A fórmula certa

Se tem algo que consegue mexer com nossos sentimentos é o abandono e a morte. Se pararmos para listar filmes que abordam esses temas juntos ou separados, teremos uma lista praticamente infinita. Isso porque, gostando ou não, faz parte da vida de todo mundo. Seja em maior ou menor quantidade. Se estabelecemos esses dois juntos, numa fórmula já conhecida podemos ter um bom resultado. Ainda que possa apresentar pequenas falhas. Nesse caso temos o longa francês “Uma Família de Dois” (Demain Tout Commence).

Samuel (Omar Sy) nunca foi dos mais responsáveis. Levando uma vida tranquila ao lado das pessoas que ama no litoral sul da França, sua vida muda drasticamente de um dia para o outro. Kristin (Clámence Poésy), uma mulher com quem dormiu uma noite, reaparece com uma criança de poucos meses. Ela afirma que a pequena Glória (Gloria Colston) é filha de Samuel e que ele devia criá-la. Incapaz de cuidar da criança, Samuel corre para Londres a fim de encontrar Kristin, que após entregar a menina sumiu no mundo.

Sem sucesso, ele acaba conhecendo o produtor Bernie (Antoine Bertrantd) que o ajuda a encontrar um emprego e a criar a criança. Com o tempo, Samuel vira um grande dublê de cenas de ação em produções londrinas, conseguindo sustentar a filha, que tem uma doença, e dando a ela uma rotina nada convencional. Oito anos depois Kristin retorna para conhecer a menina, mas o que Samuel não esperava é que ela também iria fazer de tudo para recuperar a guarda de Gloria.

Escrito originalmente por Leticia López Margalli, Eugenio Derbez e Guilhermo Ríos, o longa teve seu roteiro final feito por Mathieu Oullion, Jean-André Yerles e Hugo Gélin, com colaboração de Igor Gotesman. O resultado final nos dá diálogos dinâmicos, rápidos e sequências essencialmente necessárias para se construir a narrativa. Porém, esse acelerado dinamismo, fez com que os personagens não tivessem profundidade suficiente. São apresentados rasas sequências sobre quem são e o que representam. Isso ocorreu de maneira melhor com Samuel, afinal ele é o protagonista. Contudo, os demais, principalmente Gloria e Kristin deveriam ter sido melhores desenvolvidas, com mais algumas camadas construtivas.

A direção de Hugo Gélin consegue casar de maneira positiva à outros departamentos. Seja a limpa e bem enquadrada direção de fotografia de Nicolas Massart ou na edição de Valentin Feron e Grégoire Sivan. Com a maior parte dos planos centralizados, o diretor os utiliza de maneira interessante a fim de intensificar o drama de seus personagens, tornando-os o centro de nossa atenção. Tal feito gera um resultado interessante, uma vez que o vemos nos cativa muito mais do que a base da história. Seu trabalho com o elenco, que embora não conseguem emocionar genuinamente em cena, fazem com que só a camada emocional externa seja suficiente. Embora, nós possamos ter desejado ver/ter mais drama genuinamente emocionantes.

No elenco, Clámence Poésy ainda precisa mostrar para o que veio. Embora sua passagem pelo longa seja interessante, mesmo com um “cotoco” de personagem, ela esboça a mesma feição de outros filmes que já fez. Às vezes, a impressão é que ela é sempre a mesma persona vivendo outras vidas, ou ela é sempre ela mesma sem atuação verdadeira. Gloria Colston, que é a filha de Samuel mais velha, é uma graciosidade por si só. Sem esforço algum ela consegue nos cativar. Não só ela, mas também as outras crianças que fazem diferentes fases de Gloria no longa. O que é um ótimo reconhecimento para a produção de casting de Michael Laguens.

O divertidíssimo Bernie, de Antoine Bertrantd, é um dos melhores personagens do filme. Embora seja aquela válvula clichê de escape cômico, o coadjuvante engraçado que é gordo e/ou gay, merece ter seu trabalho reconhecido. Se Omar Sy fosse um ator mediano, sem dúvida alguma o filme seria de Antonie com uma ótima desenvoltura e boas pontuações em sua interpretação. E como dissemos Omar Sy, não é um ator mediano. Depois de uma brilhante presença em “Os Intocáveis” (Intouchables – 2011), ele volta a uma produção para nos emocionar e fazer de “Uma Familia de Dois” um filme totalmente seu.

Embalado por um trilha pop e com músicas originais, de Rob Simonsen, que se encaixam de forma leve e adequada ao filme, “Uma Família de Dois” é pontual. Entrega o que promete, entretêm e emociona, embora pudesse ser muito mais do que é entregue. Com erros e acertos, o longa é uma história gostosa de se assistir, que nos reflete pensamentos sobre nossas escolhas e comportamentos. Sobre quem queremos ser e como queremos ser vistos e lembrados.

Crítica (2): Uma Família de Dois
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