Em Londres, 1980, a embaixada iraniana foi invadida por seis homens árabes armados que mantiveram mais de vinte pessoas como reféns e exigiam que seus compatriotas, aprisionados no Irã, fossem libertos. A forte política antiterrorismo de Margaret Thatcher não cedeu, provocando um cerco ao prédio que durou por quase uma semana. É nessa crise real que foi baseado o filme “6 Dias”, uma produção britânica e neozelandesa, dirigida por Toa Fraser e distribuída pela Netflix.

A trama do longa é uma recontagem dos fatos que ocorreram nesses seis dias, na maior parte através dos pontos de vista de três das figuras centrais do conflito: Max Vernon (Mark Strong), o inspetor da polícia encarregado de fazer as negociações com os terroristas, Kate Adie (Abbie Cornish), uma repórter ousada que cobre os eventos em tempo real, do lado de fora da embaixada, e Rusty Firmin (Jamie Bell), um membro das Forças Especiais do Exército Britânico que lidera o esquadrão destinado a se infiltrar no local e resgatar os reféns.

O roteiro, escrito por Glenn Standring, consegue adaptar bem o episódio para a tela e se foca bem mais na parte burocrática e no circo midiático do que na ação e em clichês do gênero. Por exemplo, mesmo com os principais sendo parte da polícia inglesa, os personagens dos terroristas não são transformados em completos vilões, sendo retratados mais como pessoas desesperadas, e até mesmo ingênuas, com uma história trágica, do que como sociopatas fanáticos.

Na direção, Fraser faz um trabalho competente, mas que deixa a desejar por permanecer no básico, resultando em uma produção que, a maior parte do tempo, não é muito memorável. Porém, são destacáveis as cenas de ação que, mesmo com cortes rápidos, transmitem claramente tudo que acontece através de planos estáticos, e até utilizam de planos longos e sem cortes em situações especificas, como em um dos treinamentos do esquadrão de Firmin.

A tensão é construída no primeiro ato com a sábia escolha de não mostrar nada que acontece dentro da embaixada, mantendo o telespectador às escuras, assim como os protagonistas. Porém, um problema que surge com isso é a perda do senso de urgência, já que a degradação da situação não é vista, causando a impressão de que os “seis dias” aconteceram em três.

Isso também é refletido em algumas atuações. Apesar de Mark Strong encarnar bem o papel do negociador e conseguir construir um personagem empático, ele não mostra muito desgaste com o passar do tempo. O mesmo não pode ser dito de Jamie Bell, que deixa transparecer o nervosismo de seu personagem, e de Ben Turner, que interpreta Salim, o líder dos terroristas. Já Abbie Cornish faz um bom trabalho como a repórter, mas sua tentativa de imitar a voz e o sotaque da mesma se torna uma grande distração em suas cenas.

A produção também opta por, na montagem, inserir diversas recriações e sequências da cobertura midiática britânica do caso. Essas cenas são inseridas no filme de maneira fluída e sútil, mas parecem ter pouco propósito além de relembrar constantemente de que, sim, é uma história real. O uso de cartelas no início do longa para apresentar locais e pessoas também é excessivo, visto que muitas delas constatam o óbvio ou são só apenas desnecessárias – não tem motivo para escrever na tela o nome e profissão de personagem em uma cena que já estabelece os dois por visual e diálogo -.

A duração de 90 minutos também dá a impressão de que “6 Dias” tentou resumir muito em pouco tempo. O resultado não é caótico, pelo contrário, é um filme que cumpre sua proposta e prende o telespectador, porém, acaba sendo genérico e básico demais, faltando o exagero de ficções de ação e o peso de adaptações baseadas em fatos. Ou seja: enquanto a “curto prazo” ele pode entreter, a “longo prazo” seu destino mais provável é o limbo digital de filmes esquecidos.

Crítica: 6 Dias
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