque. Contudo, Laith Nakli, somente com sua voz, consegue dar um tom que nos aguça a imaginar quem é e como é seu Luba. Além disso o tom irônico e questionador de seu personagem faz com que Isaac desenvolva melhor na trama.

Sem cair no marasmo, “The Wall”, também não cai nas graças. Num ritmo uniforme e pertinente a sua narrativa, “Na Mira do Atirador” é mais cabeça, mas sem muito pensamento. E se a guerra não acabou, (spoiler leve) o embate sobre a vida também se mantém aberto no longa. O filme ganha seu final, passa sua mensagem, mas deixa o gatilho pronto para um próximo tiro. Agora, escolha seu lado e tente sobreviver.

Crítica (2): Na Mira do Atirador
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