Crítica (3): Cães Selvagens

Em 2012, a revista inglesa Sight and Sound convocou 358 cineastas para fazerem, cada um, uma lista com seus top 10 filmes. Nas escolhas do adorado Quentin Tarantino, duas produções tem o roteiro assinado por Paul Schrader: “Taxi Driver – Motorista de Taxi” (1976) e “A Outra Face da Violência” (1977) – “Rolling Thunder” no original -, essa última tão querida por ele que o diretor adotou o nome para um de seus projetos de distribuidora, a Rolling Thunder Pictures.

Se o trabalho de Schrader está no hall de influências da filmografia de Tarantino, os maneirismos tarantinescos são o flerte da nova produção dirigida pelo cineasta veterano, “Cães Selvagens”. Pena que se as realizações do mais velho ajudaram a compor a estética de sucesso do mais novo, sua inspiração nas aquisições do discípulo soa apenas como uma cópia de pior qualidade.

Insistente em a todo o momento afirmar seu frenesi, no longa estrelado por Nicolas Cage, Willem Dafoe e Christopher Matthew Cook, o diretor revisita personagens amorais que habitam universos corruptos e explora as convenções dos “crime movies”. Adaptado do romance homônimo de Edward Bunker – ex-criminoso que já fez pontas no cinema, inclusive como Mr. Blue em “Cães de Aluguel”, filme de estreia de Quentin Tarantino -, somos apresentados a Troy (Cage), que acaba de sair da cadeia e se reencontra com seus parceiros Mad Dog (Dafoe) e Diesel (Cook). Voltando atividades ilícitas, eles se deparam com a oportunidade de ganhar muito dinheiro com o sequestro do filho, ainda bebê, de um mafioso.

Economia passa longe na hora de contar essa história. Cortes frenéticos, slow motion, fast motion, abuso de transições em cortina, cenas ora em cores neon, ora em preto e branco, atuações histriônicas, situações e diálogos absurdos e muito, muito, sangue. Em um primeiro olhar, pode parecer promissor, mas a execução mostra o contrário. Afinal, se esses métodos já consolidaram a estética de outros filmes do gênero, por que não funcionariam com este? Aí é que entra a grande questão: utilizar deliberadamente certos artifícios que trouxeram resultados positivos em boas produções, não é garantia imediata de qualidade

Esforçando-se demais para parecer cool, o investimento de “Cães Selvagens” em recursos extravagantes soa completamente arbitrário. A sensação é que os realizadores listaram todos os mecanismos que poderiam deixar o longa ideal para o paladar do público consumidor de filmes cult, sem pensar em suas reais funcionalidades.

O excelente trabalho de fotografia do estreante Alexander Dynan, por exemplo, é bem sucedido em evocar o kitsch, a violência e o delírio dos personagens, mas sua alteração de composição em sequências específicas não parece ter propósito narrativo. Cenas fotografadas em preto e branco são muito bonitas, cores pastéis e a explosão de luzes estreboscópicas de boate também, mas sua aplicação precisa fazer sentido. Se o espectador quiser ver o filme apenas pela beleza das imagens ele pode acessar o YouTube ou ligar sua televisão na MTV e assistir aos videoclipes mais populares do momento. O que, infelizmente, a nova produção comandada por Paul Schrader consegue se igualar.

No roteiro adaptado por Matthew Wilder, ela esboça seus pontos fortes. Apesar de nesse quesito também insistir em estruturas exploradas com mais sucesso por outros filmes, como o texto ágil e humor negro, o longa quebra algumas convenções do gênero. A subversão se dá no conflito central da trama: o sequestro da criança desenrola-se fora do esperado,  revelando que o foco do filme não é na resolução da situação problema, mas sim em estudar psicologicamente seus protagonistas e entender os laços que unem três homens de personalidades tão distintas.

Para isso, o trio principal, arquétipos do líder racional, do capanga insano e do lacônico “montanha de músculos”, ganha peso com as atuações de atores consagrados. Nicolas Cage encarna com segurança uma figura cínica e egocêntrica, obcecado em parecer com o astro do cinema Humphrey Bogart e Willem Dafoe brilha ao trazer a nuances da loucura de Mad Dog, que ao mesmo tempo em que nos inspira ódio, nos provoca pena. Já o iniciante Christopher Matthew Cook surpreende ao trazer a insegurança, até certa vulnerabilidade, ao dar vida a um tipo de personagem que costuma ficar apagado, que segue a cartilha automática de criatura forte, fria e indiferente. A cena em que ele afirma não ser uma pessoa violenta após gritar com uma garota que acabou de conhecer no bar do hotel é uma das mais intrigantes da produção.

Entretanto, como um pedaço de pizza gelado – nunca saboroso e fresco quanto à comida do jantar da noite anterior  – “Cães Selvagens” entretém, mas se ele pretendia distinguir-se por sua abordagem pouco convencional, esquece que inovações também podem ser apropriadas e virar consenso. A esse fenômeno damos o nome de tendência, uns ditam, outros seguem. O filme novo de Paul Schrader acha que dita, mas  se enquadra mais na outra opção.

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