Um filme sobre o futuro, mas acima de tudo: nossa identidade. “A vigilante do amanhã” peca logo em sua tradução para o português. Ghost in the shell, o título em inglês em todo o mundo – como no mangá/anime – mostra uma jornada da alma num futuro onde orgânico e sintético, onde tais dualidades desaparecem. O filme é fiel a tal questão mostrando logo no início várias partes desse Japão que se atualiza além dos limites do corpo humano, redefinindo o próprio conceito de corpo e humano. O título remete à alma e à concha, carcaça ou simplesmente corpo. Mas principalmente ao que dá “vida” ao corpo, de alguma maneira, a alma. Poderia-se usar a palavra soul, isto é, alma, mas preferiu-se por ghost, pois significa fantasma, implicando que se refere a algo que sai do corpo e não apenas ocupa-o.

Como no original, a fronteira entre realidade e virtualidade desaparece – ainda que com menos força –  e os riscos de uma conexão direta com a virtualidade são explorados ao seu máximo – tendo em mente que o original saiu em 1989. Há uma outra noção estética que talvez só pudesse ser representada no Japão, mas principalmente uma valorização da utilidade do corpo à última potência, ainda que tal “corpo” seja outro, sintético. E aqui entra outra questão muito interessante em Ghost in the shell, com a Major ou Mokoto, a mente é transferida para um corpo inteiramente sintético e sua identidade é posta em cheque. Na filosofia da ciência já se discutiu isso há anos.

Se você troca um fígado, um coração, um pulmão e assim por diante, até você trocar todo o seu corpo, quando este corpo deixa de ser seu? A mesma questão fica para a mecanização do corpo. Como ainda ter a noção de pertencer ao corpo e ainda ter identidade? A resposta para isso é: esta é a pergunta errada para nosso futuro. A palavra ghost vem para solucionar tal questão de alguma maneira. Seríamos em tais condições algo além dessa concha, várias conchas, ou nenhuma concha. Estamos lidando com um paradigma completamente diferente.

Scarlett Johansson faz seu papel bem. Depois de Lucy, aparentemente suas habilidades em cenas de ação estão mais aguçadas ou foi obra do próprio treino para o filme. Suas cenas de ação são muito iguais ao anime/mangá, o que incomoda de alguma maneira. Porém, deve-se pensar que nem todos têm essa referência. A última cena clássica ao abrir o robô carece de emoção e uma boa direção para deixar a cena como grand finale.

Takeshi Kitano, como um dos representantes dos atores japoneses – que só fala japonês – não pareceu uma boa escolha. Conhecendo o original e a calmaria zen de seu personagem – que é até refletido apenas no início – logo se transforma num gângster yakuza sem qualquer necessidade. Aparentemente, para ele entrar, era necessário dar-lhe uma parte maior de cena.

As cenas de ação são mais inspiradas no jogo de Playstation Metal Gear do que no anime, o que dá certa qualidade militar aos movimentos. O mesmo se dá no final que enfrenta o próprio metal gear de certa maneira. No entanto, aos poucos o filme vai tropeçando com deslizes de cenas de ação, variação de força e habilidade na Major, com um papel/atuação ruim da cientista que a ajuda e com o Deus Ex-Machina de Saito no final sem qualquer explicação. Se focaram no Batou, ok. Deram forças aos Aramaki, estranho. Usam o único da Seção 9 que é humano como enciclopédia, mas introduzir Saito apenas com um tiro é bem complicado.

De qualquer maneira, como no original, Ghost in the shell  ou “A Vigilante do Amanhã” nos traz muito material para discutirmos o futuro, nossa identidade, nossa virtualidade e as fronteiras que cada vez mais deixamos borradas ou as deixamos desaparecer.

Por Paulo Abe

Crítica (3): A Vigilante do Amanhã - Ghost in the Shell
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