Cinco anos após o lançamento de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte Dois, ouvimos mais uma vez a intro marcante que costuma fazer qualquer potterhead que se preze arrepiar-se dos pés à cabeça. No entanto a intro já tão conhecida, rapidamente dá lugar a uma música nova, assim como serão as aventuras de Newt Scamander  para os fãs de Harry Potter.

Ainda que receba o nome do livro didático homônimo utilizado pelos estudantes de Hogwarts, Animais Fantásticos e Onde Habitam (Fantastic Beasts and Where to Find Them) a película apenas se aproveita da figura do magizoologista Newt Scamander – interpretado por Eddie Redmayne (A Teoria de tudo). Trata-se de um filme de aventura e fantasia que se passa na cidade de Nova Iorque no ano de 1926, aproximadamente 70 anos antes dos acontecimentos de Harry Potter e a Pedra Filosofal. Onde nos é apresentada uma história totalmente inédita com personagens do universo idealizado por J. K. Rowling.

A trama gira em torno da chegada Newt à  Nova Iorque, ele traz consigo uma maleta mágica com diversas criaturas em seu interior. Sua chegada à cidade ocorre em um momento de profunda tensão entre a comunidade mágica norte americana e os “não-maj” – Equivalente americana para a palavra inglesa “trouxas” – Onde o segredo sobre a existência de bruxos e bruxas tem corrido cada vez mais risco graças a acontecimentos inexplicáveis que chamam a atenção dos “não-maj”, e a constante ameaça gerada por Gellert Grindelwald – Johnny Depp (Piratas do Caribe) – Um bruxo das trevas que tem causado terror tanto na Europa quanto na América. É neste cenário em que Newt tem sua mala trocada com o não-maj Jacob Kowalski – interpretado por Dan Fogler (Bolas em Pânico, Uma noite Mais que Louca) – e acaba chamando a atenção de Porpentina “Tina” Goldstein – Katherine Waterson (Vício Inerente, Steve Jobs) – que assiste horrorizada as confusões criadas por Newt e decide levá-lo para responder por suas atitudes junto ao Congresso Mágico dos Estados Unidos da América (Macusa). Newt e Tina procuram recuperar a mala das mãos de Jacob e descobrem que este acabou libertando sem querer algumas das criaturas mágicas em Nova Iorque. A situação torna-se ainda mais complicada quando os três se envolvem com uma seita extremista não-maj e com o misterioso Percival Graves – Colin Farrel (Minority Report, Alexandre).

Por mais que seja uma obra de fantasia é difícil não fazer uma associação do que assistimos em Animais Fantásticos e Onde Habitam com as transformações políticas que ocorrem no mundo atualmente. A ascensão do conservadorismo na Europa e nos EUA pode ser facilmente ser associadas às medidas extremas tomadas pelo Congresso Mágico, e a ameaça gerada pela figura de Grindelwald é praticamente uma alusão ao problema do terrorismo, que acaba sendo causa e consequência de políticas baseadas no medo, preconceito e ignorância. Esta abordagem dá um tom relativamente maduro à trama quando comparamos este aos da saga Harry Potter,  e isso é feito sem que se perca a identidade do universo criado por J. K. Rowling que, nesse filme, não fica apenas responsável pelo roteiro, mas também estreia como produtora ao lado dos já veteranos Lionel Wigram, Steven Kloves e David Heyman.J. K. Rowling. desta vez escreveu um roteiro para um filme que não se propõe a ser uma mera adaptação e as vantagens disso acabam sendo refletidas na fluidez da trama, na capacidade dos eventos desenvolverem os personagens de forma suave e natural.A construção das personagens chama a atenção graças ao cuidado do roteiro e direção em criar personalidades cativantes que  estimulam a curiosidade do espectador. Esse cuidado é trabalhado em conjunto com a ótima atuação do protagonista e coadjuvantes, principalmente de Eddie Redmayne, que traz características peculiares de outros papéis como o de Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” que contribui para transformar Newt Scamander em uma pessoa excêntrica que consegue até determinado ponto surpreender quando vemos a diferença em seu jeito de agir com seres humanos e com as criaturas mágicas que estuda. Além de Newt, Jacob Kowalski consegue chamar a atenção do espectador, por demonstrar a todo momento características de um cidadão ordinário preso à uma vida de trabalho que, independente disso, não deixa de sonhar com um futuro melhor. Algo com que boa parte das pessoas consegue se identificar. É impossível deixar de falar também sobre a atuação da cantora, compositora, e atriz norte-americana Alison Sudol que interpreta Queenie Goldstein, a irmã de Tina Goldstein. Queenie é um tipo diferente de bruxa que a todo momento demonstra perspicácia, determinação e gentileza e isso faz com que ela acabe roubando cada uma das cenas em que aparece. Outro papel que chama a atenção, dessa vez, pela sua importância para a representatividade, é o de Serafina Picquery, interpretada por Carmem Ejogo (Alex Cross, Metro) que consegue passar bem a firmeza que seu papel exige. Ver uma mulher negra interpretando a presidente do Congresso Mágico é algo que realmente satisfaz e ajuda a naturalizar a visão no cinema (e também no mundo real) de  que cargos de poder não são apenas para homens brancos héteros de meia idade, Isso definitivamente garante um ponto positivo para a escolha do elenco que acaba sendo perdido quando percebemos que Serafine é praticamente a única personagem negra do filme, o que deixa Animais Fantásticos e Onde Habitam no débito no que se refere a pontuação por representatividade étnica.

