Novo capítulo para os dilemas de propósito e significado de Ben Stiller

Construir um esquema ficcional que irrompe em temas como o desencantamento pela vida, correlacionando personagens com o homem pacato, é a cereja do bolo que transforma com capricho a mundanidade dos conflitos experimentados por um grande número de expectadores em uma aprazível e saborosa realidade. Contextualizada na composição artística. Pronta para ser mastigada lentamente nas telas sem promessa de digestão.

Reportando a trabalhos anteriores de Ben Stiller, “O Solteirão”, “A Vida Secreta de Walter Mint” e “Enquanto somos jovens”, que progressivamente vem apontando sua marca identitária para um fatalismo-cômico não menos esperançoso, em que a tragédia humana também é composto do lado pitoresco, O Estado das Coisas” traz Stiller visivelmente confortável em uma interpretação sem excessos de maneirismo. Aspecto característico em alguns personagens dramáticos que acabam sobressaindo de todo o compasso da obra.

O diretor Mark White, que também interpreta Nick Pascale, um dos amigos de Brad Sloan (Ben Stiller), aponta com tino o desenrolar da trama acompanhada da divagação monóloga de Brad. Exprimindo a inconstância do indivíduo em crise de ansiedade pela desolação com o que antes era promissor. O elenco bem articulado destrincha personagens que exaltam suas dessemelhanças com o protagonista. Fora a paranoia em nivelar seu lugar no mundo com o sucesso dos amigos, também ensaia a própria desolação comparando o comportamento de seus mais íntimos e desconhecidos. Certos momentos parecem nos remeter aos flagelos filosóficos e românticos de Woody Allen.

Em sua direção de arte, o longa conversa diametralmente com trabalhos mais introspectivos assentado em premissas existencialistas, que optam pelo encurralamento dos personagens a cenários soturnos e claustrofóbicos. Permeados de silêncio, cores obtusas e planos longuíssimos que aprisionam a fotografia como ferramenta para irromper na audiência angústia e monotonia. Em contrapartida, aparentemente conduzido quase que em sua totalidade por “câmera na mão”, planos gerais em meio a ambientes arborizados e ensolarados acompanham os devaneios de Brad. Suavizando o peso de suas reflexões sobre a própria história. Este arranjo funciona bem em todo o trânsito temporal de suas ponderações: A experiência do passado. O contexto do presente. E as propensões para o futuro.

Os cortes que amarram as dissertações de Brad com projeções de sua imaginação. Idealizadas por sua sujeição a fatores casuísticos. Não deixam o longa cair no marasmo fatídico do protagonista incomodado por más resoluções de suas questões apresentadas. Antes, dão um tom cômico e vivaz de sua própria condição de tormento.

O fundo musical divide espaço entre dois momentos facilmente identificáveis. O violino vivaz durante a peregrinação de suas provocações filosóficas não resolvidas ou a sentimental e adocicada melodia nos contextos de possível redenção. O âmbito em que se desenvolve os arcos de Brad têm formatos musicais totalmente uniformes aos sentimentos de Brad. Principalmente ao lado do filho Troy (Austin Abrams). A fala rouca e o olhar cabisbaixo antagônico ao forçado euforismo desesperado do Pai. Essa construção da relação entre os dois traz um senso de continuidade das inseguranças.

Tal contexto, traz uma dimensão subjetiva e confortável (por mais contraditório que possa parecer) ao enfrentamento de questões de identidade e pertença. O que permite uma correlação muito eficaz com as dissonantes e emblemáticas crises que toda a modernidade urbana pós-industrial sofre antes, durante e após seus intervalos de produção automatizada. Ainda que envolvida por uma atmosfera idealística cheia de indulgências, o trabalho de Brad com ONGs não elimina o incômodo com Ananya (Shazi Raja) e Maya (Luisa Lee). Reflexo do vigor de sua juventude que afirma ter perdido.

Aqui, Ben Stiller alcança a consumação de sua caricatura cômica e trágica, simples, mas não menos grandiosa. Daquelas que marcam a sutileza tenaz de sua atuação que dificilmente pode ser emulada pelos mais articulados atores. Que transmutam diferentes identidades com a sutileza de quem troca de roupa. Sem arrombos de eloquências para justificar como é grandioso um tratado sobre as exigências da felicidade.

“O Estado das Coisas” levanta questões fascinantes sobre a amargura narcisista defronte a um falso espectro, que é a expectativa do mundo alheio a nós mesmos. De maneira simples, deleitosa, conversando com o homem comum. Amando as realidades que nos cercam, sem possuí-las. Revirando-se na cama para dar continuidade a observação da vida sob o ângulo mais importante: Ainda estamos vivos.

Crítica (2): O Estado das Coisas
7Valor Total
Votação do Leitor 0 Votos
0.0