Crítica (2): O Crime da Gávea

Baseado na obra literária de Marcílio Moraes, que por sua vez foi o próprio roteirista do filme – e cá entre nós, causou um grande bafafá com a ideia de que quem deve assinar um filme é seu roteirista e não quem o dirige -, O Crime da Gávea” caminha entre os trilhos do drama e do suspense.

Nele, o suspense se dá todo em torno de Paulo, editor de vídeo, interpretado por Ricardo Duque, e um assassinato que acontece na Gávea (bairro nobre do Rio de Janeiro), até então indecifrável, que por pouco não leva o espectador a transformar-se em investigador e a ter um papel atuante na história, mas isto, se não fosse a pantomima enfadonha que pouco convence, induzindo o assistente a certa inatividade neste momento.

Contrário do livro, que tem uma narrativa linear e instigante, foi utilizada a técnica de alternar um momento presente com o passado na intenção de exteriorizar a sensação de que o personagem principal está divagando em suas lembranças, o que torna a obra labiríntica, de difícil compreensão para quem ainda não teve contato com a história da qual ela provém.

A fotografia e o figurino tramitam pelo contraste entre claro e escuro, sempre numa tentativa frustrante de passar o sentimento do narrador-personagem principal da história: quando tudo parece estar próximo a uma solução, as roupas e o ambiente são clareados e quando paira a dúvida, incerteza e suspense é o negrume que predomina, e, apesar de ter uma fotografia linda ao mostrar as diversas fases do dia na Gávea, não cativa.

Mais uma vez temos que concordar que uma adaptação cinematográfica provinda de uma obra da literatura, dificilmente, será tão instigante quanto o original, até mesmo quando o seu roteirista é o próprio escritor.

Não que a produção seja ruim, pelo contrário, foi muito bem dirigida por André Warwar, que também trabalhou no curta “Retrato Falhado” e estrelada pela belíssima atuação de Aline Fanju (das novelas “Totalmente Demais”, “Em Família” e “Vidas em Jogos”), como Fabiana, a esposa de Paulo. Simone Spoladore também está bem interpretando a amante de Paulo, Elisa.

Um adendo que faço é a insistente mania de explorar a nudez feminina em filmagens de cunho nacional e presente novamente aqui, com exceção de algumas cenas justificáveis para demonstrar lembranças e sentimentos do protagonista, outras foram desnecessárias, ou talvez necessárias para despertar o espectador a esta altura letárgico?

Para ajudar no suspense policial, o filme recorre à trilha sonora, que ora caminha por ritmos monótonos, ora ascende por ritmos de baterias aceleradas.

É interessante reparar uma realidade que foi fidelizada nesta obra, que é a representação de como a justiça brasileira atua, e esse papel foi muito bem interpretado pelo ator Celso Taddei, como o detetive Afrânio .

A obra não é considerável ordinária, mas também não tanto extraordinária, podemos apreciá-la como razoável. Recomendo que se leia antes a obra literária “O Crime da Gávea”, e somente depois vá ao cinema verificar a adaptação que estreia em 09 de março nos cinemas e aí podemos comentar um pouco mais sobre seu fim, que dá margens a diversas interpretações.

Crítica (2): O Crime da Gávea
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