A segunda guerra mundial provavelmente é o conflito mais retratado pelo cinema nos últimos anos. Já foram feitos filmes sobre as batalhas em si e sobre pessoas comuns que tiveram importância nos seus rumos. Alguns dos mais conhecidos e premiados são “A Lista de Schindler”, “O Pianista” e “O Resgate do Soldado Ryan”. Praticamente todos os anos temos alguma produção que conta alguma história passada no período, e que saem de vários países, não só de Hollywood. A França faz o seu em “A Viagem De Fanny”, que é sobre um grupo de crianças judias que são acolhidas e escondidas por famílias francesas durante a ocupação nazista no país. Após a descoberta dos abrigos, elas são obrigadas fugir e tentar chegar à fronteira com a Suíça.

A guerra pelo ponto de vista de crianças deixa o tom da produção um pouco mais leve, apesar de haver alguns momentos de tensão durante a fuga, como quando elas são aprisionadas por soldados traidores. A condução de Lola Doillon é eficiente em tirar de todos em cena, mesmo dos mais novos, atuações convincentes e sem exageros, além de construir cenas em que as brincadeiras infantis aliviam o clima. Por isso, a esperança sempre está presente dentro do grupo, o que leva o espectador acreditar que tudo ficará bem.

A fotografia segue o otimismo por trazer ambientes extremamente iluminadas e coloridos, que são destacados pelos planos abertos e por expositivos movimentos de câmeras. O que, evidentemente, tem o objetivo de mostrar os belos cenários em que a história se passa. O figurino é trabalhado para, praticamente, retirar as cores escuras da vestimenta das crianças, deixando para os soldados o preto e cinza. O roteiro não traz nenhuma grande sacada, apenas mostra o típico Road Movie que todo cinéfilo aprendeu a gostar, sendo os relacionamentos o seu foco principal. Os adultos são mostrados como seres que não são de total confiança, tornando a aparição de qualquer um em uma potencial ameaça. Personagens como de Cécile de France e Stéphane De Groodt são os poucos que servem de ajuda durante a jornada, mas que estão presentes apenas como pontes para o amadurecimento precoce das crianças.

Obviamente, a personagem Fanny (Léonie Souchaud) é a que possui mais atenção do roteiro, sendo ela a líder do grupo e a que mostra mais coragem para enfrentar os problemas. Sua responsabilidade é ainda maior porque tem que cuidar das duas irmãs pequenas e precisa fazer o papel dos pais ausentes. Ela, ao olhar pelo visor de uma câmera, lembra-se dos momentos felizes com sua família no passado e sonha um dia voltar a eles, mas, para isso, precisa chegar à Suíça. A falta de comida, de água e a perseguição dos inimigos é constante, o atrito entre o grupo também chega a ser um problema para a garota. A aventura do filme está contida nesses elementos e a inocência dos envolvidos confere, às vezes, alguns momentos cômicos, servindo de escape para o contexto geral da trama. A fofura de algumas situações ajuda a criar empatia suficiente para que a história transcorra até o final sem grandes percalços.

O filme é baseado em uma história real e tem em sua base os inúmeros órfãos que surgiram na Europa pós-guerra. É triste constatar, pelo que é mostrado no filme e pelos fatos históricos, que muitas dessas crianças não tiveram chances de fugir, sendo vitimas dos campos de concentração nazistas. O que nos resta é o consolo em saber que houve inúmeros grupos de Fannys que conseguiram sobreviver a uma das maiores barbáries que nós já produzimos neste planeta. Vale a pena conferir para que possamos pensar com mais carinho sobre nossas crianças.

Crítica: (2): A Viagem De Fanny
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