Algumas atuações deixam muito a desejar, como é o caso de Ezra Miller (Precisamos falar sobre Kevin) no papel de Credence, um jovem tímido que sofre abuso por parte da Madrasta e líder da seita extremista: Mary Lou Barebone – interpretada por Samantha Morthon (Minority Report). A sensação que fica é a de mal aproveitamento de um ator que recentemente ganhou muita visibilidade ao encarnar o super herói Flash no filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça. Ezra faz uma atuação medíocre que não passa com clareza o nível de desordem emocional que seu personagem enfrenta. Outra atuação que se torna no mínimo confusa é a de Johnny Depp que, após ter gerado revolta por ter sido escalado (em um momento que lidava com o caso de agressão à  ex mulher) não consegue arrancar do público mais que: “ah, verdade, o Jhonny Depp está nesse filme” dada a qualidade do restante do elenco.Sob a direção de David Yates, responsável pelos últimos quatro títulos da franquia Harry Potter, acompanhamos a permanência de elementos visuais característicos aos seus trabalhos anteriores que tornam a experiência do espectador quase nostálgica, o que é interessante quando se deseja manter a identidade e respeito por obras anteriores, mas que acaba passando a impressão de demasiada cautela ao desenvolver uma história que, por  teria que ser abordada de forma diferente. Principalmente pelo seu caráter histórico.

O figurino e ambientação de Animais Fantásticos e Onde Habitam não deixa a desejar. Carros, roupas, acessórios e a aparência desgastada de construções dão beleza aos anos 20, um trabalho que infelizmente não foi acompanhado pela fotografia, que peca em retratar o período histórico de forma imersiva para o espectador. Em vários momentos, independente do figurino, é possível esquecer que na realidade observamos eventos que se passam em 1926.

Elogios não faltam aos efeitos visuais que impressionam com o nível de detalhamento, beleza e personalidade. E aqui chamo a atenção para os elfos retratados de forma muito mais adaptada ao mundo bruxo e que quase se confundem com parte do elenco, o que faria nosso querido Dobby na sua primeira aparição em Harry Potter e a Câmara Secreta se sentir extremamente envergonhado.

No geral, Animais Fantásticos e Onde Habitam é um filme divertido, leve que não tende a inspirar emoções fortes como as adaptações dos livros da coleção Harry Potter, mas que é capaz de agradar público de diversas faixas etárias enquanto se propõe a construir com cuidado e paciência uma história tão grandiosa quanto aquela do “Menino que sobreviveu”. Além dessa primeira aventura de Newt Scamander, haverá mais quatro longas  que abordarão sua passagem por diversas partes do mundo (inclusive pelo Brasil).

Por Raoni Vidal

Crítica (3): Animais Fantásticos e onde Habitam
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