Raw: Um drama atormentador 

O filme que ficou mundialmente conhecido por fazer o público passar mal e até mesmo desmaiar em sua exibição no Festival de Toronto, chegou à lista da Netflix. Quando foi lançado, em 2016, poucos cinemas passaram o longa (pelo menos no Brasil), mas a curiosidade pode ser saciada a partir de agora.

“Raw” é a tradução escolhida para o nome original “Grave”. A história teve direção e roteiro da novata francesa Julia Ducournau e conta o drama de Justine, personagem vivida por Garance Marillier, uma menina tímida e vegetariana, que acaba de entrar na faculdade de veterinária em que sua irmã Alexia (Ella Rumpf) também estuda. A caloura passa pelos famosos trotes, que consistem em brincadeiras um tanto quanto estranhas, como tomar um banho de sangue coletivo à la “Carrie: A Estranha” e comer fígado de coelho. Essas novas experiências vão aflorar vontades que levarão a jovem a cometer atitudes que, digamos, saiam da normalidade.

Sem dúvidas, “Raw” foge completamente do formato já saturado de filmes de terror. Não trata de sustos, fantasmas ou possessões, mas da luta com seus demônios interiores. A passagem para a maturidade e o surgimento de desejos sexuais são o plano de fundo perfeito para um drama que fala sobre canibalismo. A diretora do filme retrata a universidade como um antro da carnificina, onde a introspectiva e ingênua Justine tem que lidar desde o primeiro dia com situações que elevam o valor físico e simbólico da carne, seja animal ou humana. Como é uma faculdade de veterinária, ela presencia a todo momento aulas em que é preciso cortar e matar animais. Mas é na relação com a carne humana que o filme desenrola suas questões interessantes. A representação da inquietude que ela passa a ter quando começa a ter contato com esse novo ambiente é o ponto alto da trama. Sua busca pessoal por uma transformação de menina para mulher traz um drama particular da personagem principal, mas que acaba atingindo outras pessoas.

A atriz Garance Marillier atua brilhantemente em seu segundo trabalho com a diretora, já que havia trabalhado com a Ducournau no curta-metragem “Junior”. Seu semblante juvenil e tímido traz exatamente o que Justine precisava fisicamente. Por outro lado, a atriz consegue representar bem toda a loucura que sua personagem vive a partir de certo momento.

Outra atuação que deve ser citada é a da irmã mais velha de Justine, Alexia, interpretada por Ella Rumpf, também é nova no cinema. Alexia é uma mulher que carrega consigo um ar de rebeldia que não existe na irmã mais nova. Ela a recebe na faculdade e a orienta nesse novo momento, insistindo para que a irmã abra sua mente e se permita experimentar as mudanças que estão ocorrendo em sua vida. Já sobre as terríveis cenas de canibalismo que prometem desmaios, acreditamos que não seja para tanto. De fato, é um filme que possui cenas bem intensas, tendo uma em particular realmente bem perturbadora (quem assistiu provavelmente sabe qual é). Mas a fotografia em geral é bem sucedida. A diretora escolhe planos abertos quando quer transmitir uma sensação de vulnerabilidade, retratando como a personagem é pequena no meio de tantas outras pessoas, e opta por planos fechados quando quer explorar uma sensação de incômodo e aflição. A trilha sonora também contribui para o constante sentimento misto de curiosidade e perturbação que valoriza o tom de suspense.

É uma obra que utiliza a violência explícita de uma forma diferente do que é normalmente vistos em filmes do gênero. Você não vai encontrar mortes gratuitas como em “O Albergue”, por exemplo. Em “Raw”, as mortes são uma consequência do drama vivido pela personagem e, por isso, a história se torna ainda mais instigadora.

Crítica (2): Raw
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