Crítica (2): Sobrenatural – A Última Chave

“Os fantasmas do passado logo se tornarão o nosso presente.”

A frase, repetida ao longo de “Sobrenatural: A Última Chave” (Insidious: The Last Key, 2018), demonstra sintonia com uma certa tendência do cinema de horror contemporâneo. Assim como as franquias Ouija, Jogos Mortais e O Massacre da Serra Elétrica fizeram com “Ouija: Origem do Mal” (Ouija: Origin of Evil, 2016), “Jogos Mortais: Jigsaw” (Jigsaw, 2017) e “Leatherface” (2017),  Sobrenatural volta ao passado para melhor entender sua protagonista, a psíquica Elise Rainier.

O longa-metragem, quarto segmento da série iniciada em 2010 por James Wan – mesmo criador de Jogos Mortais e Invocação do Mal -, tem início em 1953 na cidade de Five Keys (Novo México), onde a então jovem Elise (Ava Kolker) vive com os pais, Aubrey (Tessa Ferrer) e Gerald (Josh Stewart), e o irmão caçula, Christian (Pierce Pope). O filme estabelece então um corte para décadas mais tarde, em um momento temporalmente posterior aos acontecimentos de “Sobrenatural: A Origem” (Insidious: Chapter 3, 2015), mas anterior aos de “Sobrenatural” (Insidious, 2010) e “Sobrenatural: Capítulo 2” (Insidious: Chapter 2, 2013). Já idosa, Elise (Lin Shaye) retorna à terra natal com os parceiros Specs (Leigh Whannell) e Tucker (Angus Sampson) para resolver um caso de assombração na casa onde cresceu. As lembranças do pai violento e da mãe suicida, no entanto, revelam-se temores tão grandes quanto os verdadeiros fantasmas.

Ao identificar a presença desses “demônios” no mundo dos vivos, o roteirista Leigh Whannell – mesmo dos outros três filmes – introduz uma discussão interessante. Os perigos não mais se restringem aos espíritos: passam a ocupar as memórias – na forma de traumas – e os corpos – por meio de sucessivos abusos. A possibilidade de fugir das ameaças se esvai, e confrontá-las torna-se cada vez mais urgente. Nesse cenário, o moralismo cristão parece ficar pra trás – como indica a própria Elise ao rejeitar a Bíblia do novo morador da casa, Ted Garza (Kirk Acevedo) -, e tem início um importante debate sobre a misoginia e a violência contra a mulher. Lamentavelmente, contudo, a narrativa se perde em um afã por reviravoltas e se entrega, finalmente, a soluções fáceis, contradizendo toda a construção discursiva anterior.

Assim como o roteiro, a direção também carece de equilíbrio. Adam Robitel (A Possessão de Deborah Logan) tem sucesso ao alternar sustos e alívios cômicos, mas erra, contudo, ao mostrar muito e sugerir pouco. Por esse motivo, nunca consegue criar um clima permanente de tensão e depende em demasia de jump scares e outros clichês do gênero.

Talvez o maior acerto de Whannell e Robitel, o protagonismo feminino merece destaque. Apesar de pouco satisfatório, o desfecho do longa-metragem alça Elise à categoria de heroína e a aproxima das mulheres de sua família. Mais em evidência do que nunca, a personagem, interpretada com a competência de sempre por Lin Shaye, cresce nesta nova produção e ganha a companhia de Imogen (Caitlin Gerard) e Melissa (Spencer Locke), filhas de seu irmão Christian (Bruce Davison). Juntas, elas lutam contra demônio KeyFace (Javier Botet), talvez um signo mal explorado do patriarcado, e tentam superar suas dores e seus medos para vencê-lo.

“Sobrenatural: A Última Chave” trata-se, por fim, de um filme mais complexo do que o esperado horror genérico. Para além de uma simples história de casa mal-assombrada, cresce quando tenta entender a multiplicidade de fantasmas presentes no cotidiano de suas personagens. Por um lado, discute, antes de tudo, as indeléveis marcas provocadas por abusos e conclama a união feminina na luta contra seus perpetradores. Por outro, no entanto, suas contradições internas prejudicam o produto final, e o resultado é uma conclusão apenas regular para a franquia de Wan.

*O filme estreia dia 18, quinta-feira.

Crítica (2): Sobrenatural - A Última Chave
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