Crítica (3): Três Anúncios para um Crime

Um inseto de cabeça para baixo luta para ficar de pé. Uma mão de traços rudes aproxima-se. Ela irá esmagá-lo, pensa o espectador. Ao contrário, no entanto, ajuda-o. Essa curta sequência funciona como uma perfeita apresentação de Mildred Hayes, a bruta, porém doce protagonista de “Três Anúncios para um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017).

Mildred (Frances McDormand), indignada com o fracasso da polícia em encontrar o assassino de sua filha, contrata três outdoors no local onde ela morreu, uma estrada abandonada. Com os dizeres “Estuprada enquanto morria”, “E nenhuma prisão ainda?” e “Por quê, Chefe Willoughby?”, os cartazes chamam atenção para o caso e provocam reação pública. A maior parte da cidade acha cruel cobrar o delegado William Willoughby (Woody Harrelson), em estágio terminal de câncer pancreático. Ainda assim, a intransigente mãe mantém firme sua posição. Afinal, conforme denuncia em entrevista à televisão local, policiais como Jason Dixon (Sam Rockwell) estão muito ocupados torturando negros para resolverem crimes.

A partir dessa premissa, Martin McDonagh (Na Mira do Chefe Sete Psicopatas e um Shih Tzu) constrói um complexo roteiro, livre de discursos rígidos e antagonismos fáceis. Dotadas de sentimentos conflitantes, suas personagens fogem aos aparentes estereótipos e transformam-se constantemente. Dixon, por exemplo, à primeira vista um caricato policial racista e homofóbico, percebe a fragilidade de suas ideias enquanto enfrenta as consequências de suas ações. Nesse sentido, a desconfiança dita o tom do filme, e as diferentes noções de justiça dos cidadãos de Ebbing jamais se estabelecem como definitivas. Essa recusa em privilegiar uma versão em detrimento da outra ganha força máxima no diálogo final. Quando parece contradizer toda a construção anterior, o longa-metragem restabelece em poucas palavras seu sentimento motor: a incerteza.

Longe de restringir-se a um mero elemento narrativo, porém, a desconfiança também se manifesta em termos audiovisuais. A trilha musical de Carter Burwell, indicado pela segunda vez ao Oscar, vai além da simples ambientação folk inicial e opta frequentemente por dissonâncias. Ao fugir de associações óbvias, seu trabalho cria uma desconjuntura entre o visto e o ouvido e reforça a sensação geral de incerteza. Trata-se, dessa forma, de um interessante recurso, habilmente empregado e justificado dramaticamente.

A grande potência do filme, entretanto, reside nas atuações. McDormand, Harrelson e Rockwell, todos indicados ao Oscar, emprestam uma certa imperfeição humana às personagens. Graças às suas performances, o espectador consegue se conectar com Mildred, Willoughby e Dixon, ainda que não concorde com suas atitudes. O trio tem sucesso, ainda, ao equilibrar com extrema competência a tensão dramática e a acidez cômica de seus papéis. Oferecendo sólidos desempenhos, completam o elenco nomes como Caleb Landry Jones (Twin Peaks), Lucas Hedges (Manchester À Beira-Mar) e Peter Dinklage (Game of Thrones).

Com sete merecidas indicações ao Oscar, “Três Anúncios para um Crime” chega, por fim, como um dos favoritos a premiações. Deve sair, assim, da cerimônia do dia 4 de março com ao menos três troféus: o de melhor atriz para Frances McDormand – vencedora por “Fargo: Uma Comédia de Erros” (Fargo, 1997) –, o de melhor ator coadjuvante para Sam Rockwell e o de melhor roteiro original para Martin McDonagh. Caso vença ainda a categoria de melhor filme, será um válido reconhecimento à ascendente carreira do cineasta inglês, doze anos após seu primeiro e único Oscar com o curta-metragem “Six Shooter” (2004). Agora mais maduro, McDonagh oferece uma obra de maior profundidade, sem, contudo, deixar de lado as características celebradas pela Academia na década passada.

*O filme está em pré-estreia desde o dia 8 e estreia no próximo dia 15, quinta-feira.

 

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